Conto - Pica-Pau Amarelo, por Paulo Portuga
- Alex Fraga

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Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o professor, músico, poeta e compositor de Dourados (MS), Paulo Portuga, com "Pica-Pau Amarelo"
PICA-PAU AMARELO
Estávamos na varanda do rancho do pesqueiro, numa manhã ensolarada de outubro. Feriado estadual e nacional: divisão do Estado do Mato Grosso, Dia do Professor e Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. O pesqueiro fica em Bela Vista – MS, fronteira com o Paraguai. O rio é o Piripucu, que percorre um vale em forma de “U”, entre paredões de rocha calcária e barrancos de areia que, em alguns trechos, formam praias, boas para banho. Logo abaixo, o rio se encontra com o famoso rio Apa, conhecido por ser muito piscoso e por chamar a atenção de muitos pescadores.
O dia ainda estava começando. Meu amigo Ribeiro, também conhecido como “Coroné do Apa”, devido ao seu antigo e sujo chapéu de palha, que quase nunca o retira da cabeça, estava mateando (porque ele não é besta) erva-mate, jateicaá e macela. Eu, que não sou muito chegado ao mate, estava fazendo um café numa dessas cafeteiras italianas.
Sentado, olhando para o mato verde, esperando a água ser aquecida pelo fogão, gerando vapor que aumenta a pressão da cafeteira, fazendo com que a água seja expelida para a parte de cima do utensílio e, assim, quando um vulto, muito veloz, cruzou meu olhar absorto. Não consegui identificar o que era num primeiro momento, mas me chamou a atenção.
Tomei meu café com pão de forma e ovo frito. Um olho no pão e o outro na paisagem. Não demorou muito: o objeto não identificado pousou num tronco de um angico. Era uma ave. Um pica-pau enorme, de cabeça amarela. Linda! Forte!
Para a minha sorte, a ave fez um ninho bem próximo do rancho. Abriu um buraco enorme no tronco do angico. Suas penas eram, praticamente, da mesma cor do caule da árvore. O que a denunciava era seu enorme topete amarelo, entre os tons de verde, cinza e marrom do lugar.
Fiquei animado. Peguei o celular para fazer um registro. O pica-pau sentiu a minha aproximação e, sabiamente, voou para dentro da mata. Não satisfeito, fui olhar de perto o oco no tronco. O pássaro fez um belo trabalho: um enorme ninho, bem redondinho. Afastei-me para esperá-lo em outra oportunidade. Tempo eu tinha de sobra.
Voltei para a varanda coberta de zinco, e o calor já começava pra valer. Esperei, olhando sempre para o angico, quando, de repente, outro pica-pau saiu de dentro do oco. Então, eram dois pica-paus de cabeça amarela. Incrível! Estavam cuidando do ninho.
Voltei a me aproximar, só que desta vez com passos bem lentos e leves, como diria Raul, “para não acordar o dia”. Fui chegando perto com a câmera ligada. O pássaro se agarrava ao tronco com facilidade, maestria e agilidade próprias de uma ave. Eu fui registrando tudo. Dando um zoom no celular, consegui captar uma bela imagem de uns 40 segundos, quando, novamente, voou para dentro da mata.
Fiquei supercontente com as imagens. Publiquei-as nas minhas redes sociais com a música de Gilberto Gil, Sítio do Pica-Pau Amarelo, canção que fez parte de boa parte da minha infância, quando assistia à novelinha do mesmo nome, baseada na obra de Monteiro Lobato. Adorava o Reino das Águas Claras e o Visconde de Sabugosa.
Pronto. Estava feito, mas a história não termina por aqui. Passado o dia, sentei-me na cadeira de fios para ver o celular e vi um comentário no vídeo que postei, da professora Suzana Arakaki, especialista em aves. A passarinheira pediu para conhecer o pesqueiro, o nosso Ermo dos Gabirus, para poder fazer alguns registros, já que ela “caça” passarinhos com suas poderosas lentes fotográficas. Falei que entraria em contato assim que chegasse em casa. Marcamos a visita para outro feriado de dezembro (Padroeira de Dourados).
Novembro passou. Com ele vieram ventos fortes e chuvas pesadas.
Voltamos ao pesqueiro na data combinada, todos animados com a possibilidade de registrarmos várias aves, pois, na região, temos o encontro de grandes biomas, como o Pantanal, o Chaco Paraguaio, o Cerrado, e outros menores, como a Mata Ciliar que acompanha o rio.
Ao sair do carro e pisarmos no chão do Ermo, vimos, estatelados, que o angico havia caído sobre a varanda, quebrando telhas e vigas de madeira. A árvore estava partida ao meio, com uma parte do tronco caída sobre o telhado e outra parte, que ainda restou do angico, fincada no chão, com suas raízes e com o oco feito pelo pica-pau como testemunho.
Coloquei-me a pensar: será que deu tempo de o filhote crescer e sair antes da queda do angico? Será que o pica-pau foi o responsável por enfraquecer a árvore a ponto de matá-la? Será que o angico já estava morrendo e, por isso mesmo, o pica-pau o escolheu para fazer o ninho? Será que foi por conta de um vento forte que o atingiu em cheio? Essas perguntas podem ficar sem resposta.
Fui perguntar ao Google o que um pica-pau pode fazer a uma árvore. E ele respondeu: sim, um pica-pau pode indiretamente matar uma árvore, especialmente se ela já estiver fraca, pois os buracos abrem caminho para doenças e insetos. Em árvores saudáveis, os danos são mais superficiais; na verdade, os pica-paus ajudam a controlar pragas, pois se alimentam de larvas, podendo até salvar árvores infestadas. No entanto, o excesso de perfurações, como no caso dos pica-paus-seiva que bebem seiva, pode enfraquecer uma árvore e causar sua morte a longo prazo, principalmente se for um ataque em larga escala ou em uma árvore já comprometida por outros fatores.
Bom, é isso! O resultado da passarinhada e da “corujada” foi muito positivo. Em apenas oito horas, foram registradas 107 espécies de aves nas matas do pesqueiro. Imagina se esse povo fica mais tempo? O registro seria bem maior. O melhor disso tudo foi que a professora Suzana fez um relatório detalhado e o encaminhou para o eBird. Hoje, o Ermo dos Gabirus é um hotspot para observadores de aves.
Em tempo: hotspot é uma área geográfica com alta biodiversidade ameaçada, como o Pantanal, que precisa de conservação constante.
Paulo Portuga





Amei
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