Texto Poético - Meu romance, por Edson Moraes
- Alex Fraga

- 3 de abr.
- 3 min de leitura

Sexta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético com o jornalista, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Edson Moraes, com Meu romance.
MEU ROMANCE
(Edson Moraes)
Não há como esquecer.
Ela, estendendo as roupas no quarador de pedras, de lenço e bobs de plástico no cabelo carapinha, o suor regando as dores da pele negra e um entre-sorrisos nos lábios como se chorava e ria cantando suas canções prediletas.
"Embaixo daquela jaqueira, que fica lá no alto majestosa..." Era este o tema do exercício diário no tanque de lavar roupas. Ficavam bem limpinhas, de tanto que a mamãe as esfregava, como se estivesse a esfregar as angústias para depurá-las, como se estivesse esfregando as frases da canção para quarar dores e prazeres numa única harmonia.
Nossa velha casa na Rua Oriental, 1078, era um ponto romântico na bucólica periferia corumbaense, de portas e corações sempre abertos para quem quisesse entrar e provar do carinho cuiabano, do escabeche de peixe a Corumbá e da coragem de fazer da vida um ato de construção coletiva de recíprocas serventias humanas.
"Meu Romance", a composição de J. Cascata, gravada em 1938 por Orlando Silva e inspirada no ambiente da malandragem ingênua dos cariocas, era em casa a trilha sonora de um ritual doméstico que eu, ainda na infância, não via como a imposição social e falsamente cristã de uma cultura patriarcal. Curiosamente, Carlos, meu papai, não era machista, incentivava a esposa a trabalhar fora, a acumular-se de conhecimentos, a sentir os prazeres das artes, da música, do teatro, do esporte, da dança e da democracia. E Iris fazia tudo isso. Com ele ou sem ele ao lado.
Nçao há como esquecer.
Da Rua Oriental encaminhando sonhos e destinos entre o Morro do Cruzeiro e o Rio Paraguai; da velha casa de portas inservíveis, do quarador no fundo do quintal, do tanque de lavar roupas e descascar o mamão para o quibebe, do repertório musical mais variado que já conheci.
Não há como esquecer.
Da vizinhança de perto e de longe que nunca se distanciava, do peixe à escabeche, da vitrola rodando de Nelson Gonçales e Ângela Maria a Roberto Yanez e Nat King Cole, de Vinícius de Morais a Mário Lanza, de Roberto Carlos a Dilermando Reis, de Délio & Delinha a Jackson do Pandeiro.
Pois é. Não há como esquecer de papai e de mamãe.
Eles me provocaram a ser livre, principalmente na consciência e nas escolhas. Seres semianalfabetos e empoderados, que sequer imaginavam o dia em que seu gênero reclamaria empoderamento e culturas afirmativas.
E hoje, estou sentindo forte a presença dele e de sua voz poderosa e doces, ao me apresentar o amanhecer, a esclarecer que a verdade é luz, cuja única serventia é espantar a escuridão. E que isto é o suficiente para preencher os vazios de amor no mundo!
Não há como deixar de ver mamãe e papai. São claridades!
(Para "seu" Carlos, que partiu para sempre em 21 de março de 2008, mas ´permanece aqui, pertinho, cantando com os passarinhos em sderenata para Iris, ambos estendendo nossas roupas no quarador do infinito)!
MEU ROMANCE (Composição de J. Cascata)
Embaixo daquela jaqueira
Que fica lá do alto majestosa
De onde se avista a turma da mangueira
Quando se engalana com suas pastoras formosas
Ai, foi lá, quem é que disse?
Que o nosso amor nasceu
Na tarde daquele memorável samba
Eu me lembro, tu estavas de sandália
Com o teu vestido de malha
No meio daqueles bambas
Nossos olhares cruzaram
E eu para te fazer a vontade
Tirei fora o colarinho
Passei a ser malandrinho
Nunca mais fui a cidade
Pra gozar o teu carinho na tranquilidade
E hoje faço parte da turma
No braço eu trago sempre o paletó
Um lenço amarrado no pescoço
Eu já me sinto um outro moço
Com o meu chinelo charló
E até faço valentia
Retiro samba de harmonia





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