Texto - Quando a escola vira muro, por Rogério Alexandre Zanetti
- Alex Fraga

- há 4 horas
- 6 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de texto com o jornalista e escritor de Campo Grande, Rogério Alexandre Zanetti, com "Quando a escola vira muro"
No apagar das luzes dos anos 1970, o Pink Floyd (já te falei que é minha banda preferida?) transformou a sala de aula em um dos cenários mais perturbadores da história da música. Em “Another Brick in the Wall (Part 2)”, a escola não aparece como espaço de descoberta, liberdade ou formação humana, mas surge como uma linha de produção na qual crianças marcham de maneira uniforme, perdem a identidade e são conduzidas para uma máquina que as transforma em seres iguais, obedientes e incapazes de questionar.
A imagem, eternizada no filme Pink Floyd – The Wall, cujo videoclipe se tornou um dos mais conhecidos até hoje, é brutal porque traduz uma concepção de educação que atravessou gerações, ensinar não como ato de libertação, mas como instrumento de disciplina, enquadramento e controle social.
Mais de quatro décadas depois, a pergunta permanece incômoda: quantos tijolos ainda estamos colocando nesse muro?
A escola que produz obediência
“Another Brick in the Wall” integra o superdisco The Wall, ambiciosa ópera-rock concebida por Roger Waters e lançada em novembro de 1979. No álbum, cada trauma vivido pelo personagem – a morte do pai na Segunda Guerra, a superproteção materna, a violência dos professores, a solidão e a fama -, transforma-se em mais um tijolo do muro psicológico que o afasta do mundo.
A crítica à política escolar local nasceu das experiências de Waters no rígido sistema educacional britânico dos anos 1950. O próprio compositor explicou que não pretendia condenar todos os professores, mas denunciar aqueles capazes de humilhar, ferir e destruir emocionalmente uma criança. A escola retratada na música ridiculariza a criatividade, reprime a individualidade e pune quem não se adapta ao padrão imposto.
No universo de The Wall, o professor não lê a poesia escrita pelo aluno para compreender sua sensibilidade, mas para expô-lo diante da turma para constrangê-lo. O conhecimento deixa de ser uma ponte para se transformar em arma de submissão.
É importante fazer uma distinção histórica. A canção não foi escrita apenas contra as políticas educacionais do governo de Margaret Thatcher. Sua origem está nas memórias escolares de Roger Waters e em uma crítica mais ampla ao autoritarismo da educação britânica, que nos anos 1970 e parte dos 80 permaneceu. Thatcher chegou ao poder em maio de 1979 e as reformas educacionais mais profundas de seu governo, especialmente as relacionadas ao currículo nacional, à competição entre escolas e ao controle de resultados, seriam consolidadas durante a década seguinte, sobretudo com a reforma de 1988, e estudos sobre apontam que essas reformas combinaram elementos conservadores e neoliberais.
Margareth Thatcher e a educação como engrenagem do mercado
O governo Thatcher defendia valores como autoridade, competição, mérito individual, redução da presença do Estado e responsabilização pessoal. Na educação, essa visão contribuiu para aproximar a escola da lógica empresarial, com metas, resultados, rankings, concorrência e controle centralizado do currículo.
A formação integral do estudante passou a disputar espaço com a ideia de preparar indivíduos para competir no mercado. A escola deveria ser eficiente, mensurável e produtiva. O professor perdia autonomia, enquanto o conteúdo escolar passava a ser submetido a padrões definidos de cima para baixo.
Isso quer dizer que Thatcher não inventou a escola autoritária denunciada pelo Pink Floyd, mas seu governo fortaleceu um ambiente político no qual disciplina, hierarquia e desempenho poderiam ser apresentados como respostas para problemas sociais muito mais complexos.
O muro de Roger Waters, portanto, ultrapassa a experiência pessoal. Ele representa qualquer sistema que tente fabricar indivíduos adaptados, silenciosos e obedientes. Cada humilhação, cada pensamento censurado e cada diferença reprimida torna-se outro tijolo.
O grito das crianças não era contra o conhecimento
Um dos maiores equívocos sobre “Another Brick in the Wall” é interpretá-la como uma rejeição à educação. A música não defende a ignorância, o abandono escolar ou o desprezo pelos professores.
Sua revolta é contra uma educação sem liberdade.
As crianças não recusam o conhecimento. Recusam o controle do pensamento. Recusam a violência simbólica e física. Recusam uma escola que exige silêncio, mas não oferece escuta; que cobra respostas prontas, mas teme perguntas; que valoriza a repetição, mas desconfia da imaginação.
Essa diferença é fundamental. Educação não é adestramento. Disciplina não pode significar submissão. Autoridade pedagógica não pode ser confundida com autoritarismo.
Quando um sistema educacional pune a dúvida, transforma o professor em fiscal e trata o aluno como ameaça, ele deixa de formar cidadãos. Passa a fabricar obediência.
O velho conservadorismo vestiu uma nova farda no Brasil
No Brasil dos últimos anos, o discurso conservador sobre a educação voltou com enorme força. Professores passaram a ser tratados como suspeitos. Livros, pesquisas científicas e conteúdos relacionados à história, à política, ao racismo, ao meio ambiente, à sexualidade e aos direitos humanos tornaram-se alvos de campanhas de intimidação.
