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Microconto - A Senhora e os Passarinhos, por Paulo Portuga

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 8 horas
  • 2 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de microconto com o professor, músico, poeta e escritor de Dourados (MS), Paulo Portuga, com "A Senhora e os Passarinhos"


A SENHORA E OS PASSARINHOS


O dia estava amuado, cinzento e nublado. Naquela manhã, os passarinhos não pousaram no quintal. Pareciam sentir falta de alguma coisa. Acho que eles pressentiram que a velha senhora não estaria mais ali varrendo a calçada. Eles gostavam de vê-la observando-os com o seu olhar manso, sem esperar por nada, sem compromisso, que lhe arrancava um sorriso no canto da boca.

Os pássaros, dos mais diversos, cantavam se exibindo para aquela senhora, para aquele olhar doce. Ela se sentava na cadeira de palha e ficava contemplando-os. Aquilo era um gesto de carinho, dar água e comida para os bichinhos, para que eles sempre voltassem. A senhora cuidava dos pássaros, mas, de certa forma, eles também cuidavam dela.

A velhinha gostava de admirar e identificar as pequenas aves. O pássaro que beliscava a jabuticaba, que arrancava a cebolinha, que caçava minhoca, que bicava o chão para achar bichinho, qual comia a acerola, qual tomava banho no potinho, qual cantava fazendo ninho e aquele que catava o barro com o biquinho.

Se perguntava: Qual é esse de peito amarelo? Quem é esse tão diferente? Esse é um canarinho?

A boa senhora falava:

- O bem-te-vi é o mais bravo! É o mandachuva, ele expulsa os demais pássaros.

- A briga entre os beija-flores é super violenta.

- O assobio do sanhaço é lindo.

- O joão-de-barro é bem tranquilo. Deixa a gente chegar bem pertinho.

- O sabiá laranjeira sempre vem com a companheira.

- Os pardais são bem ariscos e barulhentos.

- De vez em quando vêm uns periquitos.

A bisavó e os passarinhos, cada qual do seu jeito. Ela voando em seus pensamentos e eles voando nas asas do vento. Ela tricotando e eles pulando de galho em galho. Ela ao sol de manhã cedinho e eles cantando e comendo o farelo de milho. Foi assim por alguns meses.

Passado algum tempo, a senhora precisou se ausentar por uns dias para resolver alguns problemas de saúde. Viajou para longe para fazer exames e consultas. Os passarinhos sentiram a falta da boa velhinha, daquela aura brilhante, daquela alma generosa, que emanava uma luz que só os seres emplumados conseguem sentir.

Naquele dia, a tarde inteira choveu saudade da senhora dos passarinhos.


Paulo Portuga, 11/06/2026.

 
 
 

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Orlando Anivaldo de Lima
há 6 horas
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