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Crítica - CineSur: quando um festival entende sua missão, o cinema agradece

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

Ao encerrar sua quarta edição, o Bonito CineSur já não pode ser tratado como um festival promissor. A fase da expectativa terminou. O evento alcançou maturidade e passou a ocupar um lugar de destaque entre os principais festivais de cinema do Brasil. E fez isso sem recorrer ao caminho mais fácil: o de transformar o tapete vermelho em espetáculo e o cinema em mero pano de fundo. O CineSur demonstra que um festival só se justifica quando possui uma identidade. A sua está clara. Enquanto muitos eventos disputam estreias internacionais ou celebridades para produzir manchetes, Bonito decidiu apostar naquilo que realmente diferencia um festival: a curadoria. A escolha de privilegiar o cinema sul-americano e dedicar uma mostra competitiva exclusiva às questões ambientais revela uma compreensão rara de que cultura também é instrumento de reflexão política, social e ambiental. A mostra ambiental, aliás, foi um dos grandes acertos desta edição. Os filmes exibidos expõem as feridas abertas pela exploração desenfreada da natureza e pelas mudanças climáticas que já transformam a realidade do continente. Entretanto, chama a atenção um certo padrão narrativo. Boa parte das produções parece acreditar que o impacto da denúncia basta para construir uma boa obra. Quase todas preferem permanecer na contemplação da tragédia. Falta, em muitos casos, revelar a extraordinária capacidade de regeneração dos ecossistemas e das próprias comunidades que resistem aos desastres. Denunciar é indispensável, mas o cinema também pode iluminar caminhos, não apenas contabilizar perdas.

Outro mérito do CineSur está na mostra sul-mato-grossense. Em um Estado onde produzir cinema ainda depende muito mais da obstinação dos realizadores do que de políticas públicas permanentes, oferecer visibilidade a essas obras é um gesto de reconhecimento artístico e também de resistência cultural. O festival compreende que fortalecer o cinema local não é um favor aos cineastas; é uma obrigação de qualquer evento que pretenda dialogar com o território onde nasceu. As oficinas, debates e aulas-charla confirmam outro aspecto importante: o CineSur entende que formar espectadores é tão importante quanto exibir filmes. Um festival que apenas projeta obras termina quando a última sessão acaba. Um festival que promove encontros, provoca debates e estimula pensamento continua vivo muito depois de apagadas as luzes da sala. A presença de atores, diretores e produtores brasileiros e sul-americanos reforçou o prestígio conquistado pelo evento. Mas, diferentemente do que acontece em muitos festivais, as celebridades não sequestraram o protagonismo. Os filmes continuaram sendo a principal atração, exatamente como deveria acontecer em qualquer evento comprometido com o cinema. Também merece registro o profissionalismo da organização. O cuidado dispensado aos convidados, aos participantes e especialmente à imprensa revelou uma equipe que compreende que a experiência de um festival começa muito antes da primeira sessão e continua depois dos créditos finais. Esse respeito, infelizmente, ainda é exceção em muitos eventos culturais brasileiros. Existe, contudo, um contraste que não pode passar despercebido. Enquanto o CineSur cresce em relevância nacional, parte da população de Bonito ainda parece não perceber a dimensão do patrimônio cultural que tem diante de si. Salas que poderiam estar lotadas por moradores muitas vezes foram ocupadas majoritariamente por convidados e profissionais do setor. É um paradoxo: uma cidade reconhecida internacionalmente por seu patrimônio natural ainda não incorporou plenamente um patrimônio cultural que começa a ganhar reconhecimento muito além de suas fronteiras. Naturalmente, essa responsabilidade não recai apenas sobre o público. Ela também revela a necessidade de ampliar ações permanentes de formação de plateia ao longo do ano, aproximando escolas, universidades e comunidades de um festival que não pode existir apenas durante uma semana. Mesmo assim, o saldo é amplamente positivo. O Bonito CineSur encontrou algo que muitos festivais jamais conseguem construir: personalidade. Já não precisa provar que merece existir. Precisa apenas preservar aquilo que o tornou relevante: uma curadoria coerente, compromisso com o cinema sul-americano e coragem para defender temas que raramente encontram espaço no circuito comercial. Se permanecer fiel a esse caminho, o CineSur deixará de disputar espaço entre os principais festivais brasileiros para tornar-se, definitivamente, uma das grandes referências do cinema sul-americano. O desafio daqui para frente já não é crescer. É não perder a identidade que o trouxe até aqui.

 
 
 
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