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Texto/Poesia - A sororidade e a sóror Mariana Alcoforado

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 19 de set. de 2024
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "A sonoridade e a sóror Mariana Alcoforado.


A SORORIDADE E A SÓROR MARIANA ALCOFORADO

*Raquel Naveira


O conceito de “sororidade” hoje está fortemente ligado ao feminismo. É uma dimensão ética do movimento de igualdade entre os gêneros. Uma espécie de união, de aliança entre as mulheres com afeto, amizade, empatia e companheirismo. Visa combater a antiga rivalidade entre as mulheres, estimulando que elas se apoiem com altruísmo. O termo “sororidade” dá, portanto, uma ideia de “irmandade” entre as mulheres. A origem dessa palavra está no latim “soror”, que significa “irmã”. É a versão feminina de “frater” (irmão) que gerou o substantivo “fraternidade”. Sóror era a forma de tratamento usado para freiras professas, irmãs, madres dos conventos, monjas. Ser religiosa era um ideal de isolar-se por fé e cálculo da sociedade. Viver uma vida reclusa entre livros, jardins, meditações, silêncio e votos solenes. A literatura é rica de vozes de freiras solitárias desnudando suas almas em preces, poemas e cartas, quer como autoras, quer como personagens.

São emocionantes as Cartas de Amor ou Cartas Portuguesas da Sóror Mariana Alcoforado. Publicadas pela primeira vez na França em 1669, essas cartas são uma das obras mais populares da Literatura Portuguesa. Mariana nasceu em Beja, em 1640. Desde menina professou no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em sua cidade natal. Conhece Chamilly, oficial francês servindo em Portugal, durante as guerras da Restauração. Apaixonam-se. Ele regressa à França por ordens militares. Trocam cartas, das quais só restaram as escritas pela freira, que falece em 1723, após amarga penitência.

Em 1810, Filinto Elísio verte as cartas do francês para o português. As cinco cartas envolvem um enigma ainda indecifrado: quantas cartas foram trocadas ou enviadas entre os amantes? Em que língua foram originalmente escritas? Houve colaboração de quem na sua publicação?

Aceitando a ordenação tradicional das cartas, a terceira contém o ápice da paixão entre a freira portuguesa e o oficial francês. Impressionam a fúria, a franqueza, o desembaraço como Mariana rasga a sua intimidade, o seu coração, o seu amor ferido. São avassaladores apelos amorosos, transes confusos, oscilações febris, impulsos carnais e espirituais, sensuais e místicos, num vaivém de afirmações e negações contínuas. Não há pudor diante do homem amado. Certamente acreditava em sigilo perpétuo. Mal sabia ela que essas cartas seriam lidas por milhares de leitores ardorosos até os dias atuais.

Coloquei-me na pele da freira e surgiu o poema “Confissão de Mariana”:


Foi aqui,

Neste convento

Cheio de varandas

E flores perfumadas,

Perto daquela fonte,

Daquela bacia esculpida,

Que eu, freira Clarissa,

Conheci o amor da minha vida:

O oficial francês Chamilly,

Paixão proibida,

Insana,

Incontrolada.

Foi aqui,

Neste convento,

Na cela e no porão

Que me entreguei a ele,

Sufocando-o com meu manto negro

Brocado de estrelas.


Depois que ele partiu,

Foi daqui,

Deste convento,

Que enviei a ele cartas

Tão tensas e dramáticas

Que estilhaçaram meus nervos

Em transes e sangrias.


Foi deste banco de mármore,

Perto do laranjal, que,

Traída e abandonada,

Escrivã sem pejo,

Expeli toda minha fúria,

Minha ânsia,

Meu ódio

De fêmea pagã

Queimando de desejo.





Escrevi:

“A esperança me proporciona prazer,

Só quero sentir a minha dor,

Que seria de mim sem esse amor e esse ódio

Que enchem o meu coração?

O que vai ser de mim?

Morro de vergonha.”


Neste convento

Feneço

Na carne e no espírito,

Eu, amante suprema,

De doçura extrema,

Ofereci-me a um cínico,

A um ingrato

E por ele me mato

Como Cristo

Nas dores do calvário.


Interessante como a palavra “sororidade”, ligada às vivências da experiência cristã, ao ascetismo, com austeridade e disciplina, passou a ser incorporada no vocabulário das mulheres contemporâneas. Esse modelo monástico teve grande impacto na Idade Média, apresentando-se como civilizatório e moralizador. Alguns mosteiros tornaram-se as primeiras Universidades, abrigando grandes bibliotecas. Era uma opção de independência, de possibilidade de estudo para as mulheres, pois ler e escrever eram privilégio de uma pequena parcela da população.

Sóror Mariana Alcoforado, mulher, monja, escritora, bebeu do cálice da Dor e da Arte. Pratiquemos entre nós uma sororidade que seja compreensão, auxílio mútuo e amor.

 
 
 

2 comentários

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20 de set. de 2024
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❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

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20 de set. de 2024
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O VERDADEIRO AMOR NÃO CONHECE BARREIRAS E NEM CONVENÇÕES .

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