Conto - O dono da farmácia, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O dono da farmácia".
O DONO DA FARMÁCIA
Anos de balcão permitia-lhe prever com precisão, quanto tempo e idas e vindas, a moça necessitaria antes de entrar em seu estabelecimento. Para certas coisas, o tempo não pode esperar, e a discrição é trocada pela oportunidade. Entre as 13 e as 15 horas, é o horário preferido para as mulheres, decididas ou vacilantes, entrarem e caminharem, sem olhar para os lados, até sua presença. Com pouco movimento de pessoas, umas trabalhando, outras em casa, escondidas do calor de meio da tarde, finge-se haver certa privacidade.
As coisas saíam mais fáceis com as compradoras recorrentes ou quando vinham indicadas pela conhecida de alguma amiga. Porém, as de primeira viagem, como a moça da vez, não facilitavam o entendimento do que precisavam e com elas o dono da farmácia seguia um roteiro pré-estabelecido. Com um sorriso no rosto e a autoridade de conhecedor de bulas de medicamentos, ele fornecia o que a jovem precisava.
— Quando começou o seu problema? — Se já passou de três ou quatro meses, há outras opções mais apropriadas — eu não faço isso, mas indico um conhecido no hospital da outra cidade — fique tranquila que tudo dará certo! — Você terá uma cólica um pouco mais incomoda e vai menstruar por dois ou três dias!
Depois da terceira vez, a jovem pedia o de sempre e não precisava das orientações do homem sorridente, de cabelos grisalhos, do outro lado do balcão. Com ela sempre correu tudo bem. Nunca esperou passar mais de dois meses para ir à farmácia e se resolver. Porque com a irmã foi diferente? Ela mesmo ajudou a colocar os comprimidos. Fez exatamente como sempre fazia consigo. Pensando bem, a barriga da irmã já estava aparecendo. Por que o dono da farmácia não falou para ela não usar o remédio? Ela pode ter mentido ou então se perdeu nas contas?
Devia ter ido para o hospital da outra cidade. Lá os médicos têm prática em limpar o que fica. Lá não precisa se preocupar com o tempo que tem a situação. Dinheiro se dá um jeito, podia ter emprestado. O hospital daqui é um açougue, a pessoa entra andando e sai no caixão. A irmã sempre indecisa, demorou para lhe contar das
escapadas com o entregador de gás. Vai ver os comprimidos tinham vencido? Não dá para confiar nesses remédios contrabandeados do Paraguai.
A moça voltou à farmácia. Desta vez não foi para comprar o de sempre. O homem de cabelos grisalhos lhe parecia ser um bom confidente. Atrás do balcão, ele mantinha-se confiante, porém não sorria. E mais uma vez forneceu o que a moça precisava ouvir para aliviar seu remorso e não culpar a pessoa errada.
— Que fatalidade! Se ela tivesse sido atendida no hospital da outra cidade! Para sua irmã não tem mais jeito. Mas você pode evitar que esse tipo de tragédia se repita. Vá na rádio e denuncie o médico, ele acabou com a vida de sua irmã. Faça isso pela memória dela. Quem sabe, você até consegue uma indenização.
— O senhor tem razão, essas coisas não podem ficar assim! Obrigado pelo conselho. Vou agora mesmo na rádio! — Disse a moça decidida e aliviada por encontrar um bode expiatório





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