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Crônica - Nélida Piñon e o livro das horas, por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica da professora, escritora e poeta Raquel Naveira com seu texto Nélida Piñon e o livro das horas.

NÉLIDA PIÑON E O LIVRO DAS HORAS


Separei hoje todos os livros de Nélida Piñon (1937-2022), que estavam em minha estante. Muitos livros autografados, sublinhados, vivenciados em meu espírito de leitora que a acompanhava há décadas.

Nélida era amiga gentil, fascinante na oratória, fonte de inspiração, modelo de vida dedicada à literatura. A literatura como energia, delírio, aventura. Era arguta na inteligência, simples e sofisticada ao mesmo tempo. Visitou-nos em nossa casa em Campo Grande, numa noite fria e estrelada. Sempre me dizia toda vez que nos encontrávamos: “_Naveira é nome galego. Aquele que constrói naves.” Sim, navegar é preciso, Nélida. É a ordem antiga dos marinheiros fenícios e o mar é a imaginação.

Dentre a pilha de livros, escolho este de capa cor de mármore: Livro das Horas. Os Livros das Horas eram livros de orações que as pessoas consultavam como oráculos para encontrar sentido e consolo para as aflições da existência. No seu particular Livro das Horas, Nélida alia sua capacidade de contar histórias ao patrimônio precioso de sua memória. Logo no princípio ela anuncia: “Não vivi sem resultados, minha vida não foi inóspita.” Família, viagens, leituras, objetos da casa, história, amigos escritores como Rachel de Queiroz, anotações, frases de escriba, declarações de amor à vida e à língua portuguesa, formação literária, mitos revisitados, pequenos arrependimentos, o tempo refletido no espelho, o caráter dramático e emocionado de artista da palavra, tudo está ali, nas horas descritas.

A certa altura, Nélida confessa que lê a vida dos santos, as hagiografias, analisando atentamente neles a tentação do pecado e como cada um reagiu diante dos reclamos de sua humanidade, pois não há vida sem pecado, sem deslizes que desagradem a Deus. Justificando o título do livro, Nélida se lembrou de Wilgefortis, a santa mais excêntrica da Idade Média, patrona das mulheres barbadas, condenada à morte por seu próprio pai, um rei luso. Explica ela: “Wilgefortis, por exemplo, cedo ganhou o estatuto de santa. Desconfio que, além dos méritos próprios, pesou a sua estranheza. Lá está ela no Livro das Horas, as folhas iluminadas com o raro esplendor de seu enredo. Ao manusear a página que a ela se refere, seu martírio me é incompreensível. Como compreender a fé que a animava e levou-a à morte? Enquanto penso em seu martírio, esqueço o livro das orações. E não peço por ela e nem por mim. Constato que rejeito a salvação ao preço do horror.”

Num outro ensaio, Nélida, em sua discreta elegância, fala sobre seu relacionamento de amizade com o instigante poeta Bruno Tolentino, o autor do Livro das Horas de Sóror Katharina. Bruno, segundo Nélida, “foi belo na juventude, brilhante e atrevido. O espírito atilado e a habilidade verbal afugentavam os passageiros do cotidiano verbal. Uma fúria que ainda persiste.”

Sobre um encontro que teve com o questionador poeta Tolentino, ela recorda: “Desejo encerrar o questionário para falarmos do passado de Clarice Lispector e Marly de Oliveira. Quando nós três íamos visitá-lo no sítio, em Jacarepaguá, onde criava galinhas, colhíamos frutas, legumes e ovos, enxotávamos as moscas. No alpendre, saboreávamos o café e as rosquinhas. Na hora do almoço, a comida mineira, que vinha à mesa, era de boa cepa. Ríamos e sentíamo-nos jovens e eternos, na iminência de adquirir um amadurecimento que inevitavelmente envenenaria o nosso futuro.”

Durante a visita, Tolentino insiste em fazer perguntas filosóficas e capciosas à Nélida, ela o dissuade de prosseguir, mencionando a poesia dele, o bilhete carinhoso que encaminhara a ela dias antes. Ele aceita o desfecho da entrevista e ela enaltece seus olhos

em chama, as memórias que tinham em comum. Nélida constata então que todos, Tolentino, Clarice e Marly, já se foram. Ela é a única sobrevivente. E chora.

O Livro das Horas de Nélida Piñon nos mostra que quando nos entregamos a um ofício e ao aprendizado do amor “as horas não passam em vão.”

Fecho a capa cor de mármore. Conheci Nélida e Tolentino. Li Clarice Lispector e Marly de Oliveira. Sou eu agora a única sobrevivente. “Vou morrer e nada sei”, escreveu Nélida. Choro.

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