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Reflexão - Diário de uma Idosa 296, por Joana Prado Medeiros

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto de reflexão com a professora universitária, historiadora, poeta e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros, com seu Diário de uma Idosa 296.


CHINELAS NA CEIA DE NATAL...


Sob o olhar cego das gentes felizes e consumistas, Severina pela fresta vê a festa, seu olhar apagado vê tudo em vermelho e uma coalhada de brilho. A senhora Severina não possui mais religião, nem dogmas, nem convenção não acende velas e nem troca presentes. Sorriso banguela, braços devolutos abraça o que pode, suspira, mendiga, tenta gritar chamar atenção espichada em seu caixote de papelão.

Enquanto nos lares aconchegados como poetiza Fernando Pessoa, os sentimentos conservam os sentires passados... Por vez acontecem as desavenças com o cunhado insuportável, o primo chato, aquele só bebe e comete bafão... Atravessadas famílias se atravessam, entoam hinos e proclamam o amor.

Representante da desigualdade social em nosso país, a miserável vida Severina cantada e analisada nas academias e nas rodas intelectuais nas conversas de bares etc. Ninguém escolhe nascer em uma família pobre, em lugar onde não há escola, hospital e onde falta comida e até água. Ninguém escolhe “morrer de velhice antes dos trinta”.

João Cabral de Melo Neto descreveu a dor daquele que sai da sua terra como um ato de sobrevivência e não como uma opção de vida, transporto nessa escrita “não” somente o migrante que sai de sua terra, mas o “migrante” que sai de seus valores cristãos e segue o jargão do projeto Iluminista e Liberais onde todos são iguais perante a lei e desiguais perante a vida.

Severina simplesmente “sente” sente dor, fome, frio, calor e sede, sente fome de amor, de abraço e riso, tudo o que Severina quer neste Natal é exatamente o que nós “não” queremos.

Não queremos para nossa ceia um prato farto de arroz e feijão nem carne e farofa, nem uma casa com cama quentinha e cobertor macio. Queremos o brilho da árvore de Natal, o barulho e as reclamações em meio às piadas ridículas ao rasgar os pacotes de presentes. Queremos com os olhos ébrios reclamar das injustiças sociais, discriminar as políticas públicas e ainda dizer que os “pobres” recebem Bolsa família para não trabalhar. (caro leitor: têm ressalvas o programa – mas não é este o ponto desse momento).

A diferença vai da dignidade à força. Existem pessoas que afirmam que estão cansadas de conversas “politicamente correta ou ainda cansadas dos defensores de direitos humanos”. E ironizam sugerindo “leve um pobre para casa” e agora jogam chinelos.

 O amor do personagem principal pede passagem, ó abre alas, que eu quero passar.

O Estado, por sua como uma forma de manifestação organizada da sociedade tem papel fundamental para criar condições para que todos tenham a mesma oportunidade. (Discurso remanescente do projeto iluminista que agora esmigalhado tenta se manter) Nesta esteira, ainda citando o livro de João Cabral somente após o nascimento de uma criança é que rompe no peito do desgasto retirante a “explosão da vida” e todos os “Severinos” compreendem que a luta é válida, essa travada com a vida e morte de todos os dias.

E natal, é isso, muito consumo, Rivotril, peleja e "renascer" dentro de cada um a luz da vida, a compreensão da lei harmônica do universo- O amor. O respirar das diferenças Severinas, com responsabilidades e comprometimento com os valores éticos e espiritualistas. Caminhamos com os dois pés - Em tempo, calçados.


( Joana Prado Medeiros - 24/12/2025 - Direitos Autorais Lei 9.610, 19/02/98)


Sobre a autora: ...Já fui Historiadora, agora não sei de mais nada.

 
 
 

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