Texto Poético - Merda, por Inorbel Maranhão Viégas
- Alex Fraga

- há 2 horas
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético com o jornalista, poeta e escritor de Brasília (DF), Inorbel Maranhão Viégas, com "Merda".
Merda
Desejar "merda" no teatro é uma tradição. É o equivalente ao desejo de boa sorte, que tem origem distante, no Século XIX.
Naquela época, muitos dos apreciadores da arte chegavam ao teatro em carruagens. E, não raro, a aglomeração de cavalos resultava em muito esterco na frente de teatro. Sinal evidente de casa cheia.
Dizem que vem daí o hábito dos artistas desejarem ”merda” uns aos outros antes da peça começar.
Passados quase três séculos, me vejo aqui celebrando em silêncio hospitalar respeitoso, também um merda que significa boa sorte.
Já são três idas ao banheiro sem sinal algum de sangue. Na última delas, às cinco da manhã, protegidos pela intimidade da porta fechada do banheiro, constatamos outra vez: estava tudo livre de sangue.
Sem me conter, dancei feliz pelo que eu, nunca antes na história da minha vida, pensei dançar.
Preta me repreendeu, sem, entretanto, conter um sorriso no rosto.
Celebração amplificada pela notícia que recebemos, ainda no começo da madrugada. Uma mensagem amorosa nos informava o resultado da coleta noturna de sangue.
A hemoglobina se mantém em viés de alta, atingindo a casa dos 8.2!
A noite foi mais do que tranquila! E o dia começa com um sinal indiscutível de boa sorte, a caminho da cura.
Enquanto aguardo ansioso a chegada do café da manhã (que eu nem vou me importar caso venha frio, como sempre veio, nestes quinze dias de UTI) cantarolo em pensamento um Alceu Valença legítimo:
“Tu vens,
Tu vens…
Eu já escuto
Teus sinais…”
Inorbel Maranhão Viégas





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