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Crônica - A Carolina, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 17 horas
  • 5 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de crônica com o médico clínico geral, acupunturista e escritor, João Francisco Santos da Silva, com "A Carolina".


A Carolina


Dona de uma determinação invejável, Carolina sabia o que queria e o que não queria. Contudo tinha certa dificuldade para comunicar suas decisões. Mulher honesta, se orgulhava de nunca ter proferido uma única mentira olhando nos olhos de seu interlocutor. Nos anos 1960, Carolina foi quase uma pioneira das comunicações. O que ela fez? Ela associou dois meios de comunicação que juntos lhe permitiram transmitir importantes decisões sem perder sua honestidade.

Houve um tempo em que os assuntos do coração mereciam longas cartas e o carteiro podia ser mais esperado que a própria pessoa autora da carta. Então chegou o telefone e com ele as palavras ganharam voz, entonação, pausas, risos e até suspiros. Só faltava o olho no olho, mas isso precisaria mais uns 50 anos e de celulares com whatsapp. Verdades sejam ditas, caneta, papel e carteiros sobrevivem até hoje. E fazer uma chamada interurbana nos tempos de Carolina consistia em uma verdadeira saga. O processo exigia planejamento, paciência e dinheiro. A pessoa informava o número desejado para a telefonista que utilizava centrais telefônicas manuais ou semiautomáticas, até conseguir a conexão. Tudo muito demorado e custoso. Com tantas dificuldades, as ligações interurbanas se restringiam a comunicar assuntos importantes, de vida ou morte e em poucas palavras. Nasceu! Morreu! E quase mais nada.

A Carolina testemunhou a transição, vamos dizer assim, desse tipo de correio amoroso. Ela também realizou a façanha, para a sua época, de escrever sua última carta manuscrita e postá-la nos correios para o noivo residente em Porto Alegre, e quase imediatamente, depois de uma 1h e 30 min de espera, conversou com o noivo em Curitiba, numa emocionante, romântica, longa e cara chamada interurbana. Foi o nascimento de uma nova era, também chamada de “se pendurar no telefone”. Por se tratar de fatos históricos, tanto a carta original quanto a gravação da chamada são transcritas abaixo:


Santos, 15 de novembro de 1961.


Estimado senhor Burzeguim.

Espero que minha carta o encontre sereno. O senhor recorda ter-lhe contado sobre quando tinha apenas dois anos de vida e fui acometida por pontada de pneumonia e desenganada pelos médicos de Santos? Minha mãe, em uma última e desesperada tentativa para salvar-me, levou-me no colo até o Alemoa, bairro longe de casa. É lá onde

morava a tia Nica, aquela que o marido era estivador e morreu quando uma saca com 50 quilos de trigo caiu sobre suas costas quebrando-lhe a espinha. O coitado do meu tio agonizou no hospital por quatro dias antes de morrer. Enfim, continuando, minha mãe me levou ao Alemoa para consultar com Dr. Leocádio, o dono da farmácia. Ele tinha fama de ser mais conhecedor de medicina que muito médico formado. O Dr. Leocádio disse para minha mãe, que caso ela tivesse esperado mais um dia, a pneumonia viraria tuberculose e aí seria morte certa. Naquela época eu precisei tomar mais de trinta injeções de antibiótico. Escrevi tudo isso porque aqui no mês de agosto, no dia 15, - lembro-me bem da data por ser dia do soldado - chegou uma “lestada”, aquele vento forte e rígido que vem do mar e chega pelo porto no inverno. A massa de ar frio me atingiu. Comecei a suspirar, e minha respiração ficou diferente. Foi quando minha mãe se lembrou de uma das recomendações do Dr. Leocádio: “Sua menina tem uma mancha no pulmão e ela não pode se resfriar, nem pegar vento frio de jeito nenhum, ou será seu fim”. Eu tomei xarope de guaco e mel, recebi vigorosas fricções nas costas e, graças a Deus, estou bem melhor. Mas o senhor nem sabe a aflição que passei com medo de morrer de uma nova pontada de pneumonia. Imagine o senhor o perigo que passei quando estive em Porto Alegre em julho. O senhor falou que a sua cidade era mais fresquinha no inverno quando subia um vento gostoso pelo Guaíba. Preciso lhe confessar que nos dias passados com o senhor, para conhecer sua família e noivarmos, senti todas as partes de meu corpo frias, até aquelas necessárias para a manutenção da vida. Não consegui lhe dizer isso antes, pois temia ser mal compreendida por eu não suportar tamanha frescura. Hoje 15 de novembro, depois de quase ter sido sucumbida pela “lestada” em agosto, encontrei forças para lhe comunicar que lamento muito, mas tenho que desmanchar nosso noivado. Eu não posso me casar com o senhor e o motivo não é a sua pessoa e sim o clima fresco no qual vive. Tenho certeza que não sobreviveria muito tempo em sua cidade e não gostaria de lhe deixar viúvo, sendo o senhor ainda tão jovem e alegre. Portanto, peço que siga seu caminho pelos pampas e seja feliz com uma boa prenda. Por favor, para não prolongar nem o meu e nem o seu sofrimento, me esqueça!

Carolina

Carolina saiu da agência de correios e seguiu direto para a central telefônica. Uma hora e meia depois conseguiu completar a chamada:

— Pronto! Está feito, meu amor. Não foi fácil, mas creio que expliquei para ele o turbilhão de coisas que eu estava vivendo depois que te conheci.

— ......?

— Sim. Expliquei tudo. Foi mais de 15 minutos de ligação. Paguei uma fortuna no interurbano. Falei de quando te conheci em agosto.... Lembra querido? Era dia do soldado. Ficas lindo de farda...

— ....?

— Eu lhe disse que nos apaixonamos. Foi um vendaval, uma verdadeira “lestada” arrebatadora. E que vamos nos casar em dezembro.

— .....?

— “Lestada” é quele vento frio que vem do mar no inverno. E que só tu consegues me aquecer. Lembra?

— .....?

— A vida é assim. Ele vai sofrer um pouco, mas compreendeu a situação e até desejou boa sorte para nós dois.

— .....?

— Meu amor, eu juro que é verdade! Eu também fiquei surpresa com a reação dele. Ele ainda me confessou uma coisa.

— .....?

— Não! Não foi isso que ele me confessou. Aliás, isso eu apenas suspeito que ele seja, mas acho que nem ele ainda não se deu conta que é.

— ....?

— Ele disse que só me levou para conhecer Porto Alegre em julho porque no verão lá faz um calor insuportável. Tu não acreditas que ele falou que eu seria mais feliz em Curitiba porque aí o verão não é tão quente.

— .....?

— Sim, claro. Já te disse que falei tudo. Inclusive que vamos morar em Curitiba.

— ....!

— Também te amo. Beijos.

— ...!

— Desliga você primeiro....



 
 
 

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