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Artigo - Mármore Europeu vs. Carne Sul-Mato-Grossense

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Terça-feira no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o professor titular aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Paulo Marcos Esselin, com Mármore Europeu vs. Carne Sul-mato-grossense: Por que o nu estrangeiro educa e o nosso choca?


***Paulo Marcos Esselin


Mármore Europeu vs. Carne Sul-mato-grossense: Por que o nu estrangeiro educa e o nosso choca?


A montagem da exposição “Habeas Corpus” de autoria do artista Élcio Miazaki, na Galeria Nello Nuno (Fundação de Arte de Ouro Preto – FAOP), foi interrompida em março de 2026 por determinação da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (SECULT). A suspensão ocorreu mediante ofício expedido pela então secretária, Sra. Bárbara Botega, fundamentado na necessidade de uma análise técnica acerca da conformidade da mostra com os critérios legais da administração pública e o atendimento ao interesse coletivo.

O ato administrativo ocorreu em um cenário de transição política, coincidindo com a desincompatibilização da secretária e a renúncia do governador Romeu Zema (Novo) para fins eleitorais. Críticos e entidades do setor cultural interpretaram a medida como um cerceamento à liberdade de expressão, uma vez que a obra de Miazaki utiliza a fotografia e a vídeo performance para investigar as tensões entre o corpo masculino e o período da ditadura militar brasileira. O episódio levanta discussões sobre a autonomia das instituições culturais e os limites da intervenção estatal na produção artística sob o pretexto de discricionariedade administrativa.

Fiquei pensando, considerando o contexto de censura, qual seria a reação de Zema e de sua Secretária de Cultura se fizessem um tour pela Europa e chegasse até a cidade italiana de Florença, onde está exposta ao público em geral- inclusive crianças - a estátua original de Davi, herói bíblico, nu em pelo, esculpida por Michelangelo entre 1501 e 1504, ou a Roma, onde a presença de corpos nus na arte pública é onipresente, inclusive em locais de extrema importância religiosa e política vinculados ao Papa. Será que eles ficariam com os rostos avermelhados, cobertos de vergonha?

Essa visão cria uma hierarquia onde o que vem da Europa é; “universal” e “intocável”, enquanto a produção local é submetida a uma vigilância moral rigorosa.

Para o pensamento colonial majoritário na nossa sociedade, o nu de mármore europeu é higienizado pela História. Ele deixa de ser um homem nu; para virar um símbolo de civilização. Já o artista brasileiro contemporâneo, ao usar o corpo, é visto como uma ameaça à ordem ou aos bons costumes, ou trata – se de um comunista.

O anacronismo é tamanho que não percebem que a base da democracia e do pensamento ocidental que esses grupos costumam defender nasceu justamente na Grécia e em Roma, onde o nu era a celebração máxima da cidadania e da beleza.

Como o ato a que estou me referindo ocorreu recentemente, ou seja, em um contexto pré-eleitoral, a suspensão da mostra serve mais como uma sinalização para uma base eleitoral conservadora do que como uma crítica estética real, revelando claramente a existência do uso da hipocrisia como arma para conquistar votos dos eleitores religiosos dos “falsos moralistas” claramente a existência do uso da hipocrisia como arma para conquistar votos dos eleitores religiosos dos “falsos moralistas”

Aqui em Mato Grosso do Sul, até o livro “O Avesso da Pele” foi censurado pelo governo estadual: Eduardo Riedel determinou que todos os exemplares da obra fossem recolhidos de setenta e cinco escolas públicas estaduais, sob alegação de estar defendendo a moral e os bons costumes que deveriam nortear a formação de estudantes em escolas públicas estaduais.

Em Mato Grosso do Sul, como em Minas Gerais, com a proximidade das eleições de outubro, a herança colonial se manifesta à luz do dia. As elites econômicas e políticas, utilizam valores morais ou religiosos particulares para ditar o que pode ou não ser exibido no espaço público e a cultura é reduzida a entretenimento familiar ou à exaltação de raízes musicais sertanejas.

Outra coisa que mais me chamou a atenção nos últimos meses foram os recordes de trocas de partidos, reflexo também de estruturas sociais e políticas arcaicas, muitas vezes associadas ao coronelismo ou ao patrimonialismo.

Um número significativo de deputados estaduais e federais deixaram o PSDB e migraram para o PL e PP, (os mesmos que até dias atrás defendiam a integração SOBERANA do Brasil no sistema econômico internacional e em projetos que beneficiariam diretamente

o povo e não as oligarquias), para se juntaram aos que defendem Deus, Pátria, Família e Oligarquia.

Os discursos desses neófitos bolsonaristas, Estado afora, são de uma agressividade verbal alarmante, com o uso de palavras de baixo calão, incitação ao ódio e por um tom de confronto direto, alimentando essa estapafúrdia polarização e guerra declarada ao que eles chamam de Lula 4. Poderiam aproveitar essas reuniões e palanques para abordarem a solidariedade, respeitos uns com os outros. No entanto, essa prática é perfeitamente compreensível, pois, ao se apresentarem como ortodoxos bolsonaristas em tão curto espaço de tempo, faz-se necessário um esforço redobrado de convencimento aos já existentes e a uma sociedade que faz parte desse cenário geopolítico adoecido. A saída foi se tornarem mais radicais do que aqueles que já haviam erguido a hipócrita bandeira de Deus, Pátria e Família em passado recente.

Pior ainda: além do oportunismo tacanho, juntaram – se a um candidato a presidente do Brasil que vem prometendo publicamente entregar recursos estratégicos nacionais em troca de apoio político e eleitoral estrangeiro! Que deseja, caso seja eleito, fazer voltar a roda do tempo para fazer do Brasil uma COLÔNIA, sendo o primeiro a se tornar um capataz de Donald Trump. Para aquelas lideranças políticas que se filiaram ao PL e ao PP, certamente isso não faz a mínima diferença em nosso belo Estado de Mato Grosso do Sul, haja vista que, desde há muito, vêm passando a maior parte de suas vidas em torno de capatazes.


***Professor Titular aposentado da UFMS

 
 
 

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