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Artigo - O pós processo eleitoral, por Paulo Marcos Esselin

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 10 horas
3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o professor titular aposentado da UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Paulo Esselin, com "O pós processo eleitoral".


O PÓS PROCESSO ELEITORAL


***Paulo Marcos Esselin

Prof. Titular aposentado da UFMS


A democracia não se mede apenas pela disposição de vencer eleições, mas também pela capacidade de reconhecer derrotas, respeitar a vontade popular e aprender com os próprios erros. O resultado eleitoral de 2026 impõe esse desafio a vencedores e vencidos: abandonar o desprezo pelo eleitor, reafirmar o compromisso com as instituições e realizar uma autocrítica capaz de fortalecer a participação democrática.

Sempre acreditei na democracia, tendo o povo como fonte de todo o poder, esse é o princípio fundamental. Ao lado de muitos amigos, camaradas e companheiros de luta, combatemos firmemente a ditadura militar de 1964 a 1985. Demos pequena contribuição para o fortalecimento das instituições democráticas construídas após 1985, durante o processo de elaboração da nossa Constituição.

Hoje, segunda-feira, dia 5/09/2026, ao lado de muitos amigos e camaradas, deparo-me com um resultado inesperado: a maior derrota eleitoral de nossas vidas, pós redemocratização, muito superior à de 2018. Quando olho para o Congresso fico muito preocupado com o futuro da democracia no Brasil. Um exemplo desse temor começa aqui em Mato Grosso do Sul que elegeu senador o capitão Contar, ele mesmo, que disputou a eleição de governador em 2022 e após a derrota estava em frente aos quarteis ao lado de muitos apoiadores pedindo intervenção militar, para não permitir a posse do presidente eleito.

Resta saber se, após a posse, esse senador respeitará a Constituição e as instituições democráticas ou se atuará ao lado daqueles que, até hoje, demonstraram pouco apreço por esse regime. Mais do que uma dúvida sobre sua conduta individual, esse caso remete a um princípio que deve valer para todos: participar de uma eleição exige disposição não apenas para vencer, mas também para reconhecer a legitimidade da derrota e fazer da soberania popular o princípio fundamental.

Perdemos, as justificativas apresentadas pelo nosso campo continuam sendo as mesmas, pelo menos as que recebo. O povo é o grande responsável. De um lado, atribui-se a derrota à sua suposta ignorância e à falta de consciência de classe, sobretudo dos mais pobres, não são gratos e não foram capazes de considerar tudo que foi feito para eles.

Do outro lado, repete-se o mesmo desprezo contra eleitores de determinadas regiões do Brasil. As palavras do jornalista Rodrigo Constantino, bolsonarista de carteirinha deixam muito claro esse desprezo: “A Bahia é o câncer do Brasil, uma vergonha”, porque o resultado eleitoral no estado contrariou a preferência dele. Os hoje vencedores continuam mostrando todo o seu desprezo pelo nordestino.

Quando o resultado favorece um campo político, desaparecem, de forma oportunista, as acusações que seus integrantes fizeram, em passado recente, contra o processo eleitoral. Em 2022, as urnas eletrônicas foram apontadas como as grandes vilãs e responsabilizadas pela derrota do candidato situacionista, sob a alegação de que teriam alterado o resultado da eleição em favor do candidato do PT. Agora, porém, eles permanecem em silêncio, e ninguém volta a defender o voto impresso auditável. Repete-se, assim, a velha história: quando o resultado das urnas é favorável, as reclamações desaparecem.

Em setores da esquerda e da direita, surgem justificativas semelhantes para evitar uma análise crítica das próprias derrotas. Nesses casos, a soberba se manifesta quando dirigentes, militantes ou formadores de opinião desqualificam a escolha popular, atribuindo o resultado à suposta incapacidade do eleitor, em vez de examinarem as próprias estratégias, propostas e formas de comunicação. Ao transformar o povo em culpado, essa postura impede a autocrítica e dificulta a correção dos erros cometidos.

Dessa acachapante derrota, podemos extrair largo aprendizado. Para isso, precisamos olhar para nós mesmos e analisar com honestidade o que ocorreu: onde erramos, por que não conseguimos convencer os eleitores e o que devemos rever em nossas práticas, propostas e formas de comunicação. Este é o momento da autocrítica. Lembro-me, então, do meu querido amigo e camarada Fausto Mato Grosso, que nos ensinou a examinar nossos atos diariamente e a extrair deles lições para não repetir os mesmos erros.

Para finalizar, sempre respeitei os resultados eleitorais, mesmo quando foram muito desfavoráveis, como o que acabamos de presenciar. Participei ativamente do processo dentro das minhas possibilidades: escrevi, publiquei, denunciei e apontei falhas, sempre com base em evidências documentais. Perdemos, e aceitar esse resultado é parte do compromisso democrático.

Cumprimento o governador pela vitória conquistada nas urnas desejo a ele, aos deputados estaduais e federais e aos senadores com ele eleitos uma gestão responsável, competente e comprometida com a Constituição, com as instituições democráticas e com o bem-estar de toda a população. Reconhecer a legitimidade da vitória não significa renunciar à crítica, mas reafirmar o respeito à vontade popular e o compromisso com a democracia.

 
 
 

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