Conto - A cócega de Deus, por João Francisco Santos da Silva


Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com A cócega de Deus.
A cócega de Deus
Depois de quase 280 dias de intenso trabalho, o projeto ia bem. Mesmo assim, perfeccionista, ele não dava sua criação por acabada.
Um dia, quase a finalizando, apontou o dedo para a obra. Curioso, quis saber — como se já não soubesse — o que aconteceria.
Com o dedo em riste, ponderou qual seria a melhor maneira de iniciar o teste. Primeiro, uniu o polegar e o indicador da mão direita em um gesto em pinça. Depois, flexionou discretamente o indicador da esquerda, que já estava esticado. Ficou assim, com as duas mãos diante dos olhos, como um pintor que escolhe com qual pincel fará os retoques finais de sua obra-prima.
Nada previsível, escolheu desta vez a mão esquerda. Deslizou a ponta do indicador na planta do pezinho direito do seu recém-criado. O primeiro toque foi suave; provocou apenas um esboço de lábios mexendo e mais nada. Sentiu que estava no caminho certo. Aumentou a pressão em um novo movimento do dedo pela sola do jovem pé. Desta vez, o corpo se contorceu numa tentativa de fuga impossível. O teste dera certo.
“Então foi assim que eu sorri pela primeira vez”, pensou ele, como se já não soubesse.
Voltando à racionalidade de sempre, olhou para a mão direita, ainda em posição de pinça. Podia fazer o outro teste: bastava fechar os dois dedos sobre a pele da pancinha da criança. Mas cansou de brincar de Todo-Poderoso. Não quis se indispor com sua mais nova criatura.
Deixou a primeira experiência dolorosa para depois. Em breve, na maternidade, o recém-nascido não escaparia de uma injeção de vitamina K.
Preferiu fazer mais algumas cócegas no pezinho do novato.





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