Crônica - Sexta-feira 13, por Carlos Magno Amarilha
- Alex Fraga

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Sexta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica do poeta e escritor de Dourados (MS), Carlos Magno Amarilha, com "Sexta-feira 13".
Sexta Feira 13.
Essa história não é conversa fiada de pescador, não. Se eu contar, o povo diz que é coisa de filme, mas quem viveu o oitavo ano em Dourados naqueles tempos sabe que a vida da gente era um misto de lida pesada de dia e aventura de noite. Eu e o Almir Souza éramos unha e carne. Quatorze anos nas costas, o corpo esticando e a vontade de ser gente grande falando mais alto.
Era uma sexta-feira, dia 13. O sol ainda castigava o asfalto quando a gente decidiu: "Hoje a aula de Geografia vai ficar pra outro dia". A gente trabalhava desde cedo na vila, então, quando chegava a noite, o corpo pedia um refresco. E o refresco tinha nome: o aniversário do primo do Almir, lá na Cabeceira Alegre.
— Ô, rapaz! Passa esse brilho direito nesse sapato! — gritava o Almir, vindo da varanda da casa dele enquanto eu lustrava o meu como se fosse um espelho.
— Calma, Almir! Se não brilhar, a Vera Lúcia nem olha pra mim. Tem que estar nos trinques, fio de bigode!
Eu estava um nojo de elegante. Calça de tergal vincada, camisa de botão por dentro e o cabelo com tanto gel que se batesse um vento o pente quebrava. Mas o segredo, o "pulo do gato", era o saco plástico no pé. A gente morava longe, e o caminho até o sítio do tio dele, perto do Cemitério, era pura poeira e barro seco. Colocamos dois sacos de arroz vazios por cima dos sapatos, amarramos com elástico e montamos nas magrelas.
— Se alguém ver a gente assim, Almir, a gente tá frito.
— Relaxa, antes de chegar no portão a gente tira. O importante é o sapato chegar impecável!
Pedalamos que nem dois doidos. Chegamos lá pelas 18h30. O sol se pondo e o cheiro de espeto de carne já invadindo as narinas. Tiramos os sacos, escondemos atrás de uma moita e entramos como se fôssemos os donos da festa. E que festa! Churrasco saindo toda hora, tubaína gelada, bolo de fubá e uma montanha de pipoca. O baile começou e o sanfoneiro não dava trégua.
Foi lá que eu vi a Vera Lúcia. Que moça bonita, credo! Conversamos o tempo todo, dividimos um prato de doce e até arriscamos uns passos de vanerão. Eu me sentia o rei de Dourados. O azar da sexta-feira 13? Bobagem de livro, eu pensava.
Mas a conta chegou. Lá pelas tantas, o tio do Almir deu o aviso:
— Ó os guri, é melhor puxar o carro que a estrada ali pra baixo tá ficando esquisita.
Despedimos de todo mundo, dei um tchau apertado pra Vera e montamos nas bicicletas. A noite estava um breu só. Só se ouvia o barulho das correntes das
bikes e a nossa respiração. Quando passamos perto da entrada do Cemitério, o tempo virou.
Do nada, um clarão de farol alto cegou a gente. Uma caminhonete velha e duas motos apareceram do mato.
— ÊÊÊÊ, VILA! VAMOS CAPAR ESSES MOLEQUES DE OUTRO BAIRRO! — gritou um marmanjo com voz de trovão e hálito de cachaça que dava pra sentir de longe.
Ouvimos o primeiro estouro. POW! Tiro pro alto.
— Almir, corre, pelo amor de Deus! — eu berrei.
— Pedala, desgraçado! Pedala! — ele respondeu, com a voz falhando.
Eles vinham rindo, jogando o carro em cima da gente. O desespero foi tanto que a gente não pensou. O muro do cemitério apareceu na nossa frente como uma salvação. Paramos a bike num tranco, eu ergui a minha, o Almir puxou a dele por cima, e pulamos pro lado de dentro. Caímos no meio dos túmulos, no silêncio mortal, enquanto o motor da caminhonete roncava lá fora.
— Eles entraram aqui, eu vi! — disse uma voz grossa perto do portão. — Cadê aqueles moleques? Devem estar se escondendo entre os mortos. Vamos entrar!
Eu e o Almir entramos em pânico mudo. Enfiamos as bicicletas atrás de um jazigo grande e cada um correu pra um lado. Eu vi uma cova que estava com as obras de pedreiro pela metade. Tinha um caixão lá dentro, descido naquele mesmo dia, mas o serviço de tampar com a laje e a terra só ia terminar no dia seguinte. Não pensei duas vezes: pulei pra dentro da vala e me achatei do lado do caixão de madeira escura.
