Crítica - Quando a música faz o tempo desaparecer: Guilherme Rondon faz show impecável FLIB !
- Alex Fraga

- há 4 horas
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Existem espetáculos que terminam antes que o público perceba. As luzes se apagam e a reação é quase inevitável: "Já acabou?". Não por serem curtos, mas porque conseguem suspender a noção do tempo. Foi exatamente essa sensação experimentada por quem esteve na Praça da Liberdade, durante a Feira Literária de Bonito (FLIB), para assistir ao show de Guilherme Rondon. Há décadas, o compositor, violonista, cantor e arranjador constrói uma trajetória singular na música sul-mato-grossense. Seu diferencial nunca esteve apenas na técnica refinada ou na qualidade das composições, mas na capacidade de transformar sofisticação musical em emoção compartilhada. Em Bonito, essa característica apareceu em sua forma mais plena. Acompanhado por um verdadeiro selecionado de músicos do Estado — Gilson Espíndola (voz), Gabriel de Andrade (guitarra), Gabriel Basso (baixo), Marcelus Anderson (acordeon), Junior Matos (percussão) e Sandro Moreno (bateria) — Rondon conduziu um concerto de altíssimo nível artístico, em que cada integrante teve espaço para demonstrar personalidade sem comprometer a unidade sonora do conjunto. A abertura com "Maracangalha", de Dorival Caymmi, já indicava o caminho escolhido para a noite. Longe de uma simples releitura, a canção recebeu novos contornos harmônicos e rítmicos, revelando um trabalho de arranjo sofisticado, mas sempre a serviço da música. Em seguida, o repertório mergulhou na produção autoral do artista. "Paiaguás", parceria com Paulo Simões, surgiu renovada por um arranjo que ampliou sua força poética. Era o primeiro sinal de que aquele não seria apenas um desfile de sucessos, mas uma verdadeira reconstrução musical de obras já conhecidas. "Num Bis", composta com saudosa Luhli, trouxe delicadeza e lirismo, enquanto "Chega de Cidade" e "Sonho Inca", parceria com Alexandre Lemos, ampliaram a densidade do espetáculo. Nesta última, a crítica social presente na letra ganhou ainda mais peso diante da interpretação intensa de Rondon. A canção permanece atual justamente por denunciar um mundo marcado por desigualdades e pela perda de sensibilidade diante das injustiças. Na segunda metade do show, vieram "Até Lugar Nenhum" e "Crime e Castigo", ambas reafirmando a qualidade do repertório. Antes desta última, Guilherme interrompeu a apresentação para brincar com o público ao lembrar que a música divide o título com o clássico de Fiódor Dostoiévski, comentando, entre risos, que o escritor "ainda bem nunca cobrou direitos autorais". O momento descontraído revelou um artista particularmente leve, comunicativo e confortável no palco — talvez uma das apresentações mais espontâneas de sua carreira recente. "Hora Contada", parceria com ZéEdu Camargo, apareceu em nova leitura, distinta da gravação feita pelo Duo Beck & Montanaro, demonstrando mais uma vez a capacidade de Rondon de revisitar seu próprio repertório sem perder identidade. Um dos momentos mais emocionantes da noite chegou com "Vida Bela Vida", composta com Paulo Simões e eternizada também na voz de Almir Sater. A interpretação recebeu tratamento delicado, sustentada por um arranjo de rara beleza que arrancou uma das mais calorosas respostas da plateia. No encerramento, "Espelho Deslizante", criada em parceria com Celito Espíndola e Paulo Simões, manteve o alto nível do espetáculo, seguida por "É Sempre Assim" e, finalmente, pela festiva "Japonês Tem Três Filhas", clássico de Geraldo Roca, que levou o público a cantar e celebrar o final da apresentação. Individualmente, todos os músicos tiveram atuações impecáveis. A voz marcante de Gilson Espíndola, a inventividade da guitarra de Gabriel de Andrade, a precisão do baixo de Gabriel Basso, a musicalidade refinada do acordeon de Marcelus Anderson, a consistência rítmica de Junior Matos e a impressionante versatilidade de Sandro Moreno formaram uma engrenagem de rara qualidade. Mais do que um excelente show, Guilherme Rondon apresentou um manifesto artístico sobre aquilo que a música sul-mato-grossense tem de mais sofisticado. Sua obra dialoga com a tradição regional sem abrir mão da experimentação, da poesia e da excelência técnica. Talvez por isso seja inevitável uma reflexão. Embora seja reconhecido nacionalmente por músicos, pesquisadores e intérpretes, Rondon ainda parece receber em Mato Grosso do Sul menos reconhecimento institucional do que efetivamente merece. Em tempos em que a cultura frequentemente privilegia o imediatismo e o entretenimento descartável, apresentações como esta lembram que a arte também pode ser exigente, profunda e transformadora. Ao incluir Guilherme Rondon na programação da FLIB, a organização da feira fez uma das escolhas mais felizes desta edição. Resta apenas lamentar que um espetáculo dessa grandeza tenha acontecido em uma quinta-feira, quando certamente merecia um público ainda maior. Ainda assim, quem esteve presente testemunhou uma apresentação que dificilmente será esquecida.





MS precisa valorizar esse artista.
Luciana Andrade
Jardim MS
Guilherme Rondon é maravilhoso
Sônia Maria
São Paulo SP