Conto - As três tarefas de Eva, por André Luiz Alvez
- Alex Fraga

- há 13 horas
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de crônica com André Alvez (Campo Grande MS), escritor, roteirista e diretor de cinema, com "As três tarefas de Eva"
As três tarefas de Eva
Na cidade cercada por três colinas, o nevoeiro era constante em
todas as manhãs. O tênis furado na sola, a calça ligeiramente
rasgada, a camisa rota e o velho casaco fedendo a suor, não me
incomodavam tanto quanto as espinhas doloridas cobrindo o meu
rosto quase por inteiro. Eu era uma criança se transformando em
rapaz e disso não me dava conta, nem mesmo quando um calor
inexplicável tomava conta da minha face sempre que me via diante
de Eva. Estudávamos na mesma escola desde o primeiro ano
primário. No começo, detestava aquela garota ranheta e mal vestida,
dos cabelos compridos e sem vida e dona de desjeitos ao se sentar.
Mas conforme ela foi crescendo, meus olhos começaram a enxergá-la de maneira diferente: na sala de aula, me sentava longe dela, no
outro canto, e de lá, no silêncio dos meus sentimentos
inconfessáveis, ficava observando todos os seus movimentos. Ela
não era bonita, mas diferente: depois dos catorze, os cabelos
ganharam brilhos, viviam amarrados na nuca por um laço de tecido
cuja cor variava: às vezes vermelho, azul, amarelo, cada dia uma cor
diferente, inundando meus olhos num brilho irresistível; tinha a boca
fina e o rosto sardento, os olhos da cor da escuridão e a magreza
comum aos desnutridos. O som da sua voz era quase sempre rouco,
mas eu gostava mesmo do seu jeito de andar, rebolando sem se
esforçar, driblando o vento, ajeitando a blusa, mordendo levemente
os lábios por puro costume. Eu podia fazer algumas exigências de
beleza - apesar da roupa velha e do casaco surrado - meus cabelos
loiros combinavam com os olhos quase verdes, resultando numa
aparência bastante próxima aos príncipes de contos de fadas. Ao
menos eu assim imaginava. Eva parecia viver num mundo só dela,
não tinha amigos, falava pouco, morava longe de todos. Certo dia,
notei o exato momento dos seus passos dançarinos saindo da
escola, um tanto desconfiada, olhando para os lados e escondendo
algo na mochila. Não dava para definir nada com exatidão, a neblina
ainda cobria a pequena cidade, ofuscando a visão. Mas eu era um
garoto curioso. Segui seus passos com todo cuidado, esgueirando
meu corpo magro pelos muros, arbustos e postes. Ela olhava para
trás quase sempre, dando mostras o desejo de não ser seguida. Aos
poucos as ruas da cidade foram findando, restando aquele longo
campo de grama e logo após o trio de colinas. As gramas ainda
pingavam gotas de orvalho. A visão tornou-se ampla, não tinha mais
como me esconder. Assim que percebeu minha presença, Eva
paralisou seus movimentos, ficou quieta, imóvel feita pedra.
Criei coragem e prossegui caminhando até perto de onde ela estava.
- Você está me seguindo? – disse, num apertar de rosto.
Fiquei quieto por um tempo, apreciando sua voz rouca, quase
sussurrada.
- Não... Eu estava indo na casa de uma tia.
- Mentira! Não existem casas perto das colinas.
- Ela mora depois das colinas, na cidade grande, atravessando a
estrada, sabe?
Acho que aquela foi a primeira vez que menti descaradamente para
uma mulher. Senti a pele queimar, mas não pensei recuar. -
Ela se aquietou por instantes, fingindo acreditar na minha mentira.
Depois rompeu o silêncio:
- Queria lhe pedir um favor... – A voz permanecia rouca, embora
firme.
Abri meu melhor sorriso. A curiosidade de antes se transformou em
cumplicidade. Tudo indicava algum tipo de aventura e eu só queria
participar.
Assenti sem palavras, balançando a cabeça e armando no rosto um
riso besta. Eva era o sol e eu o girassol. Caminhou para bem próximo
de mim, senti sua respiração de hortelã. Instintivamente dei dois
passos para trás e ela me seguiu até pousar suas mãos nos meus
ombros. Eu adorava o jeito dela andar e agora gostava do jeito que
olhava para mim. Fixou o rosto bem perto do meu e pude ver de perto
seu par de olhos, surpreso ao constatar: não era tão negro quanto
antes imaginava; possuíam um estranho brilho, tão envolvente
quanto os olhos de um felino. Timidamente mostrou-me um pacote
que escondia na mochila. Eram mudas de ipê. Estranhei e ela
percebeu, já tentando explicar:
- Lembra-se da aula da professora de literatura semana passada?
