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Texto - Percursos trilhados, por Maranhão Viégas

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 11 horas
  • 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de texto com o jornalista, poeta e escritor de Brasília (DF), Maranhão Viégas, com "Percursos trilhados".


Percursos trilhados


Desço do metrô e caminho em direção à minha casa. Subo escadas, cruzo a praça. No início da noite, o barulho do motor dos carros e o cheiro dos sanduiches de churrasco se misturam e atingem em cheio o meu cérebro, antes de desembarcar feito vontade incontrolável na boca estômago. Sigo o caminho e resisto a vontade de comprá-los. Os sanduíches, claro.

Estendo o braço em sinal de vida. Os carros param e eu desfruto a conquista da passagem segura pela faixa de pedestres pintada no asfalto. A tinta quase apagada, mas o hábito respeitoso prevalece, com raras exceções, em Brasília.

Subo a calçada e caminho ao lado da igreja. À noite, no horário da minha volta pra casa tem sempre uma missa. Fiéis contritos, cantos religiosos. Quantos pedidos alcançam perdão ali dentro? Não tenho ideia. Talvez, só Deus saiba.

Dobro a esquina, o caminho agora é de descida até o meu prédio. Atletas retornam suados de seus treinos no Parque. Promoção de hambúrguer no quiosque em frente ao supermercado. O café fechado vira abrigo de pessoas sem tetos na noite fria.

De repente, uma trilha sonora inusual invade o caminho. Música clássica. Reconheço acordes da nona sinfonia de Beethoven. Sim. É ela. Reduzo o passo sem perceber. A pressa de chegar perde um pouco o sentido. Busco com os olhos identificar de onde vem aquele som. Não vem de nenhum dos bares ali perto. Eles preferem sertanejas. Também não vem de um carro com janelas abertas. Dali, costuma vir baticuns. Vem do alto, de uma janela aberta de um apartamento, do prédio erguido à beira do meu caminho.

Caminhar com a música me faz refletir. Alivia a alma e interrompe o que resta de angústia do dia que termina. Faço o registro hoje, mas a memória me alerta: isso já aconteceu outras vezes, em outros dias, nessa mesma hora e lugar. Deixou de ser coincidência. Agora eu sei que os acordes românticos de Bach, as valsas de Strauss, a alegria primaveril de Vivaldi, que ouvi de relance sem saber de onde vinham, vinham do mesmo lugar. Sempre.

Meu percurso trilhado não dura mais que dois minutos ou a extensão a pé da fachada do prédio. Eu passo. Passam carros. Passam motos. Bicicletas. Pizzarias e seus cantores contratados. Resta em mim a vontade de conhecer quem foi capaz de transformar meu retorno pra casa em percurso trilhado. Beethoven vai sumindo, baixinho, em minha audição. A biometria facial me reconhece. A porta do elevador se abre. Aperto o 11 que é meu andar.


Inorbel Maranhão Viegas

Brasília, 09/07/2025

 
 
 

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