Texto/Poesia - Flores raras, por Raquel Naveira
- Alex Fraga

- há 15 horas
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Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a poeta e escritora Raquel Naveira (Campo Grande MS), com "Flores raras"
FLORES RARAS
Raquel Naveira
Há flores raras. Raríssimas. Como a edelvais, que cresce nas regiões dos Alpes suíços, em locais altos, à beira dos abismos. Muitos escalaram perigosamente as montanhas, arriscando a própria existência para colhê-la e oferecê-la à pessoa amada. Devoção e gelo nas palmas das mãos.
No deserto árido, entre areia e escorpiões, nasce a rosa-do-deserto, com pétalas em tons de rosa e vermelho. Também lírios e margaridas silvestres. Sementes ocultas, que dormiram durante anos, de repente, explodem ao primeiro orvalho, em tapetes coloridos sobre as dunas.
O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu o poema “A Flor e a Náusea”: “Uma flor nasceu na rua!/ Passem de longe, bondes,/ ônibus, rio de aço do tráfego.” Que bela imagem. A flor brotando no asfalto. O caule que buscou uma fissura no concreto até romper em miolo e corola. Símbolo da vida que insiste em resistir, mesmo em condições adversas, mesmo num mundo duro e áspero, encapado de cimento.
Famosa a flor de lótus, que nasce no lodo, nos pântanos podres. E ela emerge limpa, pura. Estrela transcendental.
No negrume das florestas, algumas orquídeas flutuam como fantasmas no ar. Mistério e luxo pelos bulbos grudados nos troncos das árvores.
Há mulheres assim. Flores raras. Raríssimas. Sofreram violência física, abandono, agressões, espancamentos, lesões, ameaças, humilhações, chantagens, perseguições, assédios, abusos, calúnias, ameaças, mas conseguiram sobreviver. Floresceram à beira do abismo, no deserto, no pó das ruas, na lama. Saíram de situações difíceis com beleza e dignidade.
Perto da casa da minha infância, na rua 13 de maio, vivia uma mulher chamada Edelvais. (É bonito uma mulher com nome de flor.) Diziam que viera do Rio de Janeiro. Que o marido era crooner e ela, corista de cassinos. Quando os cassinos fecharam, a família perdeu seu principal meio de sustento. Recorreram a parentes na distante cidade do centro-oeste. Ela agora vendia roupas, lenços de seda e colchas de vicunha. O filho moço, que depois se tornou ator, ficava sentado no muro da varanda, tragando um cigarro, enovelado na fumaça. Uma lembrança intensa e, não sei porquê, dolorida. Para ela escrevi:
Edelvais é um nome de flor,
Flor alva,
Que dá na neve,
Densa e inatingível
Como uma estrela da paz.
Edelvais é um nome de mulher,
Lembra baú,
Estola de pele,
Ficaria bem numa amiga,
Numa amante,
Numa filha morta,
Numa recordação antiga,
Tanto faz...
Edelvais...
Escalei tantas montanhas,
Não te alcancei jamais...





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