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Conto - O gênio apressado, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O gênio apressado".


O gênio apressado


Por descuido, espetou o dedo na ponta exposta de um parafuso na porta da livraria. Pelo indicador direito escorreu o liquido vermelho. A visão do próprio sangue lhe fez desmaiar. Quando acordou, percebeu que o machucado não justificava o desmaio. Apenas um pequeno orifício e nada mais. Meio envergonhado, tomou a água oferecida pelo funcionário da livraria e, assim que pode, escapou do lugar do vexame.

Além da vergonha, saiu com uma sensação estranha. Durante o tempo em que permaneceu desacordado teve um sonho meio diferente, ou teria sido pesadelo? Nele, um gênio igual aquele do Aladim lhe apareceu e ordenou que fizesse três pedidos. O gênio, impaciente e meio ansioso, possuía uma atitude intimidadora.

— Vamos ser rápidos. Eu sou o gênio da lâmpada e você deve me fazer três pedidos! Já lhe adianto que não precisa pedir para não desmaiar quando ver sangue. Esse tipo de frescura passa sozinho e daqui uns tempos você poderá ver sangue de qualquer outra pessoa! Então? Quais são os seus desejos? — Vai logo garoto. Não tenho o dia inteiro para perder com você.

— Éeee.... — O menino de 14 anos ficou paralisado, pego de surpresa pela presença daquela criatura exótica parada em sua frente. Difícil pensar rápido e escolher três desejos.

O gênio olhou o jovem de cima abaixo. Magro, alto, meio encurvado, com os braços cumpridos e sem saber onde enfiá-los. Tinha as maçãs do rosto vermelhas de vergonha, com espinhas na testa e no queixo. Ele fungava o tempo todo, puxando a coriza que insistia em escorrer pelo nariz. A roupa também não ajudava a melhorar sua aparência. Vestia calça jeans puída e um casaco de lã fina. Nos pés um par de tênis branco, encardido e encharcado pela chuva.

— Você parece sentir frio. Também, só com esse casaquinho e os pés molhados. Ninguém merece o clima dessa cidade! — Bufou o gênio entediado.

O menino tentou responder algo, mas só conseguiu mover a cabeça, concordando com a estranha criatura. De saco cheio e vendo que o jovem não conseguiria fazer os pedidos, ele resolveu abreviar a conversa.

— Não precisa ser nenhum gênio da lâmpada, como eu sou, para conhecer seus anseios. Por isso mesmo, sem você me pedir, eu lhe concedo os seus três maiores desejos. Quer saber quais são? — Perguntou o gênio com um sorriso perverso no rosto.

O menino fez que sim com a cabeça.

— Que pena! Demorou muito para me responder. Deixe ver minha agenda, ela anda bem cheia ultimamente. Então, acho que só daqui uns... 40 anos você saberá quais foram os desejos concedidos. Ha, ha, ha! Sacaneei — riu o gênio sádico, evaporando-se no ar.

No sábado de manhã, o homem deixou a preguiça de lado e foi ao sebo. Fazia tempo que queria comprar uns livros de espanhol. Lembrou-se que na adolescência costumava ir à loja de livros usados. Ela ficava na mesma praça do ponto de seu ônibus. Na volta do colégio para casa, antes de pegar o expresso, parava na livraria e lá se perdia em horas folhando livros e gibis. Depois ia embora, na maioria das vezes, sem comprar nada.

O homem mudou de cidade, mas o sebo de agora, como o do passado, também se situa numa região central e movimentada. Lugar difícil para estacionar, precisou deixar o carro a seis ou oito quadras da livraria. Para quem só andava de carro, pode novamente experimentar a gostosa sensação de caminhar a pé pelas ruas. Sentia-se bem e não se incomodava em suar um pouco. Podia ir procurando uma sombra aqui e outra ali. Como as coisas mudam, na cidade onde cresceu ele fazia justamente o contrário, andava buscando o lado da rua com alguma réstia de sol. Cidade no alto da serra, com muitos prédios altos e o céu sempre nublado, lá o sol era artigo de luxo.

Embora houvesse algo de aleatório em sua atual ida ao sebo, pois não sabia qual livro encontraria, dessa vez levava no bolso o dinheiro necessário para comprá-lo. Carro, dinheiro no bolso, sol e calor. Pensando bem, não precisava de mais nada. Tinha um fusquinha 1979, dinheiro suficiente para comprar um livro usado e vivia numa cidade cheia de sol. Nunca mais passou frio, nem precisou andar o dia inteiro com os pés molhados. Podia se considerar um sujeito feliz.

Seguia pela rua, distraído em seus pensamentos, e não viu um andaime sobre a calçada, em frente a uma loja em reforma. Bateu a cabeça na quina do andaime cortando o supercilio. Não demorou para um filete de sangue escorrer pela testa.

— Você de novo? — Disse o homem caído na calçada.

— Eu mesmo, o gênio da lâmpada. Mas hoje estou um pouco apressado, então seja rápido no pedido. Caso contrário, serão outros 40 anos, e na sua idade já não se tem tanto tempo assim para perder com indecisões.

— Eu quero morar numa praia do Caribe. Quero ter dinheiro sobrando, e não apenas o suficiente. E uma Ferrari na garagem — disse o homem, que depois de 40 anos, já conseguia se decidir um pouco mais rápido.

— Ah! Esqueci de avisar, mas você só pode fazer um desejo! Na outra vez que nos encontramos eu, para variar, estava com pressa, e um dos desejos ficou incompleto. Hoje vim apenas para terminar o meu trabalho.

— E quais foram os meus três desejos?

— Deixe-me ver — o gênio fingiu estar pensando e logo respondeu — Primeiro desejo: não passar frio; segundo desejo: dinheiro para comprar gibis e livros usados e terceiro desejo: não desmaiar quando ver sangue.

— Mas eu não lhe pedi essas coisas! — Disse o homem ensanguentado e indignado.

— Agora você está sendo mal-agradecido comigo. Se for contabilizar todos os seus desejos realizados, foram até mais de três. Olhe a cidade em que mora: Campo Grande. Já pensou se eu tivesse mandado você para Comala? Ou pior ainda, para Corumbá? Você torraria por lá! — E além de nunca mais passar frio, eu também lhe permiti ter os pés e as vias aéreas sempre secas. E olha como fui atencioso, da última vez que nos encontramos, mesmo não me falando, eu percebi que em Curitiba você vivia com uma rinite incurável. Também lhe dei dinheiro suficiente para saciar seus maiores sonhos de consumo. Não sou psicólogo, mas vai entender por que você só queria gibis e livros usados? E de bônus, e pensando em seu futuro, lhe dei um fusca 1979, e olha que naquela época você nem sabia dirigir.

— Então qual é o desejo que ficou faltando? — Perguntou o homem sem a menor disposição para continuar a conversa com o gênio.

— Faltou um pequeno detalhe, apenas umas palavrinhas para seu desejo ficar completo. Lá vai: Você poderá ver sangue de qualquer outra pessoa, inclusive o seu! — Agora é até nunca mais. Ha, ha, ha! — Bradou gênio desaparecendo no ar.

O homem passou a mão no rosto, limpando o sangue. Depois olhou para os dedos sujos de vermelho e, com as pernas firmes, continuou em seu trajeto. Não desmaiou, porém, seguiu com um incomodo diferente. Uma insatisfação nunca experimentada.

 
 
 

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