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Texto - Lobos e Lobas, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 10 de jul. de 2025
  • 5 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto com a poeta e escritora de Campo Gande (MS), Raquel Naveira com "Lobos e Lobas".


LOBOS E LOBAS

Raquel Naveira


Minha primeira experiência no teatro foi a de representar Chapeuzinho Vermelho. Vestido xadrez miúdo, preto e branco, capinha e capuz de papel crepom vermelho. A cesta cheia de flores. O gesto de colher as flores. O caminho da casa da vovó passando pela floresta. O momento em que me deparei com o lobo e contei o exato lugar para onde ele deveria ir. O lobo estirado na cama. A fome do lobo. O misto de excitação e ansiedade diante do perigo. O abraço fatal do lobo devorador. O caçador abrindo o estômago do lobo, salvando-nos, avó e neta, renascidas do ventre do animal.

Chapeuzinho Vermelho é mesmo uma história fantástica, amada universalmente. Teve várias versões. Na de Perrault termina com a vitória do lobo, destituída de recuperação ou consolo. Na dos Irmãos Grimm, Chapeuzinho e a avó são salvas pelo caçador e o lobo recebe um castigo merecido. Todos os bons contos de fadas têm significados em muitos níveis e só a criança pode saber o que é importante para ela naquele momento em que ouve a história. Chapeuzinho, embora virtuosa, é humana, sofre tentação. Se não houvesse algo em nós que aprecia o lobo, ele não teria poder de atração sobre nós. Naquela ocasião, eu já me sentia uma jovem donzela, sábia, capaz de decidir meu futuro.

Muitos anos depois, li o intrigante livro Mulheres que correm com os lobos, da psicóloga Clarissa Pinkola Estés, sobre a psique da mulher na busca profunda de autoconhecimento. Os lobos sempre rondaram o universo dessa professora americana em sonhos. Ao estudar esses animais, ela observou semelhanças entre a loba e a mulher na dedicação aos filhos, ao companheiro e ao grupo social, a matilha. Lobos e mulheres têm percepção aguçada, espírito brincalhão, elevada capacidade de devoção. São gregários, curiosos, dotados de força, determinação e coragem. Duas espécies ameaçadas e perseguidas pela atividade predatória dos que não os compreendem. Ao longo da civilização, esses instintos naturais a que ela dá o nome de “Mulher Selvagem” foram domesticados, sufocando o potencial criativo da alma feminina. O arquétipo da Mulher Selvagem semelhante à loba seria o benfeitor das pintoras, escritoras, bailarinas, pensadoras, artesãs, tecelãs, místicas que resistem na fé. Criar, inventar e amar profundamente é o que deseja essa mulher-loba, visceral, que vive da poesia.

A loba que alimenta e funda nações lembra a imagem dos gêmeos Rômulo e Remo sendo amamentados por uma loba. Diz a lenda que os pequenos meninos eram filhos de uma sacerdotisa vestal com o deus Marte. Punida por não ser mais virgem, ela é presa num calabouço e os filhos jogados no rio. O cesto atraca em uma das margens, no sopé do monte Palatino, onde são encontrados pela loba. Um pastor os encontra perto de uma figueira e os leva para casa, onde são criados por sua mulher. Crescem fortes, livres, caçando e saqueando caravanas. Rômulo mata Remo numa discussão. Desesperado, depois de descobrir suas origens, retorna à cidade de seus antepassados, Alba Longa e ali funda Roma. Os arqueólogos encontraram a gruta na qual os irmãos foram aleitados pela loba. Os subterrâneos de Roma, cheios de galerias e catacumbas são fonte de mistérios e grandes surpresas.

Voltemos ao lobo. Apesar da exaltação das suas qualidades positivas por Clarissa Estés, o lobo representa em nosso inconsciente coletivo a criatura astuta, o apetite voraz, a masculinidade inclinada para o mal. O maior risco, no entanto, é um lobo disfarçado em ovelha. Paulo alertou seus fiéis dizendo que depois de sua partida entrariam no meio das congregações lobos cruéis que não poupariam o rebanho, falando coisas perversas para atrair os discípulos. Os lobos estão no nosso meio, procurando ganhar a confiança com engodos de bondade, criando confusão, distorcendo palavras. As ovelhas teimosas, por sua vez, rejeitam coisas profundas e sensatas e se deixam enganar facilmente. Batem a cabeça e ficam balindo para a lua cheia.

Usando a velha artimanha de se disfarçar em ovelhas, na mitologia grega, Ulisses e seus marinheiros conseguiram escapar do gigante Polifemo. Polifemo era um ciclope de um olho só na testa, que vivia solitário numa caverna junto a um vulcão, cuidando de ovelhas. Ulisses e seus homens desembarcaram naquelas terras, procurando comida e entraram na sua caverna. Quando Polifemo regressou, fechou a caverna com uma rocha enorme, agarrou dois homens e os devorou. Ulisses então ofereceu vinho a Polifemo. Quando ele adormeceu, afiou uma faca e espetou no olho do gigante, cegando-o. No dia seguinte, Polifemo abriu a caverna para as ovelhas saírem, apalpando para sentir se seriam ovelhas ou prisioneiros. Eles se esconderam sob as ovelhas e fugiram, um a um. Por cima, pelegos de ovelha; por baixo, esperteza de lobos.

Lobo miserável, monstruoso, covarde é o pedófilo. O adulto astuto que corrompe a menina inocente. Um livro de arrepiar sobre esse tema é Lolita, do escritor inglês Nabokov. O romance é notavelmente bem escrito. E, em literatura, os livros são apenas bem ou mal escritos. O narrador em primeira pessoa é o próprio protagonista, um narrador não confiável, que vê a história apenas de seu ângulo. Trata-se de Humbert, um professor de literatura de meia idade, obcecado por Dolores, Lola, Lolita, uma menina de doze anos, uma ninfeta. Humbert casa-se com Charlotte, mãe de Lolita, para ficar mais perto de sua vítima. Charlotte, alucinada, descobre a verdade e é morta por um carro. Humbert, com Lolita, dirige ao redor do país, de motel em motel. Lolita é raptada por um crápula, um cineasta de filmes pornôs. Humbert mata o cineasta, é preso, condenado e morre na prisão, onde conta suas memórias. Lolita morre aos 17 anos, ao dar à luz uma menina natimorta. Apesar do conteúdo chocante, o estilo de Nabokov é flamejante. Somos absorvidos pelos sentimentos do odiável Humbert, sem nada podermos fazer para estancar a dor de Lolita, uma voz fraca, silenciada. Um ser humano transformado em objeto nas mãos de um tirano. Caso clínico? Impacto ético? Entrega satânica? Trememos ao ler: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama.”

Recordo minha representação de Chapeuzinho Vermelho no teatro. O gesto de colher flores. Eu também, em algum momento, não tive medo do mundo lá fora e saí ao seu encontro. E se o mundo nos parece atraente, pode-se cair no perigo de perambular, de buscar um comportamento que vise o prazer. É eterno o conflito entre fazer o que gostamos e o que devemos. Quando decidimos pelo dever, encontramos uma grande paz. E recolhemos, por alguns instantes, a cauda de loba, por baixo do vestido.

 
 
 

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Sempre fantástico seus textos.

Luciana Teixeira

Salvador BA

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Raquel fenomenal!❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾💪🏾❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

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