Crítica - Na FLIB, Pedro Luís mostra que poesia também se canta
- Alex Fraga
- há 7 horas
- 2 min de leitura

A 10ª FLIB tem demonstrado uma mudança de enfoque ao valorizar a palavra como protagonista de sua programação. Mais do que reunir escritores para lançamentos ou debates, a feira vem explorando diferentes formas de expressão literária. Um dos melhores exemplos dessa proposta ocorreu na noite de quinta-feira (9), no espaço Dedo de Prosa, com a apresentação de Pedro Luís e seu livro Amor. palavra que se canta. Conhecido nacionalmente pelo trabalho à frente do grupo Pedro Luís e A Parede e por sua forte presença no carnaval carioca, o artista surgiu diante do público em uma faceta mais intimista. Em vez do vigor percussivo que marca sua trajetória musical, conduziu uma conversa entre poemas, memórias e canções, revelando um autor interessado em investigar as múltiplas faces do amor. A proposta poderia facilmente se transformar em um simples recital. No entanto, Pedro Luís construiu uma narrativa em que leitura e música se alternavam com naturalidade, permitindo que os textos ganhassem novas camadas de significado quando cantados. O livro reúne mais de 40 poemas, letras inéditas e composições escritas individualmente ou em parceria, demonstrando como sua produção literária dialoga diretamente com sua obra musical. Ao revisitar temas como afeto, desejo, ausência e conflito, o artista evita uma visão idealizada do amor. Seus poemas percorrem sentimentos contraditórios — o aconchego e a cólera, a esperança e a perda — revelando uma escrita que encontra força justamente na simplicidade da linguagem. Quando essas palavras se transformam em música, percebe-se que a fronteira entre poeta e compositor praticamente desaparece. A homenagem a Luiz Melodia, lembrado em dois momentos da apresentação, não soaram como meras citações afetivas. Funcionaram como referências estéticas que ajudam a compreender a filiação artística de Pedro Luís: uma música popular brasileira em que poesia, ritmo e interpretação possuem o mesmo peso. O público acompanhou a apresentação em silêncio atento, algo pouco comum em encontros literários com música. Essa escuta concentrada mostrou que a proposta do Dedo de Prosa encontrou um formato capaz de aproximar leitores, ouvintes e admiradores da canção brasileira sem recorrer ao espetáculo convencional. Mais do que divulgar um livro, Pedro Luís ofereceu uma experiência em que literatura e música deixaram de ocupar espaços separados para compartilhar a mesma linguagem. Ao apostar nesse tipo de encontro, a FLIB reafirma que a palavra pode ser lida, cantada, interpretada e, sobretudo, vivida. Foi uma das apresentações mais coerentes com o espírito da feira, justamente por demonstrar que a poesia continua encontrando novos caminhos para dialogar com o público contemporâneo.

