Conto - O filho do amigo do tempo, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 21 de mar.
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O filho amigo do tempo".
O FILHO DO AMIGO DO TEMPO
Precisava ficar nas pontas dos pés e esticar os braços para alcançar a maçaneta. Pela porta entreaberta, seus olhos espichavam para o interior de um mundo repleto de fascínios. Lá dentro, sentado numa banqueta giratória, munido de pinça e lupa, vivia o Senhor do Tempo. Ele detinha o segredo de fazer o tempo voltar a vida. O menino sonhava em ser seu aprendiz e um dia, como ele, possuir o poder de dominar o tempo. Que vontade de participar daquele universo de engrenagens abertas e sons de tic-tac.
Antes de ter a coragem para chegar à terra do Senhor do Tempo, ingressou na escola e lá se distraiu com um novo mundo. A casa tornou-se pequena. Percebeu a falta de espaço no quarto dividido com os outros irmãos. Depois cresceu, ganhou estatura e já conseguia abrir, sem dificuldade, a porta do Senhor do Tempo. Poderia entrar e conhece-lo melhor, porém, não quis, ou não conseguiu. Frustrou-se ao descobrir que o Senhor apenas consertava o tempo perdido e esse não lhe pertencia.
Crescer lhe mostrou que os Donos do Tempo viviam em um mundo distante daquele de sua casa. Na escola, as roupas, os lanches e os carros estabeleciam as diferenças entre os filhos dos Donos do Tempo, e os outros alunos como ele. A partir de então, decidiu criar um mapa para chegar ao mundo dos Donos do Tempo. Jovem esperto, não tinha tempo a perder com meros consertadores do tempo.
Com o roteiro definido e a disposição para a jornada, seguiu em frente, sem olhar para os lados. Não queria desviar a atenção de seu objetivo: ser o Dono do Tempo. Um dia chegou ao destino planejado. E lá conseguiu ser dono de muitas coisas, até de uma coleção de relógios. Contudo, faltou sentir-se reconhecido e aprender a lidar com tal frustração.
As pernas fracas, desprovidas de musculatura, tornaram-se incapazes de sustentá-lo. Deitado na cama do hospital, o pai pagava o preço por uma vida sedentária. O filho o olhava pela porta entreaberta da enfermaria, sem vontade ou coragem para se aproximar do leito. A distância parecia lhe proteger. O homem moribundo, de Senhor de Tempo, tornara-se, para o filho, um homem medíocre e sem ambição. Ele não compreendia o pai ter escolhido oficio tão irrelevante e desvalorizado. Contentou-se em ser um simples consertador de relógios dos outros.
Voltou do funeral sentindo vontade de chorar. Buscou em sua coleção de relógios, entre os muitos que acumulara ao longo de anos, o mais antigo, o primeiro e o de menor valor. Relógio ganho do pai, com os ponteiros parados e que não fazia tic-tac. O pai lhe deu o presente com a intenção de apresentar seu melhor amigo ao filho. Quem sabe na curiosidade infantil, o menino traria de volta o tempo para o relógio estragado? O menino não o encontrou no relógio, muito menos travou amizade com ele. Não poderia ser amigo de algo que desejava ser dono. Levou quase uma vida o perseguindo na vã tentativa de possuí-lo.
Olhando melhor para o velho relógio, com os ponteiros parados e sem vida, lembrou-se mais uma vez do pai. O que o pai desejava deixar-lhe, nunca caberia em suas mãos. Talvez por isso, ele o levou consigo. Amigos antigos e inseparáveis, o pai partiu e o Tempo escolheu seguir junto com ele.





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