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Conto - Papagaiada, por João Francisco Santos da Silva

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 12 horas
3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Papagaiada;


Papagaiada


O choro chato e insistente de criança pequena, chamava a atenção dos passantes. O muro alto não permitia avistar a criança birrenta e volúvel que, depois de muito chorar, caía num súbito gargalhar. As risadas duravam tanto quanto o choro sentido.

Atrás do muro não havia crianças. Por algum tempo, elas estiveram por lá. Agora vivia uma velha senhora. Mãe de filhos adultos, vó de netos distantes. Que segredos esconderia?

Nos anos 1990, houve uma série de desaparecimentos de crianças. A internet e as redes sociais ainda perdiam para os noticiários policiais de rádio e televisão. Nessa época, era frequente afixar cartazes em postes e paradas de ônibus, com a foto e a identificação da criança desaparecida.

Custódio, homem observador e desconfiado, morador recente da Vila Piratininga, gostava de caminhar pelo bairro e bisbilhotar a vizinhança. Porteiro aposentado, sonhava, desde a juventude, em ser da SWAT, aquela da série de TV. Ouvia o programa do Escaramuça no rádio e depois saía para sua ronda matinal. Caminhava de sua casa até o Lago do Amor, subia a ladeira, passava em frente ao Hospital Universitário e retornava, cortando caminho pela rua Das Guianas.

Por necessidade das pernas, ele sentava-se no banco da parada de ônibus em frente ao hospital. Descansava por uns cinco ou dez minutos. Tempo suficiente para ver o movimento de pessoas e de ambulâncias entrando e saindo do hospital. Tanta gente doente, tanta violência, ele matutava em seu breve descanso. Olhava para a cobertura da parada e sempre via o mesmo rosto de criança. O papel estampava DESAPARECIDO abaixo da foto de um menino de uns três ou quatro anos de idade.

Mulher sem muitos mistérios. Tutora de papagaio. Papagaio de poucas palavras. Seu negócio era chorar e rir feito criancinha. Ave intratável, só tolerava a aproximação de sua dona. Odiava crianças e não gostava muito de adultos. Tinha a pontinha do bico quebrada. Não se sabe ao certo como foi provocada a fratura. O mais provável é que o

papagaio tenha quebrado o bico comendo bala Soft, sabor limão. A bala verde e dura fazia parte dos hábitos alimentares da ave.

O papagaio chegou adulto. Suspeita-se que, desde jovem, não era boa bisca. O problema é que o apaixonado não enxerga nem o caráter nem a índole do sedutor. Foi assim com a senhora, quando ainda era mais jovem. E, mesmo sendo casada, sentiu amor à primeira vista pela ave fujona, quando a encontrou na calçada, em frente de casa.

Amigos inseparáveis, o papagaio e a velha senhora seguiam suas vidinhas sem novidades. Ele papagaiando choros e risos; ela, dando-lhe carinho e balas Soft. Mas até os mais pacatos têm seus dias de tensão e suspense. Primeiro, um alvoroço de vozes na calçada. O papagaio chorando sem parar. Dois estrondos de pontapés e o portão veio abaixo.

— Cadê a crian...!

Antes de o policial terminar a frase dramática, ele se deu conta de onde vinha o choro. A merda já estava feita. A velha e o papagaio, imóveis, trocaram um olhar cúmplice. A ave partiu para a agressão. Antes de acalmá-lo, a dona deixou que desse mais algumas bicadas no nariz do policial. Sem esperar pelo desfecho, Custódio picou a mula. Policiais nem sempre reagem bem a operações malsucedidas.

 
 
 

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