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Artigo - Mato Grosso do Sul, o fracasso educacional, por Paulo M. Esselin

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 minutos
  • 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de texto com o professor titular aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Paulo M, Esselin, com "Mato Grosso do Sul, o fracasso educacional.


Mato Grosso do Sul o fracasso educacional


***Paulo M. Esselin


Os resultados recentes do Sistema de Avaliação da Educação Básica recolocam Mato Grosso do Sul diante de uma pergunta incômoda: que Educação é essa que o Governo apresenta como exemplo, mas que os indicadores nacionais revelam em retrocesso? Entre a propaganda oficial e a realidade vivida nas escolas, há uma distância que já não pode ser disfarçada por slogans, campanhas publicitárias ou discursos de ocasião.

O problema central é que, enquanto os indicadores nacionais expõem um desempenho frágil, aquém do que se espera de uma Rede Pública comprometida com a aprendizagem, o Governo estadual insiste em vender à população uma imagem triunfalista da Educação Sul-mato-grossense. Em grandes campanhas publicitárias, com forte presença nos meios de comunicação, transmite-se a ideia de que o ensino em Mato Grosso do Sul é exemplar, e que devemos nos orgulhar dele. No entanto, os dados publicados e divulgados em 5 de agosto de 2026, pelo Ministério da Educação, mostram outra dura realidade: somos mal avaliados, ficamos para trás em comparação com diversos estados e, o pior, em alguns indicadores, os estudantes aprendiam mais há mais de uma década do que aprendem agora.1 Ou seja, este Governo conseguiu piorar o que estava ruim. Diante disso, a propaganda oficial deixa de ser mera exaltação administrativa e passa a soar como uma mentira dita à luz do dia. Afinal, no ranking nacional, entre todos os estados brasileiros, ocupamos a 26ª posição, à frente apenas do Rio de Janeiro. INEP/MEC.

A justificativa apresentada pelo Secretário é talvez ainda mais grave que o próprio resultado negativo. Primeiro por tentar desqualificar a pesquisa, depois ao afirmar que alguns jovens vão à escola para comer, e não necessariamente para aprender, o Governo expõe uma realidade social dramática que contradiz parte de sua própria propaganda. Afinal, se o discurso oficial afirma que a pobreza foi drasticamente reduzida em Mato Grosso do Sul, como explicar que estudantes

ainda dependam da escola para garantir uma refeição básica? Há nisso uma contradição profunda: de um lado, a publicidade anuncia prosperidade, inclusão e transformação social; de outro, a autoridade responsável pela Educação reconhece que a fome continua entrando pela porta da sala de aula.

A pergunta inevitável é: o que esses jovens fazem na escola depois de se alimentarem? Se a escola é também espaço de proteção social, isso não a desobriga de cumprir sua função pedagógica. Pelo contrário, aumenta a responsabilidade do Estado. Quem chega com fome precisa ser acolhida, alimentada e, justamente por estar em situação de vulnerabilidade, necessita de uma escola ainda mais forte, com professores valorizados, acompanhamento individualizado, tempo de aprendizagem bem utilizado e políticas públicas capazes de romper o ciclo da pobreza. Usar a fome como explicação para o baixo rendimento, sem apresentar uma política efetiva para garantir aprendizagem, transforma a vítima em argumento e desloca a responsabilidade do poder público.

Não se trata de negar que a desigualdade social influencia o desempenho escolar. Influencia, e muito. O problema é quando essa constatação passa a funcionar como justificativa política para o fracasso. Se o Governo reconhece que parte dos estudantes chega à escola movida pela necessidade de comer, então deveria reconhecer também que sua política social não resolveu a pobreza como anuncia. E se reconhece que a pobreza prejudica a aprendizagem, deveria apresentar metas, investimentos e ações proporcionais à gravidade do problema, em vez de apenas recusar rankings ou relativizar resultados. A questão central não é comparar escolas para humilhá-las, mas compreender por que uma rede inteira retrocede enquanto outras avançam.

Neste sentido, a fala do secretário expõe uma dupla falência: a falência educacional, revelada pelos baixos indicadores, e a falência social, revelada pela presença da fome entre estudantes em idade escolar. O Governo não pode celebrar nas campanhas aquilo que os dados desmentem e, ao mesmo tempo, usar a pobreza como escudo para explicar o mau desempenho dos alunos da Rede Pública de Ensino. Se há fome, há fracasso social. Se há queda na aprendizagem, há fracasso educacional. E quando a propaganda tenta encobrir ambos, o problema deixa de ser apenas administrativo e passa a ser também moral.


 ***Professor titular aposentado da UFMS


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