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Conto - Aberração, por André Alvez

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 13 minutos
  • 8 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o escritor André Alvez (Campo Grande MS), com Äberração.


ABERRAÇÃO


No Domingos de Ramos, logo após a procissão eu o encontrei escondido na

saída do beco, o rosto repleto de sardas e encharcado de ranhos, a boca de

quem morre de sede. Do vão da janela do meu quarto dava para ver os detalhes.

Os cabelos loiros há muito não viam água e sabão, sujos, sebosos. Achei tudo

tão nojento, mas uma febre segurou minhas mãos quando tentei puxar a cortina.

Então ele me olhou, como se ouvisse um chamado, seus olhos de lobo em noite

sem luar se encaixaram perfeitamente nos meus e de nada adiantou a minha

cara fechada, o meu gesto rude de alisar os punhos, nada disso o fez recuar.

Quando finalmente consegui fechar a janela e a procissão se dissipava lá

embaixo, notei um último olhar: já não eram os olhos de lobo em noite sem luar,

era uma espécie de mistura entre a meiguice e a sedução. Senti meu sangue

gelar. Se o visse novamente, desceria até ele para tirar satisfações. Um murro

bem dado talvez resolvesse.

A fome era tanta que já não sentia sede. No beco, todos correram para os vãos

quando aquela gente passou com um galho de árvore nas mãos. Talvez eu

pudesse comer aquela rama. Estiquei os braços pedindo ajuda, algo para

comer, mas eles estavam mesmo interessados na oração. “O pão nosso de cada

dia”, disseram, e eu pensei que também tivesse direito a um pedaço do pão. Mas

me ignoraram. Com o olhar diziam palavras: homem precisa ganhar o próprio

sustento, mas eu era apenas um menino fraco e abandonado. De repente uma

luz escapou do alto do prédio em frente, a figura magra, os bigodes finos e a

boca redonda de um tanto que imaginei um desenho feito à mão. Ele me encarou

e decidi não me esconder. Olhei de volta, lancei um pensamento, quem é você,

por que me encara? Ficamos assim por vários minutos, nos olhando, calados e

ao mesmo tempo gritando em pensamento. No final, sem motivo algum, ele fez

um gesto de enfezo e não soube responder. Apenas sorri e voltei para a

escuridão do beco levando comigo o estômago rugindo de fome.

Acordei cedo e fiquei vigiando a saída do beco, a cortina entreaberta, apenas

um vão deixando passar a luz do dia cinza. Ele custou a aparecer. Quando

surgiu, imediatamente olhou para o alto e me procurou. Minhas mãos novamente

sentiram um peso, como se algemas me prendessem. Ele conseguiu me

enxergar mesmo assim. Sorriu como os olhos me preenchendo e o ódio me

invadiu. Moleque ordinário, como se atreve? Ah, se eu pudesse descer e lhe dar

uma surra. Mas as chaves estão longe e o dia promete chuva. Melhor me

recolher. Algumas pessoas estão tossindo, outras com os olhos vermelhos, tão

intensos, tão temíveis. Recuei alguns passos até sentir meu corpo desabar. Por

que me olha intensamente. Chego a sentir o cheiro da carne podre, o suor

impregnado por todo o corpo. Nojo, nojo. Cubro minhas mãos e os meus braços

de álcool gel, meus pelos se esticam, tudo limpo diante dos meus olhos, mas a

sujeira está na minha mente e é impossível limpá-la.

Acordei tarde e todos já haviam partido. O beco é mais triste na solidão. Alguém

deixou um resto de pão. O movimento da rua estava fraco quando resolvi sair

em busca da sobrevivência. Eles agora usam máscaras e apenas os olhos ficam

de fora, aqueles mesmos olhos de antes, que fingiam não nos ver. Uma luz atrás

da cortina. Era ele, me espreitando, como se estivesse há muito tempo naquele

exato canto do quarto, atrás da cortina, aguardando o momento que eu sairia,

como se fosse o caçador e eu a caça. Sorri para ele, mostrei o pão, uma migalha

me fazendo caminhar; minhas mãos ligeiramente trêmulas e o corpo dolorido,

consumido pela febre. Ele me encarou brevemente, mas logo transformou o

rosto numa rudeza insana, tão cruel, como se eu o tivesse ofendido. Na esquina,

encontrei o bando e passeamos pelas ruas pedindo ajuda. As portas estão

fechadas e os passos dissipados. Um carro passa e para no sinal. Oferecem

comida e imaginamos o recheio feito de veneno. Seria a solução simples,

eliminar o problema. Morrer de fome ou envenenado? A fome dói muito mais.

