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Texto/Poesia - Voar, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 23 horas
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético com a escritora e poeta Raquel Naveira (Campo Grande MS), com "Voar".


VOAR

Raquel Naveira


De todos os desejos impossíveis do espírito o que eu mais gostaria era de voar. Voar mesmo, como um pássaro entre as montanhas, sobre o mar, entre os prédios da cidade. Voar... sonho tão antigo do homem. Na lenda grega, o arquiteto Dédalo e seu filho Ícaro foram os primeiros homens a voar. Para fugir da prisão, do labirinto, os dois colaram penas com cera nos braços e se atiraram de uma alta torre. Delirante e feliz, voando muito próximo do sol, Ícaro fez a cera derreter e caiu na terra, mas seu pai conseguiu aterrissar com segurança. Este foi o meu “Sonho de Ícaro”:

O labirinto

Saiu de dentro de mim,

Louca arquiteta

Que imaginou corredores,

Espelhos,

Ogivas góticas

E nesse projeto sem meta se perdeu.


O labirinto

Não tem saída,

Minto, há torres altas

Com janelas que dão para o infinito;

Bastam o mito,

Duas asas de cera,

Um golpe de vento,

Um transe de vinho tinto

Para fugir,

Alçar voo em direção ao céu,

Ave dourada que se derrete sobre o mar

Em lágrimas de mel.


Outras antigas tentativas de voo copiaram o bater das asas dos pássaros: o monge beneditino Oliver amarrou asas nos braços e saltou da janela de um mosteiro, espatifando-

se no chão. Leonardo da Vinci desenhou e planejou várias máquinas voadoras, sendo considerado o precursor da aviação. O engenheiro Cayley construiu com lonas e folhas de salgueiro, um planador frágil. E surgiram balões de gás, parafusos voadores, helicópteros, paraquedas, foguetes, aeroplanos, boeings, satélites, foguetes, naves, ônibus espaciais. Todo esse esforço demonstra que muito pouco do que vale a pena jamais é alcançado sem sonhos.

Alberto Santos Dummont foi o menino que sonhou com um cavalo de asas enquanto lia Júlio Verne. Era apaixonado pelos balões que subiam nas noites estreladas de São João com suas mechas aquecidas que os elevava aos céus. A ele coube a glória do pioneirismo na aviação mundial. A 19 de outubro de 1901, Santos Dummont realizava, perante a Comissão Oficial do Aeroclube da França, a extraordinária façanha de contornar a Torre Eiffel. Sua experiência no dia 12 de novembro de 1906 representou o primeiro voo oficialmente controlado com aparelho mais pesado do que o ar. O pai da aviação sofreu quando seu filho foi à guerra. Suicidou-se em plena Revolução Constitucionalista de 32, depois de ver passar os aviões federais que iam bombardear um cruzador paulista ancorado no posto de Santos. Eram brasileiros a bombardear brasileiros. A angústia foi insuportável.

Inesquecível também a história de Saint-Éxupery, o romancista e aviador francês que nasceu em Lião, em 1900 e morreu durante a II Guerra, em plena ação. Pioneiro como piloto de rotas comerciais e aéreas, suas aventuras serviram de tema dos romances Correio do Sul, Voo Noturno e Terra dos Homens. Exupéry escreveu e ilustrou um pequeno volume poético intitulado Pequeno Príncipe. Fábula linda, com seus mundos, seus asteroides perdidos, seus baobás, raposa, serpente, campo de rosas e de trigo. Quem pode negar que nos tornamos mesmo eternamente responsáveis por tudo aquilo que cativamos?

Lembrando tantos sonhos de voar: Ícaro, Da Vinci, Santos Dummont, Exupéry, escrevi:

Avião,

Pássaro,

Pégaso,

Peito de aço

No espaço

Em levitação.


O domínio do ar,

Do pensamento,

Do infinito

Foi sempre minha aspiração.


Independente,

Piloto de mim,

Vou aonde quiser,

Espírito livre

Em constante evolução.


Decolei,

Deixei as bagagens pesadas,

Todo impedimento,

Todo apego,

Todo lastro

E flutuei como um balão.


Tenho medo

De cair no solo,

Seria grande o choque,

No meio do deserto

Eu desenharia

Rosas e carneiros

Como aquele Pequeno Príncipe

Que fez da aviação

O seu fim

E a sua iniciação.

 
 
 

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