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Texto/Poesia - Cruz, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 12 horas
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto e poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Cruz"


CRUZ

Raquel Naveira


A cruz, assim como uma faca ou uma forca, foi instrumento de tortura e morte, usado durante o tempo do violento Império Romano. Era destinada aos condenados pelas autoridades, escravos rebeldes, criminosos perigosos, piratas, inimigos que aplicariam golpes ao Estado. Só as pessoas de condição social inferior eram crucificadas, açoitadas, obrigadas a carregar a trave horizontal da cruz no ombro até a chegada ao local de execução. Depois eram pregadas ou amarradas na cruz, deixadas expostas para morrerem lentamente. Um suplício por horas ou dias. Uma humilhação. Uma advertência pública de intimidação para quem desafiasse o poder. Aquela crueldade seria a consequência.

Imaginemos as estradas, as colinas, os montes, os portais da cidade por onde entravam viajantes e comerciantes, cheios de cruzes fincadas no solo. Que espetáculo de terror. Depois da revolta liderada por Espártaco, por exemplo, cerca de mil escravos foram crucificados ao longo da Via Ápia.

Foram cinco séculos de crucificação: desde o período da República, passando pelos reinados dos imperadores Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Vespasiano e Tito. Era assim que exerciam o controle.

A cruz aparece em diversos textos da literatura latina. O filósofo Sêneca (c. 4 a. C- 65 d. C.) observa que havia formas diferentes de crucificar, como neste trecho: “Vejo cruzes, não de um só tipo, mas feitas de diferentes maneiras, alguns têm a cabeça para baixo, outros são empalados pelas partes íntimas; outros estendem os braços no patíbulo.” Em Cartas a Lucílio, acrescenta que a cruz é o limite da dor física. Cícero (106-43 a. C) mencionou a cruz diversas vezes sem seus discursos, afirmando: “A própria palavra ‘cruz’ deve estar longe não apenas do corpo de um cidadão romano, mas também de seus pensamentos, seus olhos e seus ouvidos.” O historiador Tácito (c.56-120 d. C) confirma e execução de um tal Jesus, da cidade de Nazaré, na obra Anais, ao registrar: “Cristo, de quem deriva esse nome, sofreu a pena extrema durante o reinado de Tibério, por sentença do procurador Pôncio Pilatos.”

Mas foi Petrônio (60-65 d. C.), árbitro da elegância na corte de Nero, no seu livro Satiricon, um romance picaresco, cheio de humor, erotismo, que revela os costumes e a linguagem da sociedade romana do século I, que encontramos o episódio conhecido como “A Matrona de Éfeso”. A cruz aqui não tem sentido religioso. Reflete a realidade cotidiana daquela sociedade sangrenta. A cruz como punição extrema, vergonhosa, degradante. Conta que uma viúva permanecia no túmulo do marido, decidida a morrer de tristeza. Perto dali, criminosos haviam sido crucificados e um soldado vigiava os corpos para que não fossem retirados. O soldado se apaixona pela viúva e abandona o seu posto. Um dos corpos desaparece da cruz, levado, provavelmente, por familiares. O soldado entra em desespero. A falha na missão poderia custar-lhe a vida. A viúva sugere que se retire o cadáver do marido do túmulo e o pendurassem na cruz. Afinal, amava o marido e o amante.

Escritores como James Joyce, Proust e Jorge Luís Borges admiravam o Satiricon, de Petrônio. O célebre filme Fellini Satiricon dirigido por Federico Fellini (1920-1993) teve esse livro como base. Cenas de corrupção, tormentos físicos e

psicológicos, intrigas palacianas, banquetes e orgias lembram o ambiente e as questões contemporâneas.

É nesse contexto que Jesus foi crucificado sob a acusação política de se apresentar como “Rei dos Judeus”. Quando aconteceu essa mudança de percepção da cruz na história do Ocidente? Que loucura, que insensatez, que impacto levaram um cidadão romano como Paulo a declarar que pregava “Cristo crucificado”? Um verdadeiro escândalo para os valores daquela nação. Um acontecimento surpreendente. A cruz passara de infâmia a redenção, a símbolo de sacrifício, amor, esperança, salvação. O homem capaz de impor crucificação ao próprio homem poderia por esse caminho reconciliar-se com Deus? A História foi abalada em seus alicerces, partida em dois períodos: antes e depois da cruz.

Descrevi a cena da crucificação neste poema:


Jesus ensanguentado,

Carregando o madeiro,

A coroa de espinhos na cabeça;

Fisionomias assustadas,

Satânicas,

Nuvens de pó,

De cuspe

E suor;

Jesus suspenso na cruz

Como um fruto de carne,

Os pregos perfurando as juntas.


Como se pode morrer assim?

Como uma ovelha?

Como um peixe que se retalha?

Como uma criança inocente

Massacrada numa batalha?

Ah! Será que podemos ainda

Oferecer-lhe água?

Tocar em seu manto?

Tecer para ele uma mortalha?


Será que depois de tantos séculos

Ainda somos esse povo que desama?

Essa turba assassina?

Essa gentalha?


Carrego uma carga pesada nos ombros, em meio a tribulações. Agora cheguei a um ponto de passagem, uma encruzilhada, duas linhas que se intersetam. Terei que fazer uma escolha, uma mudança a essa altura da vida. Dou o primeiro passo em direção ao norte. Vejo de longe a sombra de uma cruz.

 
 
 

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