Devoramos tudo em poucos segundos. O tempo todo desse dia longo, a imagem

do homem magro atrás da janela não abandonou o meu pensamento um

segundo sequer.. Hoje acordei mais cedo do que de costume. O horizonte

chamando o sol num começo de luzes azul do céu. Abri uma garrafa de vinho.

Quanto tempo até que o beco ganhasse vida. Eu precisava, tinha necessidade

de ver novamente a aberração. Bebi um gole e juntei nos cantos da boca.

Anestesia, prazer, muito prazer. Suspirei o ar do quarto inteiro. Senti vontade de

fumar. Enchi o cachimbo do fumo predileto, acendi com o palito do fósforo que

queimou até a metade, retirando do pensamento ações que não eram minhas,

se eram, são aquelas que reprimo desde sempre. Outro gole de vinho, a hora

que não passa, o sol que não nasce no horizonte. Será hoje o fim que andam

dizendo? Uma tosse seca me consome, será um sintoma ou apenas pigarro? A

aberração ainda dorme. Outra tragada, pensamentos de beira do abismo, o fim

da existência seria uma solução, não mais me preocuparia com as vergonhas do

mundo, tampouco notaria a aberração que se exibe em cabeça pontiaguda, dos

cabelos buscando o sol no sopro do vento, escondendo as sardas com as costas

das mãos, olhando para mim com olhos ardentes, como alguém tentando

despertar paixões. Onde foi que escondi o taco de beisebol? Embaixo do sofá.

É forte o suficiente. Só assim para acabar com a indecência, só assim para

permitir restar no mundo um pouco de pureza da alma. Não suporto mais, não

suporto. Desço até o andar de baixo, deixo a porta entreaberta e me escondo

atrás dela. O tempo passa, ouço passos, depois o silêncio, ele não vem, deve

me procurar no vão da janela do meu quarto. Sou estúpido, estúpido! Claro, é lá

que ele me busca e me encontra. O litro de vinho já está pela metade e o

cachimbo larguei num canto do quarto. Fecho os dedos em punhos, ah se eu

pudesse pegar aquele rosto em torno dos meus braços, se pudesse socar até

sangrar aquele sorriso, até que a aberração não mais respirasse, encharcado

pelo próprio sangue, sem respirar, findo o sorriso irônico, a boca seca após o

último suspiro, fim, nunca mais a aberração.

Acordei com um rato andando no meu rosto. O corpo dolorido, preciso arranjar

um colchão. Levantei espreguiçando o corpo até estalar. Fome, sede, um resto

de sono. Se pudesse, ficaria dormindo para sempre, porque a realidade é

dolorida demais e nos sonhos, ao menos, eu posso falar sem sentir dor. A febre

persiste, mas ainda consigo respirar sem dificuldade. O beco ainda guarda um

resto de vida. Gritos na rua, os moleques indo e voltando com comida roubada.

“Eles estão usando máscaras”, disseram e ninguém se assustou, não como da

primeira vez, já estava se tornando comum. O ar que respiramos desprotegidos

está repleto da morte invisível. Meus sapatos já não possuem solas. Eu ando e

sinto a calçada roçando a sola dos meus pés. A morte também está no chão.

Um dia isso tudo muda. Ou não. Caminho até a saída do beco e a primeira ação,

até mesmo involuntária, é olhar para cima, para o quinto andar do prédio em

frente. Ele não está lá e a janela está fechada, como está fechado o caminho e

das vozes roucas despencam perdigotos assassinos. A porta do andar de baixo

está aberta, estranhamente aberta, e eu o imagino no primeiro piso, erguendo

uma taça de vinho, os olhos brilhantes, uma oferta de brinde, a taça nas mãos

dele, contrastando com um resto de pão embolorado nas minhas. Mas não

consigo entrar, falta coragem e ar nos pulmões. Encosto o corpo e fico

aguardando por um bom tempo, até a janela do andar de cima se abrir e sim, lá

está ele, em pé, buscando a minha figura. Faço gestos erguendo o punho e

esmagando o pão. Ele responde num rosto enfezado, como se fosse um desafio

que nunca pensei propor. Abro um sorriso em busca de paz e ele devolve num

gesto de rosto amargo, destacando as sobrancelhas fechadas em arco inverso,

para baixo, a extrema expressão da guerra que nunca propus, nem desejei.

