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Texto - Nonsenses florais, por Sylvia Cesco

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 5 horas
3 min de leitura

Sexta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Sylvia Cesco, com Nonsenses florais.


Nonsenses florais.

                        Sylvia Cesco

Em manhãs de finos estiletes sangrando sóis, me encanto com imaginárias hortênsias e margaridas bailando ao meu redor. São suaves. Mas são teimosas. Querem porque querem que eu as acompanhe sei lá pra onde. Dou um rodopio fingindo que vou, mas não vou: -Perdão, senhoritas, mas tenho compromisso mais importante”, digo-lhes. Todavia, não me entendem e eu também ainda não domino o idioma flóreo, de modo que ficamos todas por ali, espiando umas às outras, espiando o mundo, espiando a vida, num ato amadurecido e ao mesmo tempo infantil de posse (Não são assim as crianças quando veem algo que lhes agrade? “É meu! É meu!”). Leonardo da Vinci questionava os homens de seu tempo: “Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? [...] Ó admirável necessidade! Quem acreditaria que um espaço [do nosso corpo físico] tão reduzido seria capaz de absorver as imagens do universo?”. E é isto que estamos ora vivenciando: apalpando emoções apenas com nossos olhares, que são muitos, são milhares. Aliás, estamos todas nós tal como sugeriu o filósofo francês Maurice Merleau Ponty: nos olhando e nos possuindo à distância, já que o olhar apalpa as coisas, repousa sobre elas, viaja no meio delas, mas delas não se apropria. Para Maurice, haveria um inter mundo humano para que todos pudéssemos, apesar dos paradoxos existenciais, dar significados às coisas que percebemos ao nosso redor. Filosofia fenomenológica à parte, é exatamente isso que costumo fazer nas manhãs que sangram sóis, como esta de hoje. Porém, é preciso cuidar para que minha secreta esfinge não se perca em labirintos onde habitam os espantalhos do Tempo e nem finja desconhecimento da existência de externas alegorias que nos querem fazer acreditar que “do outro lado é o meu não- corpo”, pois sou inteira, mesmo sendo feita de pedaços, mesmo estando eu despetalada em retalhos. E nem é mais preciso ir em busca do significado dos versos de Robert Creeley :“Dor é uma flor como aquela, como esta, como aquela, como esta, como aquela, como esta”. Tudo está bem claro dentro de mim, agora. De repente, me dou conta de que eu estava rodopiando com teimosas margaridas e hortênsias e que as madames haviam sido esquecidas por instantes. De modo imperceptível, me volto para elas: -Entendestes? -Não, me respondem a um só solfejo. Por que não?,pergunto. Pelo simples fato de não sermos capazes de fazer de três espasmos contraídos um único silêncio. Não se avexem, meninas, eu vos ensino”, digo-lhes soletrando girassóis. Prestai atenção, falo em voz professoral: - Primeiramente, há que vos sentirdes demasiadamente humana e vos deixardes quarar penduradas num varal de solidão. Enquanto esperais o vento ventar, deveis celebrar os vazios (isso quando houver) escondidos em cada prega de uma saia rendada “cheirando a guardado”. Mas, cuidado: nunca, jamais vos se desequilibreis nas delicadas tardes de chuva. Já não vos disseram que toda palavra queima se vier predestinada a poema? Pois é. Se gotejardes em si bemol, vos asseguro que tudo será mais fácil, mais rápido, acreditai. Se bem que vos garanto também, conforme já andei apregoando nas esquinas e nos parapeitos dos muros e até mesmo pelo Correio: ser completa não é sinal de inteireza. Afinal nenhuma pétala vossa ou nenhum pedaço meu hão de fazer falta e se algum deles se afastar é porque não cabe dentro de nós. Deixai, pois, que se vá. E nunca, nunca vos esqueçais de que, entre o gosto e a semente da romã, mil séculos se passaram num segundo, e a poesia é tão somente um mundo às avessas: bela, muito bela, refletida nos versos de Raquel Medina: “Pra desmorrer algumas vezes ao dia, sigo escrevivendo. Pássaro não fui nem sou. O futuro é o antigamente reformado e na poesia eu voo, na poesia eu vou (-me embora pra Passárgada)” - Donas hortênsias, senhoras margaridas (e todos quantos forem os viventes empetalados de asas poéticas): “Escrever é uma dor feliz”. Esse é o mantra que a poeta nos legou. Aprendamos, pois. Prometei fazê-lo? -Prometemos, com gosto, me responderam as meninas “antes que a boca da tardinha as devorasse”

 

                      

 
 
 

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