Texto - Carta a Paulo Bomfim, por Raquel Naveira


Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Carta a Paulo Bomfim".
CARTA A PAULO BOMFIM
Caro poeta Paulo Bomfim,
Vim do sul de Mato Grosso, uma terra dotada de esplêndida beleza natural registrada na literatura por escritores como o Visconde de Taunay, Manoel de Barros e Hernâni Donato. Terra de garças, sucuris, camalotes, guavirais e onças-pintadas. Quando cheguei a São Paulo, trazida pela necessidade de trabalho e cultura, desejei ardentemente conhecer e amar esta cidade, sentir seu coração, o lugar palpitante onde escorrem sangue e águas primordiais. Foi assim que visitei a Academia Paulista, no Largo do Arouche, onde o encontrei: um príncipe, um cardeal das Letras, um homem simples e digno, que preza a convivência e a cordialidade entre seus pares.
Ouvir sua voz, sempre emocionada e enternecida, é penetrar em bosques ancestrais, na história dos bandeirantes, que ergueram povoados e igrejas, que desceram rios em busca de novos rumos e fronteiras. É admirar quem utilizou os meios de comunicação, jornal, rádio e televisão, para testemunhar os fatos de seu tempo de forma justa e, simultaneamente, realizar uma volta proustiana ao passado paulista.
Imagino a sua trajetória, habitando vetustos casarões, sentindo o cheiro dos cafezais, registrando a arqueologia de antigas memórias, andando pelas avenidas de uma metrópole complexa, assistindo a uma imigração tensa, a crises do capitalismo mundial, a guerras, a comícios de ideias, à luta bruta por dinheiro, ao contraste entre ricos e pobres. Nada abalou sua têmpera de poeta, que muito jovem borbulhou num caldeirão antropofágico. Foi retratado por Anita Malfatti. Teve seu livro Antônio Triste ilustrado por Tarsila do Amaral e elogiado por Guilherme de Almeida, que reconheceu em seus versos o mais profundamente significativo dos poetas de São Paulo.
Ler seus poemas é sorver a mais alta filosofia, o atavismo de mares, barcos e albatrozes que vêm de longe numa viagem através de si mesmo, movida por nervos e emoções. Porque sua poesia é de sabedoria e autoconhecimento, peregrino do vento, que se alimenta do efêmero enquanto constrói a eternidade.
Ouvi-lo e lê-lo é participar da herança paulistana, é andar com passos de espuma pelas ruas cheias de infância e de lembranças que se movem dentro de seu imaginário. É percorrer túneis que terminam em monumentos, onde se recostam anjos e mendigos.
Desejei ardentemente conhecer e amar São Paulo. Realizo esse desejo quando tenho a honra e a alegria de abraçá-lo, poeta. Como o faço agora, de forma afetuosa e fraterna, no seu aniversário, nesta data de primavera,
Raquel Naveira
*Carta escrita para o livro Mil Cartas para o Poeta, organizado pela jornalista Di Bonetti, para o aniversário de 89 anos do poeta Paulo Bomfim, no dia 30 de setembro de 2015. E agora, neste ano de 2026, será celebrado o centenário do poeta. A abertura acontecerá no dia 10 de setembro, às 18h, na Academia Paulista de Letras, com leituras de Mariana Ianelli e Bruna Lombardi, além de saraus e inauguração de estátua no Tribunal de Justiça de São Paulo, onde ele trabalhou por vários anos. Muito bom esse amor, esse reconhecimento por um poeta que marcou a literatura brasileira.





Raquel Naveira. A ideia concebi esperando angariar 89 cartas para o poeta Paulo Bomfim... mas, foram 128 cartas escritas em 2015 e agora transformada em livro para comemorar o Centenário do Poeta Paulista. Ele leu todas. Amou e se emocionou. CARTAS DE AMOR AO POETA será lançado pela Editora INFOARTES, dia 26 de setembro no Instituto Histório e Geográfico de SP as 10 horas da manhã, com uma homenagem do IHGSP. Te espero lá. (Di Bonetti)