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Entrevista - Moacir Lacerda: "É preciso cantar e escrever sobre nossos valores de alma !".

A entrevista de quarta-feira no Blog do Alex Fraga é com Moacir Lacerda, músico, cantor, compositor, pesquisador e um dos fundadores da grande referência há 50 anos na música regional sul-mato-grossense, Grupo Acaba - "Cantadores do Pantanal". Ele comenta sobre trabalhos musicais, pesquisa, projetos que foram realizados e aqueles que estão em pauta. Um artista que sempre lutou pela preservação e a identidade cultural do Mato Grosso do Sul.

Blog do Alex Fraga - Você é um dos poucos artistas do MS que faz um trabalho musical de pesquisa. Por que esse "quase" desinteresse por parte dos outros?


Moacir Lacerda - O pesquisador trabalha com histórias e fatos de um mundo desconhecido ou parcialmente não revelado a todas as pessoas. São abordagens e conclusões inovadoras que precisam de tempo para essas novas impressões da arte musical possam ser assimiladas. O próprio processo que abordamos com a Música e Cultura do Pantanal - cujo início consciente foi a partir de 1965 - somente começou assimilada gradativamente a partir de 1979, a com a consolidação da divisão do estado de MT e a criação do estado de MS. O novo estado precisava de uma identidade cultural e aí o Pantanal caiu como uma luva para despertar o orgulho e as referências naturais e artísticas de nosso povo. Daí despertou em nossa população o sentimento de preservação ambiental que antes pregávamos e então selaram fileiras para defesa ecológica do Pantanal e meio ambiente ! Tal fato também ocorreu quando em 1975 iniciamos com a música Kananciuê os registros de nossas impressões sobre nossa constituição sociológica e abordamos as questões indígenas. Onde fizemos denúncias sobre o sofrimento e espoliação dessas comunidades e etnias. Tal abordagem e denúncias que realizamos ainda não foram assimiladas pela população e também pela própria classe artísticas. A isso se deve o poder econômico de segmentos do estado que não tem solidariedade ou apreço pela cultura indígenas. Entretanto, é preciso continuar cantando as cores e as dores do Pantanal, do nosso povo e das minorias que vivem à margem do desenvolvimento econômico e social !


Blog do Alex Fraga - Alguns relatam que a identidade cultural do Estado é "ameríndia" outros discordam. O que realmente tem de verdade?


Moacir Lacerda - Como disse anteriormente, há uma opressão dos poderes econômicos do estado, oriundas do agronegócio, onde não reconhecemos a importância cultural e econômica dessas etnias. A nossa identidade “ameríndia” está consolidada no nosso vocabulário, cultura, culinária e muitas outras referências históricas e geográficas que tem origem Tupi e Guarani. Entretanto, os conflitos agrários do próprio confinamento de culturas como os Caiuás, Ofaiés Xavantes e Kadiweus fazem com esses sentimento de “bugritude” sejam sufocados. Por isso nosso lema no Grupo ACABA desde sua formação foi que: “um povo só se torna grande e independente quando tem sua cultura preservada, e quando tem coragem para assumir sua "primitivadade”. A luta e a defesa de nossas referências culturais e de nossa verdadeira identidade precisam ser permanentes ! É preciso cantar e escrever sobre nossos valores de alma !


Blog do Alex Fraga - Após lançamentos de vários projetos, tem algo de novo que está em pauta?


Moacir Lacerda - Após o valioso trabalho que iniciamos em 2015 e que concluímos em 2022, sobre a Chama da Paz na América do Sul, através de uma Antologia Musical Literária com 312 faixas de gravações com a quase todos os agentes culturais da nossa música, história, literatura e poesia. O objetivo principal desta Antologia foi levantar o registro e debate sobre os 150 anos do término da Guerra do Paraguai com os países da Tríplice Aliança. Praticamente, todo o conteúdo e abrangência do Projeto A Chama da Paz continua inédito, e será assimilado sua importância ao longo dos próximos anos.