O cheiro de terra fresca e o frio da madeira no meu braço me deram um calafrio que nem o medo dos caras conseguia superar. Fiquei ali, segurando o fôlego. Ouvia os passos deles esmagando os gravetos.
— Acho que eles se mandaram pro fundo do cemitério... vamo embora, esses guri sumiram que nem alma penada.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, o silêncio voltou. Saí do buraco tremendo mais que vara verde.
— Almir? Almir? — chamei baixinho.
Ele saiu de trás de uma estátua de anjo, branco como um papel.
— Rapaz, eu quase morri de susto aqui. Vamos pegar as bikes e sumir!
Aí é que o azar da tal sexta-feira 13 resolveu dar as caras de verdade. Procuramos. Rodamos. Olhamos atrás de cada túmulo, cada capelinha, cada árvore. As
bicicletas sumiram. Não tinha rastro, não tinha barulho de pneu, nada. Era como se a terra tivesse engolido as nossas magrelas.
Enquanto a gente andava a pé, derrotado, pelo meio das lápides no escuro, minha cabeça começou a martelar tudo que eu já tinha lido e ouvido. Lembrei da Inquisição, das bruxas sendo caçadas, de como essa data era maldita desde o tempo que Cristo foi crucificado numa sexta. Lembrei até daquele livro "Friday, the Thirteenth" que o pessoal falava e do Jason dos filmes que a molecada comentava no cinema.
Dizem que é superstição, que passar debaixo de escada ou ver gato preto não faz nada. Mas ali, às duas da manhã, dentro de um cemitério em Dourados e tendo acabado de dormir do lado de um defunto, eu entendi que a sexta-feira 13 não é só folclore. É o dia que o destino resolve brincar de esconde-esconde com a gente, e ele sempre ganha.
Rapaz, se eu não tivesse visto com esses olhos que a terra um dia vai comer, eu jurava que era delírio da febre! Depois que os malucos da caminhonete sumiram no estradão e o silêncio de tumba voltou a reinar, eu e o Almir ficamos ali, feito duas baratas tontas no meio das lápides.
— Almir, pelo amor de Deus, a gente deixou as magrelas bem aqui, encostadas nesse jazigo de mármore! — eu dizia, tateando o escuro, sentindo o suor frio escorrer pelo pescoço.
— Eu sei, bicho! Eu mesmo ajudei a encostar a sua. Sumiu! Alguém levou!
— Quem vai levar bicicleta dentro de um cemitério às duas da manhã, Almir? Só se for o capeta!
A gente já estava quase aceitando que ia ter que voltar a pé pra vila — e explicar pro meu pai como é que se perde uma bicicleta trabalhando de dia e "estudando" de noite — quando um brilho de refletor de pedal brilhou lá no fundo, perto de uma ala de túmulos mais antigos, onde o mato estava alto e a luz da lua mal batia.
Fomos chegando perto, pisando em ovos. O coração batia tão forte que parecia uma bateria de escola de samba. Quando a gente dobrou a esquina de uma capelinha em ruínas, o Almir travou. Ele soltou um ganido que nem saiu voz, só um ar quente.
— Olha ali... — ele apontou com o dedo tremendo.
As duas bicicletas estavam lá. Mas não estavam jogadas no chão. Elas estavam agarradas. Três defuntos — ou o que restava deles, com aquelas roupas de velório já puídas e a pele que parecia pergaminho — estavam entrelaçados nos quadros e
nos guidões. Um deles parecia segurar o selim da minha Monark com uma força descomunal, as falanges dos dedos cravadas no couro. Outros dois estavam caídos por cima da bicicleta do Almir, como se tivessem travado uma luta corporal com o metal pra não deixar a gente levar.
— Eles... eles não querem deixar a gente ir embora, Almir! — eu sussurrei, sentindo as pernas virarem gelatina.
— É a sexta-feira 13, eu te falei! É o azar, é a praga!
Parecia que quanto mais a gente olhava, mais as mãos secas se apertavam nos raios das rodas. O Almir, que sempre foi mais corajoso (ou mais desesperado que eu), pegou um pedaço de ripa que estava jogado no chão.
— Sai pra lá, assombração! Devolve o que é nosso! — ele gritou, com a voz fina de medo, dando uma paulada no braço de um dos "moradores".
