Texto - O que está acontecendo com o Festival de Inverno de Bonito?, por Paulo Portuga


Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/crítico com o músico, escritor, professor e poeta de Dourados (MS), Paulo Portuga, com O que está acontecendo com o Festival de Inverno de Bonito?
O que está acontecendo com o Festival de Inverno de Bonito?
De grande encontro de diferentes linguagens artísticas a uma programação cada vez mais concentrada nos shows musicais, o Festival de Inverno de Bonito parece ter perdido parte da dimensão cultural que o consagrou.
Está encolhendo a cada edição? A pergunta pode parecer provocativa, mas é difícil não a fazer diante do que se viu neste ano.
O Festival de Inverno de Bonito, que já foi um grande encontro de diferentes manifestações artísticas, parece ter enxugado sua programação ao ponto de fazer muita gente se perguntar se ainda mantém a mesma dimensão cultural de outros tempos. Os grandes shows continuam atraindo público, mas outras linguagens artísticas parecem ter perdido espaço e protagonismo.
Talvez seja o caso de rever o próprio conceito do evento. Afinal, para ser um festival de inverno, como já demonstrou em tantas edições, não basta reunir bons shows musicais. Um festival dessa dimensão precisa contemplar música, teatro, dança, cinema, literatura, artes visuais, circo, artesanato, gastronomia e tantas outras expressões capazes de transformar uma cidade inteira em um grande espaço cultural.
Moro em Dourados há mais de 40 anos e acompanho o Festival de Inverno de Bonito desde sua primeira edição. Devo ter falhado em duas ou três edições. Dos últimos dez eventos, participei de todos. É preciso planejamento, dinheiro e disposição para estar presente. Já passei por muitos perrengues para não perder o festival.
E talvez seja justamente por isso que me sinto à vontade para fazer esta reflexão.
A primeira edição aconteceu em 2000. Desde então, o Festival de Inverno de Bonito construiu uma trajetória marcada pela diversidade artística e pela presença de grandes nomes da cultura brasileira e sul-mato-grossense. Ao longo dos anos, Bonito recebeu artistas como Alceu Valença, Maria Rita, Caetano Veloso, Gal Costa, Lulu Santos, Milton Nascimento, João Bosco, Titãs e Jota Quest, entre tantos outros.
Mas o festival nunca foi apenas música.
Havia teatro, cinema, dança, circo, literatura, artes plásticas, artesanato, oficinas, palestras, exposições e atividades voltadas às crianças. Havia, inclusive, uma programação especial chamada Festival Bonitinho. Em 2016, por exemplo, a programação oficial reunia exposições de artes plásticas e artesanato, espaço de literatura, cinema, teatro, circo, dança, oficinas, debates e shows.
O festival também sempre reservou um espaço especial para os grandes expoentes da cultura de Mato Grosso do Sul. Almir Sater, Geraldo Roca, Tetê Espíndola, Helena Meirelles, Grupo Acaba e tantos outros artistas ajudaram a construir essa identidade. Eu mesmo tive a oportunidade de me apresentar em uma das edições, como músico.
Era bonito de ver.
A cidade pulsava arte. A gente caminhava pelas ruas e "tropeçava" em manifestações culturais. Era de tirar o fôlego. Precisava ter energia para acompanhar as atividades durante o dia e ainda conseguir assistir aos shows à noite. E muita coisa ficava de fora, simplesmente porque era impossível acompanhar tudo.
A praça ficava tomada de gente: estrangeiros, ambulantes, artistas, moradores locais e turistas. As lojas recebiam consumidores, os bares lotavam e a cidade respirava cultura. Bonito se transformava.
E Bonito cresceu.
Aumentou o número de atrativos turísticos, balneários, hotéis, pousadas, restaurantes — alguns já famosos muito além de Mato Grosso do Sul —, conveniências, bares, lanchonetes, agências de turismo e lojas. Ganhou aeroporto e novas obras de infraestrutura. A cidade se consolidou como um dos principais destinos do ecoturismo brasileiro.
Por isso mesmo, a pergunta continua: por que o seu principal festival cultural não acompanha esse crescimento?
Olhando para o festival deste ano, fiquei com a sensação de que houve um evidente encolhimento da programação cultural. Os grandes shows continuam presentes — Ferrugem, Léo Foguete, Seu Jorge e Humberto & Ronaldo foram as principais atrações nacionais de 2026 —, mas, para quem conheceu edições anteriores, fica a impressão de que a diversidade e a ocupação cultural da cidade já foram muito maiores.
E não é apenas o festival que merece atenção.
As estradas para chegar a Bonito estão em situação preocupante. Da Cabeceira do Apa até Guia Lopes da Laguna, o percurso é difícil e exige paciência dos motoristas. A estrada entre Maracaju e Guia Lopes parece ter mais remendos do que uma colcha de retalhos.
Ao chegar à cidade, a situação também não é das melhores. Há obras iniciadas e aparentemente abandonadas, ruas e calçadas esburacadas e um trânsito que, durante o festival, se torna caótico.
Para se ter uma ideia, depois do show do Seu Jorge, levei cerca de 40 minutos para percorrer apenas quatro quarteirões.
Bonito deveria ser um “brinco”.
É uma cidade que recebe milhares de visitantes, movimenta muito dinheiro e carrega uma enorme responsabilidade como cartão-postal do turismo sul-mato-grossense. Por isso, o Governo do Estado e a administração municipal precisam olhar com mais atenção para a infraestrutura da cidade.
Também é preciso enfrentar problemas que incomodam moradores e visitantes, como a questão do lixo e a precariedade da internet móvel em determinadas áreas.
Neste ano, confesso que fiquei decepcionado.
Não pela qualidade dos artistas que se apresentaram, mas pela sensação de que o Festival de Inverno de Bonito está perdendo algo que sempre foi sua maior riqueza: a capacidade de transformar a cidade inteira em um grande palco de cultura.
E ficam as perguntas.
Será que o festival está sendo pensado apenas como uma atração turística para trazer público aos grandes shows?
Será que as outras manifestações artísticas estão recebendo a atenção que merecem?
Será que a Secretaria de Cultura está enxergando o festival de forma míope?
Será que a população está se acostumando com essa redução?
E será que os artistas, produtores culturais e agentes da cultura vão continuar silenciosos diante do que parece ser um processo de enfraquecimento de um dos mais importantes eventos culturais de Mato Grosso do Sul?
Não tenho as respostas.
Tenho apenas a sensação de quem acompanha o Festival de Inverno de Bonito há mais de duas décadas e sabe que ele pode — e deve — ser muito mais.
Se continuar assim, talvez seja melhor rever o nome.
Quem sabe Bonitofest?
Porque Festival de Inverno de Bonito, para mim, sempre significou muito mais do que quatro noites de grandes shows.
Paulo Portuga, 31 de agosto de 2026





Reflexao muito pertinente!
Devido à incipiente programação, cancelei a reserva que havia feito no mês de maio.
Não participei. Ótima reflexão, mas creio que o problema sejam dos gestores que não são alinhados aos interesses populares. Uma pena.