Texto - Porque ouço João Gilberto em Absoluto Silêncio, por Rogério Zanetti


Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de texto com o jornalista, radialista, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Rogério Zanetti, com "Porque ouço João Gilberto em absoluto silêncio"
PORQUE OUÇO JOÃO GILBERTO EM ABSOLUTO SILÊNCIO
Entre a voz e as cordas, o artista encontrou uma maneira de reorganizar o samba, transformar canções e fazer da delicadeza uma revolução musical.
Por Rogério Alexandre Zanetti (Para ler ouvindo Wave, com João Gilberto: https://open.spotify.com/intl-pt/track/3JbZ8W2aFTIEP6EidBlN38?si=55f754947bab43dd)
Há artistas que impressionam quando elevam a voz. João Gilberto me encanta justamente quando a diminui até o ponto em que só permanece o essencial. Ouvi-lo, para mim, exige silêncio. Um silêncio atento, disponível, capaz de perceber o que acontece entre uma sílaba e outra, entre o ataque de um acorde e a respiração que prepara a próxima frase. É como se fosse o silêncio que antecede o tapa.
Até hoje, esse encanto permanece. Conheço a gravação, reconheço a melodia, sei o que virá e, mesmo assim, alguma coisa me surpreende. Sua voz e a batida do violão parecem uma coisa só, duas manifestações de um mesmo pensamento musical, equilibradas de tal maneira que nenhuma precisa se impor à outra.
A impressão é de que estão rigorosamente na mesma frequência, no mesmo volume. Musicalmente, essa frequência é uma imagem de sintonia, já que voz e cordas produzem sons diferentes, mas em João encontram uma unidade extraordinária. O equilíbrio de intensidade é tão delicado que o ouvido deixa de separar cantor e instrumento. Tudo parece respirar junto.
A REVOLUÇÃO NA PONTA DOS DEDOS
É nessa construção que reconheço o grande gênio da música brasileira. João mudou a maneira de cantar e acompanhar uma canção. Com sua interpretação de “Chega de Saudade”, em 1958, ajudou a estabelecer a linguagem da bossa nova e abriu um caminho que atravessaria fronteiras e gerações.
No violão, sua mão direita condensava a pulsação do samba. O polegar sustentava os baixos, enquanto os outros dedos articulavam os acordes em desenhos sincopados — acentos que se deslocam em relação à marcação mais previsível do compasso. Há firmeza na base e movimento na superfície. Dentro de um instrumento, cabia a sugestão de uma pequena bateria de samba, apenas sugestão, que faz minha mente criar percussões dignas de acompanhar João que, mansamente, passa o ocupar todos os espaços da mente e do ambiente.
A voz tem outra liberdade. João pode antecipar uma frase, retardar uma sílaba ou prolongar uma nota enquanto o violão mantinha seu curso. Depois, tudo se encontra com uma naturalidade assombrosa. A unidade que escutamos nasce desse diálogo entre movimentos diferentes, no qual o canto flutua sobre a pulsação das cordas.
Sua emissão contida, os vibratos discretos e a atenção à duração das palavras permitem ouvir detalhes que uma interpretação mais expansiva poderia encobrir. Os acordes também participam do sentido da canção, numa mudança de baixo, uma tensão harmônica, uma pausa breve alteraram a luz de uma frase.
João faz essa complexidade chegar aos nossos ouvidos como simplicidade. Talvez seja essa uma das marcas mais altas do gênio: o trabalho rigoroso desaparece, e fica a sensação de que a música só poderia acontecer daquela maneira.
O SILÊNCIO TAMBÉM FAZ PARTE DA CANÇÃO
Por isso, prefiro ouvi-lo em absoluto silêncio. Qualquer conversa atravessada pode esconder uma pequena descoberta. Um ruído pode ocupar justamente o espaço em que ele deixou uma nota terminar. Isso me explica porque em seus shows João exigia silêncio máximo – que por conta disso adquiriu a fama de um dos artistas mais chatos da história – permitindo apenas o aplauso contido assim que a última nota se perdesse no silêncio.
E o silêncio permite acompanhar a arquitetura inteira, na precisão das entradas, a suavidade das terminações, a independência do canto, o balanço do violão. Permite, sobretudo, perceber que a delicadeza tem força. Há uma intensidade profunda naquela música que parece chegar sem esforço.
A cad
a nova audição, volto a experimentar o mesmo espanto de como alguém consegue fazer tanto com tão poucos elementos?
"SAMPA”, “ME CHAMA” E A LIBERDADE DE RECRIAR
João é autor e de grandes clássicos nacionais, bem como interpretou canções históricas de nossa MPB e do cancioneiro norte-americano. Mas, também se permitia atravessar os limites que os outros imaginavam ter em seu repertório. A bossa nova era sua linguagem, mas suas escolhas alcançavam canções de diferentes épocas e procedências.
Em “Sampa”, de Caetano Veloso, encontrou matéria para uma interpretação inteiramente sua. A canção, com suas frases extensas e sua rica relação entre palavra e melodia, ganhou outra distribuição de acentos e outra respiração. João reorganizou o percurso do canto sem perder a intimidade com o violão. O resultado é uma São Paulo que parece caber entre a voz e as cordas.
Ainda mais surpreendente foi sua aproximação com “Me Chama”, de Lobão. Uma composição associada ao rock brasileiro e à urgência emocional de seu autor recebeu a contenção e o tratamento musical de João. A aflição passou a ser percebida por outra lente — embora o compositor tenha discordado dessa transformação.
Há, nessa gravação, uma história reveladora. João omitiu o verso “nem sempre se vê mágica no absurdo”. Segundo o relato de Lobão, ao ser questionado sobre o corte,
respondeu que não havia entendido a frase. O autor ficou contrariado, considerava aquele trecho central para o sentido da música.
O episódio permite pensar na exigência do intérprete com aquilo que cantava. Podemos enxergar no corte uma busca de coerência com sua leitura da canção; essa, porém, é uma interpretação, não uma certeza sobre sua intenção. Para Lobão, houve uma perda, mas, para quem se encanta com João, a gravação permanece como exemplo de sua capacidade de descobrir outra música dentro de uma música conhecida.
UM ENCANTO QUE CONTINUA
J
oão Gilberto morreu em 2019, mas sua obra continua encontrando ouvintes pelo mundo. Suas gravações conservam aquela capacidade rara de interromper a pressa e pedir atenção. Ou seja, absolutamente necessário nos dias atuais
É assim que ele ainda encanta ouvintes, pela permanência de uma linguagem que continua viva a cada reprodução, a cada descoberta, a cada músico que se aproxima de suas cordas.
Quando o ouço, sinto alegria e orgulho da música popular brasileira. Orgulho de uma arte que levou ao mundo tamanha riqueza com uma voz baixa, um violão e uma precisão difícil de explicar inteiramente.
Meu encanto permanece porque João nunca se esgota. Sempre existe uma pausa que eu ainda não havia percebido, uma palavra que ganha outro peso, um acorde que parece iluminar tudo novamente.
Então faço silêncio. E deixo João Gilberto cantar.





Precisamos urgentemente de mais críticos apaixonados por música boa, como Zanetti.