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Texto/Poesia - Moçambique, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Moçambique".


MOÇAMBIQUE

Raquel Naveira


Moçambique é lugar lindo, de grande riqueza cultural. Localizado no sudeste da África, é banhado pelo Oceano Índico (serão os moçambicanos índicos?). A capital é Maputo. O idioma é o português (tenho curiosidade pela lusofonia) misturado a várias línguas nativas da família bantu. Raízes africanas com a herança da colonização portuguesa. Portos comerciais árabes sempre existiram no litoral moçambicano até a chegada dos europeus. A área foi reconhecida pelo navegador Vasco da Gama em 1498. Em 1505 foi anexada ao Império Português. Houve escravidão. Seres humanos eram comprados e vendidos. Fornecidos por chefes tribais, que invadiam os clãs vizinhos. Depois de quatro séculos de domínio português, tornou-se independente em 25 de junho de 1975 (passado tão recente). O país mergulhou em uma guerra civil intensa e prolongada. Milhares de portugueses deixaram o país, alguns expulsos, outros fugindo. Sob a presidência de Samora Machel, foi estabelecido o Estado unipartidário, marxista. Houve colapso de infraestrutura, falta de investimentos, crises de fome, corte de gastos, violência contra os direitos humanos, táticas terroristas, ataques a civis. Samora Machel morre num acidente de avião. O sucessor, Joaquim Chissano, implementou mudanças e a guerra terminou na década de noventa. Moçambique está novamente à beira de um conflito armado. Mais problemas relacionados com liberdade de expressão para a imprensa e a internet, abuso de mulheres e crianças, assassinatos de cidadãos. A terra treme com terremotos ocasionais, chuvas, enchentes, ciclones, deslizamentos. Mas o cotidiano continua ativo com universidades, música, comércio. A economia se estende pelos campos, minas de carvão, poços de gás natural. O povo desfila pelas ruas usando as capulanas, tecidos coloridos e vibrantes.

Foi nesse país tão complexo que nasceu o escritor e biólogo Mia Couto (1955), pseudônimo de António Emílio Leite Couto. “Mia”, apelido de infância, porque ele amava gatos. Exerceu a profissão de jornalista e de professor. É o escritor moçambicano mais traduzido no mundo. Membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.

Encontrei-o certa vez durante uma palestra em São Paulo. Entra o escritor africano loiro, de olhos azuis, fala mansa e segura. Fiz-lhe uma pergunta sobre seus livros infantojuvenis, que ele respondeu com a mesma chave existencial: “_ A infância é fase poética da existência.” Tudo ficou gravado e, há pouco tempo, uma professora, pesquisadora da obra de Mia Couto, contou-me: “_ Estava assistindo à palestra, quando você se levantou e fez uma pergunta.” É verdade, meu grande prazer sempre foi estar com meus pares, ouvindo os escritores, partilhando descobertas.

De todos os seus livro, o que mais me marcou foi o premiado romance “Terra Sonâmbula” (1992). Uma verdadeira aula sobre a arte de narrar histórias, de ver a realidade através das palavras, que, por sua vez, geram suprarrealidades. No Moçambique pós-independência, mergulhado numa devastadora guerra civil, um velho (Tuhair) e um menino (Muidinga), as pontas da vida, de mãos dadas, penetram as savanas secas cheias de poeira, cadáveres e cinzas. É uma viagem mítica, cheia de fantasmas, de palmeiras tremulantes. Encontram numa mala os cadernos de Kindzu e as histórias vão saltando das páginas, trazendo esperança e propósito.

Alguns pontos que me fascinaram nesse relato: a conservação da grafia vigente em Moçambique; o grande número de palavras características do linguajar moçambicano, trazendo a necessidade de um glossário ao final do livro e as inúmeras e belas imagens poéticas, que nos aproximam da prosa de Guimarães Rosa.

Por exemplo: o “autocarro” ou “machimbombo” é um ônibus lúgubre, apodrecido, sobre o qual “ a noite toda se vai enluarando. Pratinhada, a estrada escuta a estória que desponta dos cadernos”. Quanta melancolia. “Eu via o meu país como uma dessas baleias que agonizavam na praia.” Mia Couto é fazedor de rios, observador das raças das nuvens e da água que chora com pena de uma viúva, que perdeu seu marido.”

Ler Mia Couto é suspirar entre comboios e aboios de guerra. Escrevi:


No tempo de antigamente

A gente morava em Moçambique,

Na savana seca,

Distante do mar,

Sem chuva,

Sem uma gota sequer,

Sem nenhuma nuvem que nos pasmasse.


No tempo de antigamente,

Em Maputo,

Era muito sofrimento,

Ventos do Apocalipse

Sopravam dizendo:

_ Fique,

No alambique

Fermenta o vinho das palmeiras

Que cobre tudo de suor

E esquecimento.


No tempo de antigamente

Só a figueira,

Morada dos defuntos,

Tinha folhas verdes;

Cadê milho?

Vagens?

Feijoeiros?

Hienas passeavam entre cinzas e poeira.


No tempo de antigamente

Fantasmas vagavam

Pelos caminhos,

Minha família se quebrou,

Esfarelou no chão

Como um pote

Em som de repique.


Estique esse fio de memória,

Foi no tempo de antigamente

Em Moçambique.

 
 
 

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