Reflexão - Diário de uma Idosa 309, por Joana Prado Medeiros
- Alex Fraga

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Quarta=feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto de reflexão com a professora universitária, historiadora, poeta e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros, com "Diário de uma Idosa 309.
O CIRCO DA MINHA VIDA...
Na mesma época em que eu vi um anjo, passei por vários dias encabulada e cabisbaixa. Até hoje, não me sinto confortável para falar sobre. Bem, por essa época eu tinha seis aninhos, já quase sete. Chegou em nosso vilarejo um circo de picadeiro. Muito pobre, eles tinham somente alguns apetrechos, eram somente duas famílias de mexicanos tentando sobreviver. Tinham a lona, ancoragens para o trapézio, e não tinham a rede de proteção, algumas cadeiras e a lona da cobertura. Fora do circo montaram duas barracas e só. Eles entraram em contato com o meu pai, que era sócio de uma pequena serraria, e pediram madeira, tábuas para fazerem as arquibancadas conhecidas como poleiros. Também montaram um pequeno palco. A minha mãe fez a cortina que fechava o palco, era de um tecido roto, fininho, conhecido como chita. Meu pai, de bom grado, ofertou todo o restante do material. E assim, por algum tempo, houve espetáculos.Tínhamos entrada gratuita e, para minha alegria, não perdemos uma noite sequer de apresentações. O palhaço era chamado de Caroço. O mesmo palhaço era o artista que voava no trapézio sem rede de proteção. Era também o mesmo protagonista das peças teatrais. Assisti à peça "O Direito de Nascer", "Mamãe Dolores", encantada, eu chorava junto com o pouco que entendia. O Caroço e seu irmão também apresentavam um belo número musical, tocavam acordeão e violão, o vocalista era nada mais nada menos que o Caroço, lindo jovem de pele clara e uma vasta cabeleira negra, olhos pretos, usavam chapéus e roupas mexicanas, cantavam belíssimas canções. Fui abduzida e nunca mais voltei, ouvindo "Cielito Lindo", "Bésame Mucho", "La Cucaracha", e eu fiquei de coração gigante batendo feito gente grande, apaixonei, né. Moço mais lindo, este Caroço. E vem daí minha paixão pelo espanhol e por todas as canções mexicanas. Quando o circo se foi, minha alma estava habitada pela arte, pelo rir dos palhaços e pelo teatro. Um mosaico foi construído em mim e a paixão por artes cênicas, em todos os seus desdobramentos, fez rancho. Sou absolutamente encantada pela arte circense e por toda arte. Bom, o circo se foi e nós também voltamos para minha cidade natal, nossa Dourados. Passados apenas uns dois anos, ficamos sabendo que o referido circo estava há algum tempo em uma cidadezinha perto. Logo ficamos sabendo a triste notícia: o palhaço e também trapezista, em uma de suas apresentações, caiu e veio a falecer...Sem rede de proteção se foi...Com sua arte, com seu canto, com apenas 24 anos. Meu coração de menina nessa hora ficou velho, acho que alcançou cem anos... Sem entender os desarranjos, sem entender a falta econômica, e a falta das coisas que descalça os artistas, (desde sempre), chorei só e sem alento. E amo o riso triste dos palhaços e também faço palhaçadas para sobreviver.
(Joana Prado Medeiros - 21/04/2026 - Direitos Autorais Lei 9.610/98





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