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Microconto - João de Souza, por Athayde Nery

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 7 horas
  • 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de microconto com o advogado, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Athayde Nery, com "João de Souza".


JOÃO DE SOUZA


Bisneto de nordestinos que vieram na guerra do paraguai, João de Souza se meteu em tudo quanto é emprego, de lavador a cuidador de carros em eventos na Expogrande, lavador de pratos em restaurantes de postos de gasolina, fazedor de pizza na Gato mia, mineração de diamantes em Jauru, contabilidade em Inocência que já foi Bocaina, era bom nos números. Sonhava que um dia seria piloto de fórmula 1.

Era fã do Ayrton Senna. Sabia tudo do Ayrton desde que nasceu até quando morreu em Ímola no dia 1º de maio de 1994. Ficou de luto uma semana.

Numa bela segunda feira, Seu Oswaldo, com “w” que ele fazia questão de acentuar, que conhecia João de Souza de conversas rápidas, lhe fez uma oferta de venda de sapatos. João de Souza nem piscou , mandou ver na freguesia, ia de casa em casa. Sapatos da marca Sândalos, couro legítimo, macio e confortável, todas cores, alguns até importados. Saía com um malão em cima da moto, depois comprou um fusca, e dê-lhe vender sapatos.

Osvaldo veio a falecer e ele acabou pegando também a freguesia do Oswaldo, que não era pouca, ele era de outro estado. Foi obrigado a abrir uma portinha pra fazer estoque. Ficava lá até tarde contando os pares de sapato. Cheirava um por um. Casou com Manoelina. Do lar. Tinham uma filha. Gabriela, João de Souza expandia. Teve que alugar um espaço maior. Já ia direto pra São Paulo buscar os sapatos. Continuava com a mania de cheirar par por par, para sentir a maciez e a pegada do sapato. Tinha outras marcas. Contratou outros vendedores

Continuava cheirando os sapatos. Montou uma loja, depois outras duas nas periferias e vendia nas feiras também. Continuava cheirando sapatos compulsivamente. Acabou pegando uma bactéria do sapato. Não podia mais cheirar. Seu nariz ficou em carne viva.

Tinha que usar uma máscara. Mas a mania de cheirar sapatos não conseguia largar. Foi obrigado a usar um capacete de piloto de fórmula 1 com o nome e a foto do Ayrton Senna estampados para não cheirar mais sapatos.

Morreu num acidente violento de carro com caminhão indo para São Paulo. Sobrou só a cabeça com o capacete do Ayrton Senna.

 
 
 
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