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Artigo - "A noite em que a urna desmontou o palco", por Rogério Zanetti

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 7 minutos
5 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o jornalista, escritor e radialista de Campo Grande (MS), Rogério Zanetti, com "A noite em que a urna desmontou o palco".



A NOITE EM QUE A URNA DESMONTOU O PALCO


A derrota de Flávio Bolsonaro expõe os limites da herança política, cobra explicações das pesquisas e lembra a grande imprensa que o país real não cabe nas preferências de suas elites


Por Rogério Alexandre Zanetti


Na política, a distância entre posar de presidente e conquistar a Presidência pode ser medida por uma urna. O poder admite ensaios, fotografias e discursos de vitória antecipada. A democracia, porém, reserva ao eleitor a última palavra.

Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 64.256.232 votos, diante dos 59.826.041 recebidos por Flávio Bolsonaro. A diferença, superior a 4,4 milhões, desfez a expectativa de retorno da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Também deixou a advertência de que nenhum ambiente de campanha, por mais confiante, substitui a decisão do país.

A cadeira não elege ninguém

A história brasileira já ofereceu uma imagem desse equívoco. Na campanha pela Prefeitura de São Paulo, em 1985, Fernando Henrique Cardoso deixou-se fotografar na cadeira do prefeito. O professor e sociólogo tinha a pose de preito, mas perdeu para Jânio Quadros, que, ao assumir, transformou o ato de “desinfectar” a cadeira de prefeito em espetáculo diante dos jornalistas. Uma provocação teatral, mas suficiente para fixar a lembrança de uma vitória presumida que não chegou às urnas. FHC, inteligente que é, aprendeu a lição e logo se elegeu e reelegeu presidente da República.

A lição atravessa gerações. Quando um candidato trata a eleição como simples formalidade, corre o risco de deixar de ouvir quem ainda precisa convencer. A confiança se converte em soberba e a propaganda começa a conversar consigo mesma.

Foi esse o perigo enfrentado pelo bolsonarismo ao tomar a força de sua militância como retrato completo e fiel da sociedade. E não é.

O sobrenome tem força, mas encontra limites

Os quase 60 milhões de votos de Flávio representam uma parcela expressiva do Brasil. Seria um erro desprezá-los. Seria igualmente equivocado atribuí-los, integralmente, à sua liderança pessoal.

É razoável interpretar essa votação como resultado de forças distintas, como a identificação direta com o pai, Jair Bolsonaro; a rejeição ao PT; o conservadorismo e a

insatisfação com o governo. Sem investigação específica, porém, não há base para estabelecer quanto cada uma delas pesou.

Lula também precisa reconhecer a diversidade de sua vitória. Parte do eleitorado pode ter escolhido a continuidade por aprovação à sua administração; outra parte, para impedir o retorno do projeto adversário. Vencer exige reunir essas vontades. Governar exige compreender suas diferenças.

Nenhum candidato é proprietário dos votos que recebe.

Pesquisas devem explicações, não reverência

A eleição também recoloca uma obrigação dos grandes institutos de pesquisa brasileiros, a de explicar publicamente suas estimativas e eventuais diferenças em relação ao resultado.

E a cobrança precisa ser rigorosa. É necessário comparar levantamentos, datas de coleta, margens de erro, métodos e movimentos finais do eleitorado. A vantagem de um candidato nas urnas, por si só, não demonstra fraude ou manipulação nas pesquisas.

Isso não dispensa os responsáveis de prestar contas. Quando números são apresentados como sentença, a análise perde prudência e ganha autoridade excessiva. Institutos nos devem transparência e os comentaristas políticos, cautela. O eleitor merece conhecer tanto o alcance quanto os limites daquilo que lhe é apresentado como retrato do país.

Durante o segundo turno, levantamentos de grande repercussão sempre colocaram Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula. Na Quaest divulgada em 14 de outubro, o senador aparecia com 46% das intenções de voto, contra 44% de Lula, em situação de empate técnico. O Datafolha de 8 de outubro apontava 52% a 48% dos votos válidos, respectivamente. As urnas entregaram outra ordem de chegada.

Não cabe transformar uma diferença entre pesquisa e resultado em prova automática de manipulação. Cabe, entretanto, cobrar explicações sobre o que os levantamentos captaram, quais movimentos não alcançaram e com que prudência seus números foram apresentados ao público.

A vantagem final de Lula, superior a 4,4 milhões de votos, não significa que esse contingente tenha sido simplesmente “ignorado” pelas entrevistas. É a diferença entre os candidatos na apuração, não uma medida direta do erro de qualquer instituto. Ainda assim, o desfecho torna indispensável examinar a distância entre as estimativas e a votação. No entanto, quem acompanha política e eleição mais perto, já sabia que a campanha de Lula já era superior nas ruas, com grandes mobilizações populares e, principalmente, “nas redes”, superando em muito na internet o engajamento da campanha de Flávio, que parecia já vitorioso e chegou a anunciar futuros Ministros de Estado. As pesquisas internas, as chamada tracking, também apontaram para a vitória

de Lula, mesmo quando mostravam empate, com o gráfico de Lula subindo muito, enquanto o de Bolsonaro apresentava estabilidade até queda.

Uma vantagem numérica dentro da margem de erro de uma pesquisa não autoriza tratar a vitória como destino. Quando a cautela desaparece das entrevistas e das manchetes, a pesquisa deixa de informar adequadamente a incerteza da disputa. Dirigentes e analistas, entre eles os representantes da Quaest, devem ser avaliados pela consistência de suas explicações. A crítica ganha força quando examina métodos, amostras, datas e interpretações; perde precisão quando se limita à caricatura pessoal.

Também merece escrutínio a relação entre institutos, contratantes e veículos que divulgam os resultados. Quem financia, como se pesquisa e quais critérios orientam a apresentação dos números são informações de interesse público. Eventuais vínculos de conveniência precisam ser demonstrados com evidências.

A credibilidade de uma pesquisa não pode depender apenas do prestígio de quem a anuncia. Precisa sobreviver às perguntas feitas depois da eleição.


A imprensa diante do próprio espelho

Veículos de comunicação têm, sim senhor, posições eleitorais, seja pelo alinhamento social de seus proprietários, ou mesmo pelo perfil de seu público. O problema surge quando essas escolhas contaminam a cobertura sem que o público consiga distinguir informação, interpretação e preferência. Bom exemplo quanto a isso vem dos Estados Unidos da América, quando no início de cada pleito os órgãos de imprensa costumam expressar suas preferências em editoriais, justamente para garantir a transparência na cobertura e apuração dos fatos durante a corrida eleitoral. Aqui, acontece o contrário, quando editoriais juram não ter preferências, o que é desmentido logo em suas manchetes e matérias.

A grande lição de 2026 para o jornalismo político é a de que é com evidências que o jornalismo expõe seus próprios desequilíbrios.

A derrota não encerra a disputa

O bolsonarismo perdeu a eleição presidencial. A extrema direita, contudo, não desaparece com a divulgação do resultado.

Sua capacidade de reorganização dependerá de lideranças, alianças, comunicação e, sobretudo, das respostas do governo às dificuldades cotidianas. O cenário internacional pode influenciar esse movimento, mas não determina sozinho o comportamento brasileiro.

Para Lula, a vitória abre uma responsabilidade maior que a celebração. Para a oposição, impõe a revisão de seus métodos. Para a imprensa, oferece a oportunidade de examinar suas certezas.

O palco comporta qualquer roteiro, mas a urna conserva o direito de mudar o final.



 
 
 

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