Eu me lembrava de cada detalhe, foi uma aula empolgante, na qual
dona Teresa afirmou, baseada na frase de um poeta desconhecido:
“Para ter uma vida completamente realizada, é preciso plantar uma
árvore, escrever um livro e ter um filho”.
- Lembro sim, adoro as aulas de literatura.
Um belo sorriso abriu-se diante de mim, envolto naquela estranha luz
que desprendia dos olhos de Eva. Quando caminhou mais perto, de
maneira tão natural e decidida, tive a certeza: ela sabia o tanto que
eu gostava do seu jeito de andar.
- Pensei muito e resolvi fazer todas aquelas coisas. – disse, na voz
rouca de certeza. -
- Aquelas coisas? – Perguntei envolto numa corrente de curiosidade
-.
Ela espremeu os olhos, franziu a testa, surpresa com a minha
incompreensão:
- Plantar a árvore, escrever o livro, ter um filho.
Percebi o brilho intenso em seus olhos aumentar e a voz soar ainda
mais rouca. Permiti que a pontada no peito, gostosa e ao mesmo
tempo dolorosa, me atingisse por completo, admirando, sem
impedimentos, o jeito dela andar enquanto prosseguia pelo caminho
que ia dar nas três colinas, as mãos de brilho de esmalte voando no
ar, me convidando a segui-la.
- Não fique ai parado feito bobo, venha me ajudar!
Deixei que se afastasse e a segui, calmamente. O jeito dela andar
realmente me cativava.
Quando chegamos à primeira colina, ela escolheu o espaço vago
entre duas árvores gigantes: um pé de aroeira e outro de eucalipto e
começou a cavucar com as mãos o terreno amolecido pela chuva da
noite anterior. Quando tentei ajudá-la, me interrompeu:
- Pensei melhor, você não pode me ajudar, essa é a minha primeira
tarefa e tenho que realizá-la sozinha. – havia uma sinceridade severa
no tom da sua voz.
Recuei alguns passos antes de responder:
- Também vou fazer igual, amanhã mesmo.
Ela sorriu enquanto enxugava o suor do rosto:
- Posso vir para ver?
- Claro que sim, faço questão.
O sino da igreja da nossa cidade começou a badalar, informando que
já era meio dia quando ela terminou de plantar a semente.
A primeira tarefa de Eva estava cumprida.
Atrás das colinas havia uma estrada movimentada, mas o barulho
dos carros pouco nos incomodou. Ficamos sentados lado a lado por
um curto espaço de tempo, o suficiente para que meus dedos
roçassem sem querer nas mãos de Eva e ela, instintivamente,
juntasse suas mãos às minhas. Nossos olhos se encontraram e
ficamos em silêncio. A fita verde prendendo seus cabelos voou até
meu rosto e ela, desajeitada, tentou retirá-la. O mundo se abriu
naquele instante, senti o cheiro de hortelã escapando de seus lábios,
tão perto, aquietando o vento, calando o tempo, me desarmando
completamente, sem reação diante dos olhos brilhantes e da boca
pedindo beijos à frente do meu rosto.
O vento logo voltou, apagando o momento, riscando de nossas vidas
o beijo que não tive coragem de buscar.
De repente, Eva ajeitou o corpo para cima num movimento brusco e
tudo se perdeu de vez:
- Vamos voltar, nossos pais podem ficar preocupados.
Saímos correndo colina abaixo, ela num grito de menina, que até hoje
ainda ouço em pensamentos, correu na frente, eu atrás, fingindo que
não conseguia alcançá-la.
Despedimo-nos no cruzamento da rua principal, cada um para um
lado, eu novamente prometendo plantar minha árvore já no dia
seguinte, promessa que fui adiando até me esquecer.
De repente dez ou doze anos se passaram, na rapidez dos sopros
do tempo, e a vida, de alguma forma, nos separou.
E hoje, quando levo meus filhos à escola, que fica na cidade grande
do outro lado das colinas, sigo pela estrada que cruza aquele mesmo
caminho de antes, passo devagar, às vezes estaciono o carro e fico
contemplando o imenso pé de ipê amarelo, forte e vistoso, bem no
meio da aroeira e do eucalipto.
Uma ponta de saudade me invade retirando do fundo da minha alma
um suspiro de lamento.
Não sei se Eva cumpriu as outras duas tarefas.
Quem sabe tenha filhos, que não são meus, e tenha escrito o livro
que nunca li, mas imagino que começa assim: “Na cidade cercada
por três colinas, havia uma escola e nela um menino estranho que
adorava me ver caminhar..





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