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Artigo - A soberba não vota, por Paulo Esselin

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 3 horas
4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o professor titular aposentado da UFMS, Paulo Esselin, com "A soberba não vota"


A SOBERBA NÃO VOTA

Paulo Marcos Esselin. Prof. Titular aposentado da UFMS


Na tarde de 24 de outubro de 2026, véspera do segundo turno da eleição presidencial, apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) participaram de uma carreata e cavalgada nos altos da Avenida Afonso Pena, em nossa capital. Segundo o Campo Grande News, o deputado estadual eleito, André Salineiro, estimou a presença de 150 cavalos, 40 bois e 40 caminhões, além de implementos agrícolas. Coitados! Uma pena para eles que bois, vacas e cavalos não votam! Na minha percepção, a presença de representantes da elite do agronegócio, com caminhonetes e cavalos de alta linhagem, transformava o ato em uma demonstração de poder econômico, confiança na vitória e a certeza de ampliar a votação do candidato do PL. Durante o desfile, jovens nas carrocerias dirigiam ofensas ao atual Presidente, com toda a prepotência conhecida herdada da nossa formação colonial, preconceituosa, racista e indiferente às desigualdades sociais.

Em reunião realizada em 14 de outubro em Campo Grande, Reinaldo Azambuja (PL) e Eduardo Riedel (PP) mobilizaram 70 dos 79 prefeitos de Mato Grosso do Sul para ampliar a votação de Flávio Bolsonaro. Segundo o Correio do Estado, Azambuja afirmou ter combinado com Tereza Cristina (PP) e Capitão Contar (PL) a destinação de emendas parlamentares como prêmio aos municípios onde o candidato obtivesse as maiores votações. A meta anunciada era alcançar 70% dos votos válidos no Estado. O otimismo também aparecia nas entrevistas dos senadores e do governador às emissoras locais, nas quais previam que o candidato superaria esse percentual. Por outro lado, o clima era de completa despreocupação com os riscos que a Democracia brasileira corria com a vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.

A confiança na vitória era tamanha que alimentava expectativas sobre a futura distribuição de cargos. O Ministro da Agricultura e a pessoa que presidiria o Senado Federal já estaria escolhidos, sendo ambos Sul-mato-grossenses. Nesse ambiente, o suplente de um senador vitorioso percorria ávido Campo Grande e o interior do Estado em campanha pró - Flávio Bolsonaro, na expectativa de que a vitória abrisse caminho para assumir uma cadeira no Senado. A mobilização reunia, assim, apoio ao candidato e expectativas de espaço político em Brasília.

No domingo (25), após o encerramento da votação, eleitores de Flávio Bolsonaro voltaram a se concentrar nos altos da Afonso Pena para acompanhar a apuração. Entre as lideranças presentes no ato estavam o governador reeleito Eduardo Riedel (PP) e o senador eleito Reinaldo Azambuja (PL).

Logo passaram a assar um churrasco que estava sendo preparado desde às 16 horas, em um ambiente de descontração e celebração antecipada. O entusiasmo, talvez intensificado pelo consumo de bebidas alcoólicas, reforçava a impressão de que a vitória era dada como certa. A música, de mau gosto, tocava em volume tão alto que incomodava a vizinhança mesmo a cerca de dois quilômetros de distância do local. Para completar o cenário, a queima intensa e persistente de fogos inquietava os meus cachorros e de toda minha vizinhança. Mais do que um encerramento de campanha, a festa parecia uma comemoração antecipada de quem costuma recorrer à simplificação analítica ou apoiar-se no senso comum para formar suas opiniões.

No começo da noite, conhecidos os resultados da apuração em Mato Grosso do Sul, começaram a contrariar as expectativas das lideranças locais. Lula alcançou 40,4% dos votos válidos no Estado, bem acima do patamar de 30% que era previsto. Entre o primeiro e o segundo turno, o Presidente conquistou 112.118 votos, enquanto Flávio Bolsonaro, apesar de todo o apoio recebido das lideranças estaduais, não alcançou os 70% desejados, acrescentando à sua votação no primeiro turno apenas 54.541 votos.

A maior surpresa veio às 19h27, no horário de Mato Grosso do Sul, quando Lula assumiu a liderança da apuração nacional e permaneceu à frente até o fim.

Com a confirmação da derrota de Flávio Bolsonaro, a festa anunciada deu lugar à frustração e a episódios de violência nos altos da Avenida Afonso Pena, em Campo Grande (MS). Os bolsonaristas se digladiavam e o ambiente mais parecia um velório, com disputa de herança.

A confiança das lideranças e a ostentação nas ruas não substituem a vontade expressa nas urnas. O contraste entre a celebração antecipada e a frustração posterior expõe o equívoco de tratar uma disputa democrática como vitória garantida. Nem o poder econômico, nem a influência política, nem a promessa de emendas tornam os votos propriedade de um grupo. Afinal, a Democracia não existe para confirmar a certeza dos

poderosos, mas para assegurar a liberdade de todos. O pior estava por vir, o “ex – futuro presidente da República”, líder inconteste das elites econômicas sul- mato grossenses e políticas, tal como o pai dele, não aceitou o resultado das urnas e logo após abandonou seus liderados, na calada da noite, para se estabelecer nos EUA, menosprezando seus fiéis eleitores.


NOTAS

1 - MOREL, Lúcia & AGUIAR, Maurício. Apoiadores de Flávio Bolsonaro fazem cavalgada nos altos da Afonso Pena. |https://www.campograndenews.com.br/politica/apoiadores-de-flavio-bolsonaro-fazem-cavalgada-nos-altos-da-afonso-pena, 24/10/2026

2 - PEDRA, Daniel. Riedel e Azambuja mobilizam prefeitos para ampliar votação de Flávio em MS. https://correiodoestado.com.br/politica/2026/10/15/riedel-e-azambuja-mobilizam-prefeitos-para-ampliar-votacao-de-flavio-em-ms.

 
 
 

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