Conto - Gostosa traição, por João Francisco Santos da Silva


Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Gostosa traição".
Gostosa traição
Ela tinha até o último minuto para dizer não. Por dentro, com todas as forças, suplicou a si mesma que dissesse não. Esforço em vão. Tentou, mas foi vencida.
Tudo começou há dois anos, quando conheceu Ricardo numa confraternização da empresa. Homem bonito, mas nem tanto. Muito simpático, pelo menos o suficiente para contrair os lábios e ameaçar um sorriso entre uma garfada e outra. Afinidades, muitas, ao menos lembrava-se de uma: ambos eram gulosos por feijoada. Comiam o prato completo, sem deixar qualquer espólio do porquinho. Do rabicó, passando pelos pés e pelas orelhas, até o focinho do coitado, o casal traçava tudo.
E por falar em feijoada, só de pensar lhe vinham cólicas. Na despedida de solteira, nada melhor, ou pior, que recordar os bons momentos compartilhados pelos pombinhos desde que se conheceram, naquela feijoada do trabalho. De tantas lembranças esquecidas, uma sempre voltava à memória: a feijoada no Vitorinos. Quem diria que, em breve, estariam casados.
Trançou as pernas depois desse último pensamento, tentando prendê-lo por mais algum tempo. Igreja não era o lugar para ter sentimentos tão imundanos. E o padre, por que não terminava logo com seu sofrimento. Ela não queria ter chegado àquele ponto. Agora estava no seu limite. Se o padre perguntasse se ela aceitava casar com ele — sim, com ele mesmo, o padre —, ela casaria sem pestanejar. Na mesma hora, fugiria para a sacristia, desde que encontrasse uma única porta aberta: a do banheiro. Depois, aliviada, ela pensaria com calma sobre o que fazer da vida.
Tantos pensamentos passando pela cabeça. Sonhos impossíveis de realizar. Até que foi interrompida pela dramática pergunta do padre:
— Você aceita Ricardo como seu esposo e promete...?
— PRRRRRRRRROOOOOTT... SPLAAAASH!
O ruído forte anunciou a chegada da onda amarelo-castanha, que rapidamente tingiu a parte traseira do vestido branco. Sem vergonha de se amostrar à plateia silenciosa e expectante, o líquido sui generis saiu pelos pés da noiva e escorreu pelo chão, enfeitado com finos pedaços de couve.
O noivo, ao reconhecer os fiapos de couve navegando pelo chão da igreja, gritou indignado:
— Você me traiu. Foi no Vitorinos e não me disse nada!





Amei! intrigante.