Poesia - Tempo de Fil(h)as, por Isaac Ramos
- Alex Fraga

- 21 de jul.
- 2 min de leitura

Segunda-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o professor universitário, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Isaac Ramos, com "Tempo de Fil(h)as.
TEMPO DE FIL(H)AS
(Isaac Ramos)
No tempo da infância
Bola de gude ou cuspe à distância
É guia de luz, remanso de inocência
O velocípede daria vez à monareta
– Uma Monark porreta para crianças –
Adiante, viria a Caloi de 10 marchas
O suprassumo do engate das coroas
A lei do menor esforço
Velocidade em conta
Encontra partidas e chegadas.
Os carrinhos de rolemã anteciparam patins e skates
Ainda que não houvesse asfalto
Calçamento de pedras
Serviam e eram bem aceitos
A linha da pipa esticava o horizonte
Malabarismos no ar
Rabiolas em movimento
Mas haviam as guerras
Quem tinha o melhor cerol
Costumava levar vantagem
Cerol na linha, perigo em duas rodas
Estilingue no bolso, pele curtida no sol.
Caramelos emendavam latidos
Eles queriam participar da brincadeira
Não era mole ser dono do pedaço
Aos buldogues e policiais restavam cuidar da casa.
Todo bairro que se prezasse tinha seu campo de futebol
Era de chão batido e onde aconteciam as peladas
Nos finais de semana
Os torneios movimentavam as paqueras
Tudo era combinado
– às escondidas –
Inclusive o baile do final do mês
Os pais acompanhavam as filhas
E ficavam de olho na pista
As filas se sucediam.
O namoro passava por uma dança, ao menos
O primeiro beijo concedido
Antecedia ao pedido de namoro
Ainda não havia estimulantes químicos
Muito menos a pílula do dia seguinte
Caso a mulher engravidasse, casava
Ou corria o risco de ser expulsa
Ou de ter que fugir de casa
Ao pai, bastava ser um rottweiler
À mãe, bastava ser um cão Fila
Assim era a vida da filha
Sem (en)canto de fadas.
Campo Grande - MS, 19-07-2025.





Comentários