Texto/Poesia - Shakespeare e o filho morto, por Raquel Naveira
- Alex Fraga
- há 3 horas
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Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com Shakespeare e o filho morto.
SHAKESPEARE E O FILHO MORTO
Raquel Naveira
Quando se pergunta qual o maior dramaturgo ocidental de todos os tempos, a resposta é imediata: William Shakespeare (1564-1616). Poeta, ator, gênio capaz de penetrar como seus textos e falas nas fímbrias do espírito humano, naquele ponto crucial que separa os ossos da medula.
Quem foi Shakespeare antes da fama? Um jovem inglês de Stratford-upon Avon, filho de um simples luveiro. Aos dezoito anos casou-se com uma mulher mais velha, Anne Hattaway e teve com ela três filhos: Susanna e os gêmeos, Hamnet e Judith. Aquele que, por circunstâncias existenciais e financeiras, mudou-se para Londres, onde começou um grande aprendizado humanista como mestre-escola, tutor de crianças de famílias abastadas, ensinando latim e literatura. O observador da cena teatral agitada da cidade, assistindo a peças e guardando os cavalos dos nobres. O fato é que, em 1592, começa a escrever suas próprias peças e a brilhar nos palcos dos teatros montados em carrocerias de carruagens e nas arenas improvisadas dos espetáculos itinerantes. Seu magnetismo natural provocava inveja. Robert Greene, um crítico, chamou-o de “corvo arrivista e arrogante”. É sempre assim: a oposição entre acadêmicos e autodidatas, velhos e novos (e o novo, de repente, surge).
Veio a peste. Os teatros foram fechados por sessenta meses. Shakespeare dedica-se à Poesia. Escreve sonetos incômodos, ambíguos, escandalosos, sobre temas eróticos. Sobre a beleza, o tempo, a natureza, a traição, o desejo, o prazer no sofrimento. O humor fino, o claro e o escuro das paixões humanas. A cautela diante da mulher, da sua capacidade de gerar a vida para a morte, sua sexualidade feita de útero e maresia. Só publica esses sonetos, talvez por pudor, depois do falecimento de sua mãe, Mary.
Sua psiquê era mesmo tão complexa e fascinante quanto a de suas personagens. Em sua poesia aparecem o Jovem Loiro (Fair Youth), a quem se refere em linguagem amorosa, cheia de devoção e a Dama Negra (Dark Lady), dama infiel, manipuladora, que leva à loucura. Terão eles realmente existido? Impossível saber.
O Teatro Globo (Globe Theatre), à margem do rio Tâmisa, era o lugar onde Shakespeare se apresentava para o povo e para a corte, com a presença constante da rainha Elizabeth I. O Globo pegou fogo em 1613, durante a apresentação da peça “Henrique VIII”. A essa altura, Shakespeare já havia escrito suas 39 obras dramáticas que misturavam história, costumes, intrigas, sangue e lágrimas, como “Romeu e Julieta”, “Rei Lear”, “Sonho de uma Noite de Verão”, “Otelo”, Ricardo II”, “Macbeth”, “A Megera Domada”, “O Mercador de Veneza” e tantas outras que o tornaram popular e idolatrado em sua época e cada vez mais cultuado à medida que os séculos passam. Confirma-se que o ser humano é sempre o mesmo: o de hoje, o de ontem e o de amanhã. Somos cheios de vícios, virtudes e imperfeições.
Shakespeare, agora rico, voltou para sua cidade natal, onde comprou a segunda maior casa para sua esposa e filhos. Voltou para morrer, aos 52 anos, talvez de febre tifóide ou depois de uma “reunião alegre”, regada a vinho. Foi enterrado na Igreja da Santíssima Trindade. Escrevera há poucos dias o seu próprio epitáfio, ameaçando de maldição a quem movesse seus ossos, que lá estão, intocados, até hoje.
O filme “Hamnet: a vida antes de Hamlet”, baseado no romance de Maggie O’Farrell, dirigido por Chloé Zaho e estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal (casal que é pura química), coloca a vida familiar de Shakespeare nos holofotes, jogando novas luzes. Anne Hattaway, a mulher de Shakespeare, é chamada de “Agnes”, uma variante de “Anne”. Agnes é um nome mais antigo, mais místico, mais apropriado, mais individual, para uma curandeira, uma mulher intuitiva, ligada aos falcões e à floresta. Uma mulher que conhece os segredos das folhas, das raízes, da terra, das preces balbuciadas diante dos caldeirões com infusões de ervas.
Durante o período da peste bubônica, o filho Hamnet, também um nome variável de “Hamlet”, morre aos onze anos. Agnes se transforma na mãe enlutada, inconformada, sem paz.
Mais tarde, no Teatro Globo, é montada a peça “Hamlet”. Agnes está na plateia, sem entender a conexão “Hamnet-Hamlet”. Seria o filho perdido que apareceria como personagem? Ou seria sobre um fantasma, sobre dar voz a quem a morte calou? Ou seria sobre tirar do esquecimento aqueles que esvaneceram nas brumas?
A tragédia “Hamlet” é uma confissão indireta. É mergulho no silêncio, na demora, na impossibilidade de agir e ludibriar a finitude. Shakespeare não escreve sobre o filho, mas a partir da perda do filho. Quem teria sido ele se tivesse sobrevivido? Teria crescido, amado, desabrochado? Hamnet é ferida, pensamento de luto, que jamais se afastará dos corações de pai e mãe.
Quando Hamlet morre na peça, depois de um duelo final, Agnes interage, estende a mão para o corpo inerte, o público estende as mãos em direção ao moço de cabelos encaracolados, a música nos envolve em ondas. Quanta emoção compartilhada. Quanta memória salva. Que grande expurgo de almas. Que rito de cura. O luto é cru. O luto é consumado, mas a arte é a testemunha. É a catarse redentora.
Haverá dor mais cruel do que a perda de um filho? Escrevi esta “Canção do Filho Morto”:
Era parte de mim.
Durante algum tempo esteve em meu ventre,
Misturado a entranhas e nervos
Num emaranhado de sangue e enlevo,
Depois foi meu próprio coração exposto,
Batendo fora de meu peito,
Diante de meus olhos,
Ainda mais sensível e pulsante.
Era parte de mim.
Havia entre nós uma veia,
Um cordão que nos alimentava da mesma seiva,
Do mesmo afeto.
Eu o queria liberto,
Respirando seu próprio ar,
Tecendo seus próprios caminhos,
Mas, por destino,
O seu destino se refletia sempre no meu.
De repente, arrancaram-no de mim,
Foi como um fio que se corta,
Como uma chama que se apaga,
Como uma miragem que some,
Mas foi infinitamente mais brutal,
Infinitamente mais dolorido e absurdo.
E agora, oca e mutilada,
Fantasma que ainda sobrevive,
Carrego a mortalha desse amor,
Tudo o que resta na minha saudade.