Mais uma noite mal dormida. Preciso resolver isso. O rosto da aberração invade

o meu sonho, está lá, desafiando os meus sentidos. Quero matá-lo, mas que

vida pode existir depois disso? Os homens usam máscara, a despeito da febre

que nos assola. Não há armas, é preciso o cuidado do isolamento. Mas como

isolar ainda mais aquele que já não tem vida? A morte está no céu, no chão, nas

paredes. Os mendigos e o povo dos becos disso não sabem, prosseguem em

procissão, sem rumos, como um desafio de sobrevivência. Eu só almejo com as

vistas a minha cruel aberração. Sim, ele está entre eles e novamente me oferece

restos de comida. São poucos os degraus até dar com a rua. Amanhã, sem falta,

assim que o sol raiar, darei vida a trechos do poema que atormenta a minha

mente. “Muita seriedade e pouco riso, me portarei como uma espada, na selva

escura e desvairada”. Venha, aberração, eu te espero, eu findo os seus olhares,

a sua insinuação despropositada, a minha honra que derramarei com todo vigor

assim que as primeiras luzes do sol iluminarem nossos atormentados rostos.

Amanhã, nenhum dia a mais, se um dia a mais ainda houver.

Agora todos os homens usam máscaras, menos a minha atração no andar

superior do edifício em frente. Ele não, mantém o rosto aberto, como se quisesse

se mostrar para mim por inteiro, sem disfarces, apenas um desejo louco

escondido, desnudado quando olha para mim. Eu sou a sua louca espera, o seu

mais embaraçado desejo. O povo do beco foi o último a ceder, já usam luvas e

máscaras, de repente todos se foram, os poucos que restam caminham rápido

rumo à montanha, como se na montanha não houvesse vírus e o solo já não

possuísse o mesmo veneno, vão sem olhar, sem se despedir, ajeitando as

máscaras no rosto, mal olham para os lados, desconsideram a desesperadora

incerteza em volta dos prédios de concreto. Única saída. Os carros passam,

fechados como antes, mas podemos ver vultos lá dentro, as mãos que seguram

o volante, os rostos que só olham para frente, o mesmo desespero nosso ao

acordar e perceber que no beco não tem comida, não tem água, só resta o nosso

próprio amparo, esse mesmo que agora se esvai. Vírus, gripe, pandemia,

ouvimos alguns sussurros depois transformados em gritos, mas nós, que sempre

vivemos dependendo de um sopro para sobreviver, nós podíamos até ensiná-los

a sobreviver com os restos, com os sopros, com quase nada. Cai uma chuva

fininha de fim de dia na rua deserta. A luz do beco já está quase apagada. A

janela se fecha e eu aguardo. Ele desce, trazendo entre as mãos um taco de

basebol. Olha para os lados, um de cada vez, com calma, até ter certeza que

podia atravessar a rua sem ser importunado. Os brilhos dos seus olhos procuram

os meus, perdidos no fundo do beco. Cinco ou seis meninos ainda estavam

escondidos entre as latas de lixo. Olham para ele e depois para mim.

Assossegam, se calam, somente os meus passos assombram o silêncio, até

ficar diante dele, que fecha os punhos e me lançam olhares de ódios, bufa até

espumar nos cantos da boca, a fera saindo de dentro, sem chances para

retornos.

Caminhamos até o meio da rua. Ele larga o taco de basebol que rola rua abaixo fazendo o som do atrito da madeira com o assoalho da rua, uma música, a nossa música. Paramos, olhamos fundo um para o outro. Não há movimento na rua, o vírus apagou tudo. Ele vai me matar? Fecho os olhos e uma sensação de paz me invade. Ele me abraça, seus dedos percorrem meu corpo por inteiro, suspiro, busco a luz, ergo o rosto. Então ele me beija, sua língua me penetra, suga com força, até sentir meu extremo gosto, os últimos carros passam, com gente mascarada no seu interior, buscando a salvação sem nos perceber, sem sentir que para nós a salvação está na saliva que engolimos, um curando o outro, enquanto a nossa boca aberta permite o desfile das línguas, nos lugares mais misteriosos da alma, no nosso desembaraço, na nossa

fiel entrega, conduzidos pelo amor que surgiu desde o primeiro olhar.

Chove com vento, a morte invisível se espalha, molhando nossos corpos.

Outro beijo, depois a entrega, o amor total, na porta do beco, ele dentro de mim,

com força, com jeito, com amor, até o breve fim dos tempos que se aproxima

 
 
 

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