Foi um sacrifício. A gente teve que puxar, chutar e desenrolar os pneus daquelas roupas velhas e daqueles ossos frios. Parecia que a bicicleta tinha virado parte deles. Quando finalmente conseguimos soltar as magrelas, não olhamos pra trás. Montamos e saímos voando, cruzando o portão do cemitério como se o próprio Jason estivesse na nossa garupa.
Só paramos de pedalar quando vimos as luzes do centro de Dourados. O sapato engraxado? Ficou um caco. O saco de plástico? Rasgou no meio daquela confusão. A Vera Lúcia? Ficou na lembrança, porque depois dessa, eu passei três dias de cama com uma febre que nem benzer resolveu.
Dizem que o número 13 é só um número, mas depois de ver três defuntos disputando racha na minha bicicleta, eu nunca mais passo perto de cemitério em sexta-feira de lua cheia.
Rapaz, se o medo dos defuntos foi grande, o medo de encarar o "Velho" em casa era de fazer o sujeito querer voltar para dentro da cova e puxar a tampa. Chegamos na vila já passava das três da manhã. Eu e o Almir vínhamos num silêncio de velório, pedalando como se a corrente da bicicleta fosse feita de vidro.
Eu estava um "estropício". O terno de tergal, que era meu orgulho, estava rasgado no joelho e encardido de uma terra roxa misturada com cal de túmulo. O sapato, que eu tinha engraxado com tanto esmero, parecia que tinha sido mastigado por um trator. E o cheiro? Um cheiro de mofo, de coisa guardada, que grudou na gente e não saía nem com o vento da pedalada.
Quando encostei a magrela no muro de casa, a luz da sala acendeu. Meu coração errou a batida. A porta rangeu e lá estava ele: meu pai, de pijama de risca, com o
chinelo de dedo na mão e uma cara de quem ia inaugurar uma nova modalidade de esporte olímpico nas minhas costas.
— Bonito, hein, senhor "estudante"? — a voz dele veio baixa, grossa, vibrando no peito. — A aula de Geografia hoje foi no baile ou foi no cemitério?
Eu tentei gaguejar uma desculpa, mas o Almir, que estava do meu lado tremendo que nem vara verde, resolveu abrir o bico primeiro:
— Seu Bento... o senhor não acredita... os mortos... eles tavam segurando as nossas bicicletas! Três deles, seu Bento! Um segurava o selim e o outro não soltava o guidão!
Meu pai deu um passo pra frente, apertou os olhos e olhou para o estado da minha roupa. Ele chegou perto, sentiu o cheiro de terra fresca e viu os restos de pano velho de defunto que tinham ficado enroscados no pedal da minha bike.
— Morto segurando bicicleta, Almir? — meu pai perguntou, num tom que eu não sabia se era de riso ou de fúria. — Pois se os mortos não soltavam a bicicleta, eu vou fazer você desejar ter ficado lá com eles!
Ele não quis saber de Sexta-feira 13, de Inquisição, de azar ou de filme de terror.
— O único fantasma que você vai ver agora é o do seu couro se eu te pegar! — ele gritou, e o chinelo voou que nem um morcego na minha direção.
Eu entrei pra dentro de casa num pulo, mas ele me barrou na cozinha.
— Escuta aqui, seu moleque: se eu te pegar matando aula de novo pra ir em festa na Cabeceira Alegre, eu mesmo te enterro lá e nem o 13, nem o 14, nem santo nenhum te tira! Olha o estado desse sapato! Você sabe quanto eu suei pra comprar essa graxa?
Ele me fez lavar a bicicleta ali mesmo, no escuro do quintal, com um balde de água fria, pra "tirar a inhaca da alma", como ele dizia. Enquanto eu esfregava o pneu, ele ficou ali, fumando um cigarro de palha na varanda, olhando pro nada. De vez em quando, ele soltava uma fumaça e resmungava:
— Defunto segurando bicicleta... esses moleques de hoje não inventam nem mentira que preste. Se tivessem pegado vocês, era porque queriam carona pra sair daquele tédio, e não pra roubar ferro-velho!
Mas eu vi, sabe? Eu vi o brilho no olho dele quando ele olhou pro pedal da bike e viu aquele pedaço de pano preto apodrecido. Ele não admitiu, mas naquela noite, ele não apagou a luz do corredor nem pra dormir. O medo da Sexta-feira 13 pega até os mais valentes quando o assunto é o que vem do lado de lá do muro.
