Poesia - Alma, por Isaac Ramos
- Alex Fraga

- 24 de abr. de 2023
- 2 min de leitura
Segunda-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o poeta de Campo Grande (MS), Isaac Ramos, com seu poema intitulado Alma.

ALMA
Hoje há frestas no poema Faltarão palavras Se não houver um chão de letras Seja pela transcendência de uma experiência concreta Seja pela impaciência de um poema processo
Beberei à saúde da poesia Experimental, cibernética ou tradicional Nada disso importa Ainda que haja um coito com letras E que o amanhã se erga em mármore
ou areia Ou que a renda se desfaça Entre traças e teias Ou se transforme Em pó de serra Ou pirilimpimpim
Ainda que a vagina rejeite A ausência insípida do sêmen Ainda que haja protesto Pela última ceia decente Ainda que um coito se interrompa Mesmo que haja a epifania das
nádegas E seja anunciada a alvorada dos seios E que a união de todos os pecados Seja ungida pela permissividade dos
beijos
Desejarei internamente a inconsútil
lírica Defenderei a permanência de um
único verbo E filtrarei os indesejáveis adjetivos
Trombetas, fanopéias, melopéias São multidões que enlouquecem Nas veias abertas e imberbes dos
versos Quando as trompas do ovário
fecharem suas portas Nenhum estilo otário ficará em pé Quando o poema se desfizer de seus versos Nenhuma mulher conseguirá tocar
um oboé
É por isso que alguns poetas morrem Em busca da metáfora perfeita E na imperfeição das formas que
deformam Vogais e consoantes se corrompem
pelo ritmo dissoluto Nenhuma metáfora de efeito Poderá reverter o processo E o mau uso das claves de som Esvaecerá o pavio de luz E acenderá a escuridão que tece O olhar triste do poema
Luzes Cavernas Cloacas
Tudo ziguezagueia sobre as partes
íntimas do poema Há outras frestas diversas Tão devoradoras quanto essas... Tudo que sei é que o poeta não vive sem alma.
(Livro TEIAS E TEARES, 2014, p.21-22)





Comentários