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Texto/Poesia - Navios de Papiro, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 28 de mai.
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira. com "Navios de Papiro".


NAVIOS DE PAPIRO

Raquel Naveira


É como se eu tivesse vivido no Egito Antigo. Se fecho os olhos, posso ver o rio Nilo, um dos maiores do planeta, fertilizando as bordas com uma lama pegajosa, onde brotam espigas de trigo e grãos de cevada. Os barcos alados, de duas velas, navegam cheios de pessoas, pedras para construção das pirâmides e dos templos, mercadorias. São navios de papiro, embarcações feitas de talos de papiro, calafetadas com betume. Levam embaixadores, mensageiros velozes a nações poderosas de homens altos, formosos, de pele negra e luzidia. Etíopes, talvez, pois governaram o Egito, em algum ponto entre o Nilo Branco e o Azul. Grandes cidades iam crescendo às margens do Nilo, essa fonte sagrada de vida capaz de regar o deserto e fazê-lo florescer. Era tamanho o meu júbilo diante dessa cena que escrevi:

Meu dia é tranquilo

À beira do Nilo.


Passeio de barco

Entre aves

E papiros.


Saboreio vinhos em frescos jardins,

Enfeito-me com guirlandas

De rosas e alecrins.


O Nilo,

Aberto em delta,

É um deus de leis corretas

Que ama o trigo

E as festas.


O balcão me orienta

Para a variação da tarde,

É belo ver o sol no rio

Jorrando luz em cascata.

A morte não me preocupa:

Boas coisas me reserva

Meu túmulo imponente,

Na terra tudo é sonho e erva,

Justa é a acolhida no ocidente.


Meu dia é tranquilo

À beira do Nilo.


Mas, aos poucos, tudo mudou. Houve declínio. O fim dessa civilização aconteceu de forma gradual, com invasões de assírios, persas, macedônios, trazendo crises internas e perda de autonomia política. A era dos faraós foi sugada pelo sorvedouro do tempo. Uma nuvem de insetos roçou as faces, os olhos desenhados a carvão, as coroas de serpentes.

A figura mais famosa desse período melancólico foi a rainha Cleópatra. Ela tentou desesperadamente manter a independência do Egito por meio de alianças amorosas, primeiramente com Júlio César e depois com Marco Antônio. Foram derrotados por Otávio, o futuro Imperador Augusto, na guerra civil romana. A batalha naval de Áccio (31 a. C) selou a derrocada do poder de Cleópatra e Marco Antônio, que se suicidaram. Ah! Já posso imaginar a frota, o barco que conduzia o desgraçado casal. Cleópatra reclinada no seu divã dourado, de deuses entalhados. Marco Antônio na popa. Arcos e flechas cruzando os céus, chuvas de lanças, dardos com pontas de bronze. No convés, homens com armaduras de linho endurecido se atirando sobre os soldados romanos. Todos empunhando clavas e adagas, rasgando corpos num banho de sangue.

Testemunhei tudo. Fascinada, coloquei esses nomes nos meus filhos: Augusto e Otávio. A filha, Letícia, é uma lembrança latina. Uma nota de alegria em meio a essa tragédia do fracassado Egito faraônico e a ascensão definitiva de Roma.

Acompanho o mover das águas quentes do Nilo. O governo egípcio é forte e militarizado. Controla o Canal de Suez e tem papel importante nas negociações sobre Gaza e o Oriente Médio. Milhares de refugiados solicitam asilo: sudaneses, sírios, iemenitas, somalis, ucranianos. O Egito sempre foi a rota de proteção para povos fugitivos.

Os navios de papiro se deslocam ainda pelo rio Nilo, corredor natural, numa grande via de circulação humana, através dos séculos.

 
 
 

2 comentários

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TANUSSI Cardoso
29 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Raquel sempre impressiona pela maneira fluida com que toca em qualquer assunto. É sempre muito prazeroso ler seus textos, plenos de história, lirismo e técnica. Uma aula do bom escrever! Parabéns!

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Rogério Salgado
28 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente texto numa mistura de sonhos e história, digno de uma grande autora.

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