Se o meu pai foi no chinelo e no grito, o Seu Souza, pai do Almir, resolveu apelar para as instâncias superiores. O Almir não teve a mesma "sorte" que eu de só levar umas bordoadas e um sermão de beira de tanque. O Seu Souza era homem de reza braba e disciplina de quartel.
Quando o Almir cruzou o portão da casa dele, o velho já estava esperando sentado naquelas cadeiras de fio, com o terço na mão e uma cara de quem tinha acabado de ver o próprio tinhoso.
— Pai, os defunto... as bicicleta... a sexta-feira 13! — o Almir tentou desembuchar, com a voz embargada de choro e o corpo ainda tremendo do frio do cemitério.
O Seu Souza nem piscou. Levantou devagar, olhou para o Almir — que estava uma mistura de lama, graxa e aquele cheiro de mofo de tumba — e apontou para o chão da sala, bem na frente do oratório da Nossa Senhora.
— Ajoelha, Almir. Ajoelha agora! — trovejou o velho. — Você não trouxe encosto pra dentro desta casa porque eu não deixo, mas a sua alma você vai limpar no joelho!
E não teve conversa. Enquanto a noite ainda era escura e os galos nem pensavam em cantar, o Almir teve que começar a penitência.
* Cem Pai Nossos.
* Cem Ave Marias.
O coitado, com o joelho no chão duro, ia rezando e soluçando. "Pai nosso que estais no céu... ai, meu joelho... santificado seja o Vosso nome... aquela mão de osso não soltava o guidão...". Cada vez que ele bocejava ou fraquejava na reza, o Seu Souza batia com o terço na mesa: — Vigiai e orai, moleque! Deixa de ser frouxo que o azar quem faz é o pecado!
Mas a purificação não parou no espírito, não. Assim que o sol começou a despontar no horizonte de Dourados, o castigo virou trabalho braçal. O Almir, sem pregar o olho, foi mandado pro quintal com uma escova de dente velha e um sabão de coco que parecia uma pedra.
— Vai lavar cada centímetro dessa magrela. Se eu achar um grão de terra de cemitério nesse pneu, você começa as rezas tudo de novo! — mandou o pai.
O Almir teve que lavar a roupa à mão, esfregar o sapato até o couro quase furar e deixar a bicicleta brilhando mais do que no dia que saiu da loja. E o pior veio depois: a sentença final. Dois meses de castigo. — Pra você aprender que sexta-feira 13 é dia de recolhimento, não de baile na Cabeceira Alegre! — decretou o Seu Souza.
Durante sessenta dias, a vida do Almir virou um relógio suíço: de casa pro trabalho, do trabalho pra escola, da escola pra casa. Ele passava pela minha rua pedalando rápido, de cabeça baixa, sem nem olhar pro lado. Se eu assobiava pra chamar ele pra um jogo de bola ou pra comentar da Vera Lúcia, ele só fazia um sinal de cruz com a mão e seguia direto.
O azar daquela noite custou caro. Eu fiquei com o susto e o chinelo marcado, mas o Almir virou quase um santo à força. Ele dizia que, de tanto rezar, até hoje, se ele passa perto de um cemitério, ele sente um calafrio no joelho e começa a recitar o "Creio em Deus Pai" sem nem perceber.
Passaram-se sessenta dias. Sessenta dias em que o Almir Souza sumiu do mapa, virou uma alma penada entre o cabo da enxada e o caderno de Geografia. Eu via o vulto dele passando pela rua, pedalando a magrela agora tão limpa que brilhava no escuro, mas o coitado nem levantava a viseira do boné. Parecia que o Seu Souza tinha grampeado a boca do guri com oração e castigo.
Mas o dia da libertação chegou. Era uma segunda-feira, o céu de Dourados estava carregado, aquela poeira vermelha subindo com o vento, e eu vi o Almir encostando a bicicleta no pátio da escola. Ele estava mais magro, com uma cara de quem tinha passado dois meses conversando só com os santos do oratório.
Aproximei-me devagar, como quem não quer nada.
— E aí, Almir? Acabou a novena? — soltei, com um sorriso de canto.
Ele me olhou de soslaio, conferiu se não tinha nenhum conhecido do pai por perto e suspirou um ar que parecia guardado desde aquela sexta-feira 13.
— Rapaz... eu rezei tanto "Pai Nosso" que se eu morrer hoje, São Pedro me deixa entrar sem nem pedir documento. Meus joelhos ainda têm a marca do piso da sala.
