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Crônica - Semeadura do Dia, por Paulo Portuga

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica poética com o professor, músico, poeta, compositor e escritor de Dourados (MS), Paulo Portuga, com "Semeadura do Dia".


“SEMEADURA DO DIA”


A gente abre os olhos e percebe que tudo não passou de um sonho. De um tempo que foi vivido e anotado na caderneta da memória, revista pelo subconsciente. Espreguiça sem sair da cama, tomando cuidado para não dar cãibras. Senta, examina o chão e procura os chinelos. Mais um dia para dar conta. Respira à frente do espelho. Se olha e se admira. Somos dois. Eu e minha imagem. Ela revela aquela pinta que não estava ali. Diz que eu engordei e briga comigo. Eu prometo a ela que tudo vai melhorar, que tudo vai ficar bem, mas preciso de um tempo — que passa numa urgência fatídica. O dia se abre em inúmeras possibilidades aleatórias. Um jogo de cartas que embaralhei na noite passada. É preciso apurar o foco. Cumprir os compromissos alheios, porque trabalhar é ajudar o outro.


Abro a janela para o sol e depois abro a porta para o ar do novo dia entrar. Aprendi com a física que não é o frio que entra, e sim o calor que sai. O mesmo calor que me fez suar e perturbou o meu sono se mistura com a quentura de fora. Já estou a caminho e olho para as árvores, para as pessoas apressadas, para o gato que cruzou a rua, para o sinal do carro, e penso que já posso prosseguir. O dia avança como as motos querendo chegar primeiro, para o entregador entregar o pedido no horário combinado, fugindo dos perigos do trânsito frenético e das propagandas espalhadas em outdoors que tiram a atenção dos pilotos e motoristas.


A manhã é como a infância, tem o frescor do novo. A gente ainda está se levantando para poder brilhar lá na frente. Crescer. Fazer o que tem que ser feito e fazer bem feito, sem olhar para quem. Quando crescemos, deixamos algumas roupas para trás. A gente vai trocando de pele, e aquele passado às vezes não nos serve mais. Bons ensinamentos não ocupam gavetas, mas amarrotam, é verdade. Por isso, devemos passar a lição para frente: lavada, enxugada e passada. Ser feliz é estar presente naquilo que se faz, com prazer, com amor e com esperança.


A tarde é mais lenta, não sei… me parece. Acho que o calor do dia deixa a gente mais preguiçoso, querendo um refresco, uma sombra e um ombro amigo para deitarmos a nossa cabeça e descansar. Contar com o outro faz bem. A amizade é a claridade do dia que faz a gente enxergar, e o amor é a luz que nos faz ver mesmo no escuro da noite. O amor está na boca da noite, me esperando chegar. Dependendo de como foi o dia, a paz me abraça. Precisamos cada vez mais de paz. Paz entre os homens, paz entre as crenças, paz nas desavenças. Paz! Palavrinha simples, tipo uma semente que todos devemos cultivar para que ela cresça como uma planta, sem impedimentos, e se torne uma árvore frondosa que nos dê bons frutos e novas sementes.


A noite chega com o dever para com o outro cumprido. Agora é consigo e comigo. Tempo de preparar nova semeadura. Refletir. Arar o solo, adubar e regar para que, quando o novo dia raiar, nos traga brotos verdinhos. Sementes de paz e esperança em solos de fraternidade e afeto. Eu sei que o mundo não é perfeito assim, mas é o meu pensar sobre o mundo. Por isso tenho insônias, e no escuro alguns fantasmas querem me acordar, puxando meus pés para um possível mundo invertido. Paz no coração é um bom remédio e, quando a sinto, eu posso dormir tranquilo outra vez.


Paulo Portuga, 01/2026.

 
 
 

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