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Opinião - Maria Cláudia e Marcos Mendes: um antídoto contra a mesmice musical

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 11 minutos
2 min de leitura

“Cantar é próprio de quem ama.” A frase atribuída a Santo Agostinho define bem o trabalho de Maria Cláudia e Marcos Mendes. Na última sexta-feira, no Escritório Bar, em Campo Grande, o duo, acompanhado por Black Batera e Fábio Munhoz, mostrou que a música ao vivo pode ser muito mais do que a repetição de fórmulas que domina boa parte dos bares da cidade.

Tenho frequentado poucos desses espaços para ouvir música. Não por falta de interesse, mas pelo cansaço diante de repertórios previsíveis, interpretações sem personalidade e apresentações que parecem confundir animação com qualidade musical. Em muitos palcos, a mesmice virou regra, como se o público estivesse condenado a ouvir sempre as mesmas canções. A pergunta é inevitável: falta ousadia aos músicos ou disposição dos estabelecimentos para oferecer algo além do óbvio?

No Escritório Bar, encontrei outra realidade. Considero Maria Cláudia uma das melhores vozes de Mato Grosso do Sul, e sua apresentação reafirmou essa avaliação. Com afinação, delicadeza e domínio interpretativo, ela não precisa de malabarismos vocais para demonstrar talento. Ao lado de Marcos Mendes, Black Batera e Fábio Munhoz, constrói uma apresentação em que a música prevalece sobre o exibicionismo.

O repertório é uma declaração de princípios: Ânima, de Milton Nascimento e Zé Renato; Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos; A Noiva da Cidade, de Chico Buarque e Francis Hime; Renato em Preto e Branco, de Tom Jobim e Chico Buarque; e Rosa dos Ventos, de Chico Buarque. São canções que exigem sensibilidade, compreensão poética e maturidade musical — atributos que não se substituem por volume alto, improvisação gratuita ou fórmulas repetidas.

O problema da música ao vivo em Campo Grande não é a presença de sucessos populares, mas a dependência quase absoluta deles em muitas apresentações. Quando o repertório se torna previsível, a música perde sua capacidade de surpreender, provocar e ampliar horizontes. O público merece mais do que ouvir ao vivo aquilo que já escuta exaustivamente em qualquer lugar. Cabe aos músicos arriscar, aos bares diversificar suas programações e aos ouvintes reconhecer que entretenimento não precisa significar empobrecimento artístico.

Maria Cláudia, Marcos Mendes, Black Batera e Fábio Munhoz mostram que existe outro caminho. O Escritório Bar oferece espaço para uma música brasileira de qualidade, interpretada com respeito às composições e sem concessões à facilidade. Em meio a tanta repetição, ouvir esse quarteto é um alívio para os ouvidos e uma provocação necessária à cena musical da cidade.

A boa música não precisa gritar para conquistar o público. Precisa de talento, repertório e personalidade. O que falta, em muitos casos, não é música: é compromisso com ela.

 
 
 

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