A gente se sentou no muro, longe da bagunça dos outros guris do oitavo ano. O silêncio caiu por um segundo, e eu não aguentei:
— Almir, a gente precisa falar... Aquilo no cemitério. Aquelas mãos... aqueles defuntos agarrados na bicicleta. Você também viu, não viu? Eu não tava doido sozinho.
O Almir engoliu em seco. Ele olhou para as próprias mãos, que ainda tinham calos do trabalho e da esfregação das roupas.
— Vi, bicho. Vi e sinto o frio até hoje. Sabe o que eu fiquei pensando esses dois meses de castigo? — ele baixou a voz, quase num sussurro. — O Seu Souza diz
que é pecado, meu pai diz que é cachaça dos outros... mas eu lembro do jeito que aquele defunto segurava o meu guidão. Não era força de quem quer roubar, não.
— Era o quê, então? — perguntei, sentindo o arrepio voltando.
— Era força de quem não quer ficar sozinho — o Almir respondeu, sério. — Sexta-feira 13, meia-noite, dois moleques cheios de vida, perfumados, vindo de um baile... a gente era tudo o que eles não eram mais. Eles só queriam uma carona pra fora daquele muro, ou talvez queriam que a gente ficasse lá pra contar história.
Eu olhei para a minha bicicleta encostada ali perto.
— Você sabe que a Vera Lúcia perguntou de você, né? — tentei mudar de assunto para aliviar o peso.
O Almir deu um meio sorriso triste.
— A Vera Lúcia é bonita, mas depois daquela noite, eu perdi o gosto por festa em bairro distante. Agora, se tiver baile, tem que ser no centro, com asfalto e longe de qualquer muro alto.
A gente riu, mas era um riso nervoso. O sinal bateu e a gente entrou para a aula de Geografia. O professor começou a falar de fusos horários, mas a minha cabeça e a do Almir estavam em outro tempo. No tempo em que o 13 não era só um número no calendário, mas o dia em que a gente descobriu que o medo engraxa o sapato, mas a alma, essa só limpa com muita reza — ou com dois meses de castigo bem aplicados.
Olha, eu resolvi contar essa história para vocês não foi só para passar o tempo ou para rir da nossa desgraça, não. É que tem coisa nessa vida que a gente só aprende sentindo o frio da pedra de um túmulo no braço ou o estalo de um tiro de aviso rasgando o silêncio da noite.
A gente era novo, tinha o sangue fervendo e achava que o mundo era um quintal sem cerca. Mas a verdade é uma só: sexta-feira 13 não é dia de herói. É um dia em que o véu entre o que a gente entende e o que a gente teme fica fininho, quase transparente. A Inquisição, os filmes de terror, as lendas das bruxas... o povo fala, fala, e a gente acha que é tudo conversa de livro velho. Mas vai você se enfiar num sítio lá nos confins da Cabeceira Alegre, perto de cemitério, para ver se o azar não tem CPF e endereço fixo!
O destino, quando quer pregar uma peça, não avisa. Ele te joga em cada fria que nem o melhor sapato engraxado do mundo te salva de sair sujo. A moral da história, meu amigo, é que às vezes o melhor baile é aquele que a gente não vai.
Se o calendário marcou dia 13 e caiu numa sexta, escuta aqui o conselho de quem já dormiu com defunto para não levar tiro: não inventa moda. Não vai
procurar festa em lugar que o vento faz a curva e o asfalto não chega. Não vai querer atravessar bairro distante onde você é estranho no ninho e a noite é dona da rua.
Quer um conselho de ouro? Fica no seu boteco preferido. Fica ali, cercado pelos amigos de fé, onde a cerveja é gelada, a conversa é garantida e o único "espírito" que aparece é o da camaradagem. Ali, se você perder a hora, o máximo que acontece é a conta vir um pouco mais alta — e não a sua bicicleta aparecer agarrada por três almas penadas querendo carona para o além.
A vida é curta e o azar é ligeiro. Eu e o Almir Souza escapamos para contar a história, mas o preço foi caro: um terno rasgado, um sapato destruído, cem Pai Nossos de joelhos e um medo de cemitério que me acompanha até hoje.
Então, fica o aviso: em dia de bruxas e sexta-feira 13, respeita o mistério. Fica no seu canto, quietinho, que você ganha mais. Porque, como dizia meu pai enquanto eu limpava a lama daquela magrela: "Quem procura o que não deve, acha o que não quer."
In: Crônica do Dia. SEXTA FEIRA DIA 13. Prelo, 2026.





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