Aproveitando o período que ficamos reclusos durante a pandemia, retomei um projeto que deixei guardado por 15 anos, referente a vida, obra e epopeia do navegador espanhol Álvar Nuñes Cabeza de Vaca. A importância histórica deste personagem que viveu de 1488 até 1559, é fundamental para entendermos a história e a formação sociológica e cultural de MT, MS, Brasil, e de toda o Território Americano (América do Norte e América do Sul). Após uma pesquisa profunda em diversas publicações sobre a vida e obra de Cabeza de Vaca idealizei uma Ópera entitulada “Cabeza de Vaca, Andarilho das Américas”. Escrevi as letras, compus as músicas, fiz todos os arranjos e gravei todo o musical em estúdio profissional. No total são quase 40 obras músicas para contar cronologicamente e trazer lições atuais da vida de Cabeza de Vaca. Após montar todo este repertório que resultará num Álbum Livro do Grupo ACABA, agora entitulado, além de Canta Dores do Pantanal, como Canta Dores da América. Para ampliar essas abordagens, convidei diversos amigos artistas, escritores e poetas para compartilhei o Projeto Musical que idealizei, e assim abordar a saga e epopeia de Cabeza de Vaca para outras mídias culturais e artísticas. Nós já não estamos cantando sozinhos, veja os projetos que já estão concluídos, ou estão em andamento ou em estudos:

Albana Xavier - livro histórico

Claudia Finotti, Mara Calvis é o ilustrador Acir - livro infantil ilustrado

Olímpio Leme - Gibi ilustrado

Carlos Vera - artes visuais

Athayde Nery - enredo para uma peça teatral

Raquel Naveira - nova edição do cancioneiro

Jonir Figueiredo - exposição Cabeza de Vaca

Prof Gilson Martins e Mário Sérgio Lorenzetto - palestras e debates

Altair - Vídeos / clipes das obras musicais

Marlei Sigrist - história e folclore Ópera Teatral Cabeza de Vaca

Blog do Alex Fraga - O Grupo Acaba sem dúvida é a grande referência da música pantaneira. Tem alguma novidade para esse ano no que se refere a shows?


Moacir Lacerda - Infelizmente, existe uma grande dificuldade, e falta de fomento, em nosso estado para a montagem de shows e apresentações. Mas continuamos cantando - “mesmo sob a luz de lamparina” - e ocupando todos os espaços possível, seja em pequenos saraus, ensino e palestras em escolas do fundamental à universidade, e assim vamos disseminando nossas propostas culturais. Estamos com dois shows gravadas e ensaiados prontos para apresentações: A CHAMA DA PAZ NA AMÉRICA DO SUL e CABEZA DE VACA, ANDARILHO DAS AMÉRICAS.


Blog do Alex Fraga - Como enxerga o trabalho dos órgãos culturais? O que está sendo feito de bom e o que está faltando?


Moacir Lacerda -Temos nos nossos órgãos culturais, excelentes gestores com conhecimento e sensibilidade, que desempenham os poucos resultados possíveis com criatividade para superar a falta de um orçamento que realmente está muito aquém do que o necessário. É preciso que se cumpram por parte do Governo Estadual a aplicação da Lei de Cultura com a dotação de 1%. É preciso entender que investir em Cultura tem resultados econômicos para o estado e desenvolvimento social para todos ! É a economia criativa do Turismo e desenvolvimento dos diversos segmentos culturais e artísticos, onde muitos estados e países exploram com conhecimento e sabedoria !


Blog do Alex Fraga - A classe artística vem lutando há anos no que se refere ao 1% para a Cultura e nada se resolveu. Acredita que existe até um comodismo em não cobrar mais sobre esse assunto por parte dos artistas?


Moacir Lacerda - Como falamos anteriormente, há necessidade de mobilização para exigir do poder público o cumprimento da Lei. Temos feito pequenas reuniões com artistas visando montar estratégias para pressionar os governos, candidatos e agentes e se comprometerem com essa importante demanda ! É preciso romper o bioma Boi- Soja como único fator de desenvolvimento do estado ! É preciso que todos agentes culturais cerrem fileiras e levante suas vozes. Saímos de uma reclusão pandêmica onde centenas de artistas e técnicos ficaram em situação de extrema vulnerabilidade, e por isso justifico a falta de engajamento. Numa ação emergência nosso Sindicato dos Músicos - capitaneado pelo músico Beko Santanegra - atendia por mês cerca de 300 cestas básicas para socorrer músicos, artistas e técnicos. Mesmo diante de grande dificuldade, não estamos sozinhos. Temos a presença de Deus, dando saúde e sabedoria, temos a solidariedade dos amigos colaboradores, e temos pessoas preciosas como você querido amigo Alex Fraga que ao longo de sua vida tem enaltecido e defendido nossa Cultura ! Gratidão irmão!

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