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Poesia - Bagre Ensaboado, por Carlos Magno Amarilha

Sexta-feira no espaço de poesia no Blog do Alex Fraga. Carlos Magno Amarilha, de Dourados (MS), historiador, pesquisador e poeta, doutor em Educação, mestre em História e presidente do Grupo Literário Arandu. Seu poema Bagre Ensaboado.


BAGRE ENSABOADO


maria japonesa (vizinha)

gente boa

todo dia passava em casa

e narrava uma história

para minha mãe

“dona Kika estou com uma

dor de cabeça tremenda...”

no outro dia:

“dona kika estou com uma dor...”

aqui... ali... e assim sucessivamente

os dias aconteciam

até que um dia minha irmã

saiu de seu quarto e interrompeu a conversa

“- maria não morreu ainda?

todo dia uma doença... Afê!’’

...

perto da casa e da tipografia de meus pais

no interior do matão do sul

havia vários açougues no máximo 200 metros

todos clientes de meu pai

açougue palmeiras

açougue bela vista

açougue cafelândia

morava em São Paulo

e fui passar o final de ano com meus pais

meu irmão me interpelou:

“- toma 20 cruzeiros

e compra um quilo de carne para bife”

respondi ok e perguntei onde?

ele respondeu: “- na farmácia”


nessa finíssima gentileza que fui criado

santa’ignorância perdoe-me os meus pecados




(IN: O Rosto da Rua, p. 52).

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