Sob o pretexto de combater uma suposta “doutrinação”, movimentos políticos ditos conservadores tentaram impor outra forma de doutrinação, a que determina quais assuntos podem ser abordados, quais autores devem ser silenciados e quais interpretações da realidade são permitidas.
Um levantamento da Campanha Nacional pelo Direito à Educação identificou, entre 2013 e 2023, 201 casos de ataques ligados à censura, à perseguição de educadores, à militarização e a outras ofensivas conservadoras, além de 1.993 proposições legislativas relacionadas ao tema. Esse mapeamento aponta ataques a livros e trabalhos pedagógicos sobre raça, gênero, meio ambiente, laicidade e direitos humanos.
O crescimento das escolas militarizadas é uma das manifestações mais visíveis desse processo. Em audiência realizada em maio de 2026, especialistas ouvidos pelo Senado alertaram que a presença de militares na administração escolar pode reduzir a participação da comunidade e fortalecer práticas autoritárias incompatíveis com uma educação crítica e emancipadora. A discussão está registrada pela Agência Senado.
O problema não está na existência de regras, organização ou de segurança, toda comunidade escolar precisa de limites e responsabilidades. O perigo começa quando ordem passa a significar silêncio; quando respeito vira medo; quando aparência, corte de cabelo, uniforme e continência recebem mais atenção do que bibliotecas, laboratórios, formação de professores e aprendizagem.
É nesse ponto que a escola volta a se parecer com a máquina imaginada pelo Pink Floyd.
A guerra contra o professor
O discurso retrógrado também produz uma inversão perversa: em vez de ser reconhecido como profissional essencial, o professor é apresentado como inimigo da família, da religião ou da moral. Aqui em Campo Grande, toda semana lemos nos jornais – impressos ou onlines -, ataques a professores e diretores que não se explicam, não se justificam; geralmente por parte de pais escorados no tal discurso conservador.
Gravar aulas sem autorização, perseguir educadores nas redes sociais, retirar livros de circulação e pressionar escolas para evitar temas considerados “polêmicos” criam um ambiente de vigilância permanente. O professor passa a calcular cada palavra. O aluno aprende que determinados assuntos não devem ser discutidos. A censura, assim, não precisa chegar oficialmente ao currículo, instalada pelo medo.
Esse modelo não protege crianças e adolescentes. Apenas os impede de compreender a complexidade do mundo. Uma educação democrática (termo que causa arrepio a muita gente) não obriga o estudante a concordar com o professor. Ao contrário: oferece conhecimento para que ele possa discordar com argumentos. Ensina a confrontar ideias, verificar fontes, reconhecer manipulações e construir posições próprias.
É justamente essa autonomia que os projetos autoritários mais temem.
Muros são construídos com medo
No Brasil contemporâneo, o muro não é feito apenas pela repressão dentro da escola. A estrutura oferecida aos filhos dos ricos e aquela destinada às crianças das periferias, vítimas da secular má distribuição de renda.
Enquanto alguns poucos estudantes aprendem idiomas, programação, música e pensamento crítico, outros convivem com salas superlotadas, prédios deteriorados, professores sobrecarregados e ausência de recursos básicos. Depois, o mesmo sistema compara os resultados e chama essa desigualdade de mérito.
A lógica é semelhante à denunciada em The Wall, apagam-se as histórias individuais, ignoram-se as condições sociais e exige-se que todos atravessem a mesma máquina. Quem não consegue acompanhar é responsabilizado pelo próprio fracasso.
Nenhuma criança deve ser apenas mais um tijolo
“Another Brick in the Wall” permanece atual porque não fala somente sobre uma escola britânica do passado. Fala sobre todas as instituições que confundem formação com conformidade.
A canção nos obriga a escolher entre dois projetos de educação. De um lado, a escola que controla, vigia, padroniza e pune. De outro, a escola que acolhe, provoca, emancipa e ensina a pensar.
O Brasil precisa decidir se deseja formar cidadãos capazes de compreender e transformar a realidade ou indivíduos treinados apenas para obedecer. Precisa decidir se o professor será tratado como ameaça ou como agente indispensável da democracia. Precisa decidir se nossas crianças terão voz ou serão reduzidas a números, uniformes e resultados.
O conservadorismo educacional pode mudar de país, época, slogan ou uniforme, mas sua essência continua a mesma, com medo da liberdade, da diversidade e do pensamento crítico.
Em 1979, o Pink Floyd colocou um coro de estudantes diante do mundo para denunciar essa engrenagem. O grito atravessou décadas porque o muro nunca deixou de ser reconstruído.
E cada vez que uma pergunta é proibida, um professor é intimidado ou uma criança é ensinada apenas a obedecer, mais um tijolo é colocado no lugar. Enquanto isso, a dançante e fenomenal Another Brick In The Wall continua animando festas de rock e programas radiofônicos de flashback com seus versos cortantes, que ensinam: “Quando crescemos e fomos à escola, havia certos professores que machucavam as crianças da forma que eles pudessem. Não precisamos de nenhuma educação, não precisamos de controle mental, chega de humor negro na sala de aula. Ei, professores, deixem as crianças em paz. Tudo era apenas um tijolo no muro, todos são somente tijolos na parede”.
Para ler ouvindo Another Brick In The Wall – Part 2





Comentários