Poesia - A gosto da primeira chuva, por Isaac Ramos


Segunda-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o professor universitário, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Isaac Ramos, com A gosto da primeira chuva.
A GOSTO DA PRIMEIRA CHUVA
(Isaac Ramos)
Sem cerimônia, em agosto,
A chuva dá um beijo de língua na terra
Que, ressecada,
Por falta de uso do verbo,
Em gotas se molha.
Pelos vãos infindos,
Pela ferida inflingida,
Pela poesia parida
Escorrerá todo sêmen,
Em palavras,
Que fecundarão
As sementes do poema.
Nos grotões da alma,
A gosto do poeta,
Haverá primavera
Para que setembro não cinze
Para que a poesia
Seja erguida em cinzel.
Pluveia em mim carícias essenciais,
Enxuga-me o corpo e se empalavre.
Perder-me-ei nas tuas funduras,
Tuas agulhas em textura,
Me fazem ser uma pessoa especial.
Alivia-me, advinha-me
Em gotas metafóricas.
E a gosto do poeta,
Injeta, inala, instiga
Tantas falas,
Anaforicamente,
Anatomicamente,
Em contornos metonímicos.
Entre pérolas de hipérbole,
Catacresicamente
Mova-me,
Para que eu retumbe
Tua insânia voz.
Personifica meu texto,
Para que eu tenha um pretexto,
Para que o poema anuncie,
Para que do ócio e do cio,
Eu sinta o sabor do vício,
Para que eu não pare de escrever.
Enquanto as chuvas de setembro
Não vêm, pluvia,
Prepara a minha conversa.
Prepare-se para os meus versos
Porque eles não param
De gotejar,
Intensamente dentro de mim.





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