Texto - Dostoiévski e o tribunal que existe dentro de nós, por Rogério Zanetti


Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Texto com o jornalista, radialista e escritor de Campo Grande (MS), Rogério Zanetti, com Dostoiévski e o tribunal que existe dentro de nós
DOSTOIÉVSKI E O TRIBUNAL QUE EXISTE DENTRO DE NÓS
Em “Crime e Castigo”, o escritor russo expõe as contradições da consciência humana e antecipa questões que encontrariam na psicanálise um novo campo de investigação
Por Rogério Alexandre Zanetti
Quando li essa obra do escritor russo Fiódor Dostoiévski, eu passei a acreditar que era o próprio Rodion. Contrai todos seus temores e neuroses, a ponto de, se alguém batesse a porta, coração disparava e batia a vontade de correr ou esconder-me debaixo da cama. Poucas obras têm o poder de causar efeitos psicológicos tão potentes quanto crime e castigo. E aqui vou tentar entender e explicar porque digo isso.
Crimes começam muito antes do primeiro golpe. Quase sempre surgem de uma ideia, alimentam-se de uma justificativa e crescem no espaço perigoso entre aquilo que desejamos e aquilo que conseguimos admitir sobre nós mesmos. Em Crime e Castigo, publicado em 1866, Dostoiévski transforma esse fascinante território em literatura. O assassinato movimenta a história, mas não é o desfecho típico de triller policial que importa, a consciência do assassino que lhe dá profundidade.
O protagonista, Rodion Raskólnikov, é um jovem ex-estudante, empobrecido e isolado em São Petersburgo. Ele é inteligente e orgulhoso, e procura dar fundamento moral a uma decisão brutal, a de matar uma idosa agiota. Para isso, ele sustenta a ideia de que indivíduos extraordinários poderiam ultrapassar as leis comuns quando seus atos servissem a um propósito supostamente superior. Por trás desse raciocínio, porém, existe uma pergunta mais íntima, a de que se ele seria um desses homens.
Dostoiévski magistralmente conduz o leitor para dentro dessa dúvida. Acompanhamos as justificativas do personagem, seus impulsos de generosidade, com arrogância, medo e incapacidade de compreender inteiramente o que o move. O resultado é um dos retratos psicológicos mais inquietantes da literatura, com um homem que tenta governar a própria consciência por meio de uma teoria e descobre que a vida interior não obedece tão facilmente as ordens da razão.
A RAZÃO A SERVIÇO DO ABISMO
A grandeza do escritor está em recusar uma explicação única para Rodion. A pobreza pesa sobre ele, mas não explica tudo. O orgulho o domina, mas não elimina sua capacidade de compaixão. Sua revolta contra a injustiça convive com a disposição de praticar uma violência irreparável.
É nessa convivência de sentimentos incompatíveis que Dostoiévski revela sua extraordinária capacidade de construir personagens. Em vez de apresentar um perfil acabado, deixa que ele apareça nas hesitações, nas conversas, nos sonhos e nas diferenças entre o que o protagonista afirma e acredita e aquilo que efetivamente faz.
Rodion procura convencer a si mesmo de que age por uma finalidade elevada. Entretanto, sua necessidade de testar a própria excepcionalidade compromete a aparente generosidade do argumento. Ao leitor, fica a suspeita de que a explicação mais bem organizada pode ser também uma forma de esconder um desejo menos confessável.
Essa percepção permanece atual. Quantas vezes uma justificativa aparentemente apresentada como racional encobre orgulho, ressentimento, medo ou ambição? Dostoiévski compreendeu que o ser humano pode ser profundamente eloquente ao explicar seus atos e, ainda assim, desconhecer parte de suas motivações.
O CASTIGO ANTES DA SENTENÇA
Depois do assassinato, a teoria perde totalmente sua segurança. O protagonista mergulha em estados febris, suspeitas, isolamento e movimentos contraditórios de aproximação e fuga. Quer escapar da descoberta, mas se expõe. Procura manter o controle, mas suas reações o desmentem.
O castigo já está em curso, e isso nem é sobre condenação judicial. Manifesta-se na impossibilidade de retomar a vida como se nada tivesse acontecido, na ruptura dos vínculos e no esforço exaustivo para sustentar a imagem que construiu de si.
Dostoiévski faz dessa experiência uma investigação sobre os limites da vontade. Saber formular uma ideia não significa suportar suas consequências. Rodion consegue imaginar um homem acima da lei, mas não consegue transformar-se nele sem se despedaçar interiormente.
Também os personagens ao seu redor participam dessa revelação. Porfíri Pietróvitch, o investigador, trabalha com a pressão das conversas e das contradições. Sônia oferece a presença humana que o orgulho do protagonista insiste em rejeitar. Diante de ambos, por caminhos diferentes, o assassino Rodion encontra dificuldades crescentes para permanecer escondido de si mesmo.
O ENCONTRO COM A PSICANÁLISE
Quando Crime e Castigo foi publicado, Sigmund Freud ainda era uma criança de 10 anos de idade. Décadas antes da constituição da psicanálise, Dostoiévski já explorava, pela ficção, conflitos entre desejos e proibições, justificativas conscientes e motivações obscuras, culpa e necessidade de punição.
É nesse sentido que se pode reconhecer sua contribuição para psicanálise, com sua abordagem clínica teórica que se ocupa em explicar o funcionamento da mente humana, ajudando a tratar distúrbios mentais e neuroses. A literatura ofereceu à reflexão psicanalítica personagens e situações de extraordinária complexidade. Isso exige uma distinção. Dostoiévski não criou um método clínico, e seus romances não demonstram teorias científicas. Sua força esteve em dar forma sensível a experiências que a psicanálise procuraria investigar e conceituar.
A aproximação entre Freud e o escritor russo é documentada. Em 1928, no ensaio Dostoiévski e o parricídio, Freud examinou a obra e aspectos da vida do autor, concentrando-se especialmente em Os Irmãos Karamázov. Portanto, seria impreciso apresentar esse estudo como uma análise direta de Rodion Raskólnikov ou afirmar que Crime e Castigo, isoladamente, deu origem às descobertas freudianas.
O diálogo, entretanto, é expressivo. Ao tratar da culpa, da ambivalência afetiva e do desejo de punição, Freud encontrou na literatura de Dostoiévski um campo para desenvolver interpretações sobre a vida psíquica. Essas leituras integram a história da psicanálise; suas hipóteses sobre o escritor devem ser entendidas como interpretações, não como diagnósticos comprovados.
O CLÁSSICO QUE CONTINUA A NOS INTERROGAR
Crime e Castigo atravessa gerações porque seu protagonista conserva algo perturbadoramente humano. Sua violência o responsabiliza; sua complexidade impede que o leitor o encerre numa definição confortável. Compreendê-lo exige acompanhar a distância entre suas ideias, seus sentimentos e suas escolhas.
Ao traçar esse perfil, Dostoiévski ampliou as possibilidades do romance e ofereceu à investigação da mente humana um interlocutor duradouro. A psicanálise encontraria em sua obra conflitos que mereciam ser examinados, sem esgotar, com isso, os sentidos da criação literária.
Raskólnikov tenta provar que pode ultrapassar os limites impostos aos outros. Termina diante de uma tarefa muito mais difícil: reconhecer a própria condição humana. É nesse confronto que o livro continua vivo — quando a justificativa perde a força e um homem precisa, finalmente, responder por aquilo que fez.





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