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Conto - Reinações do rei Um Sete Um, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Reinações do rei Um Sete Um


Reinações do rei Um Sete Um


Acreditem, mas isso aconteceu num tempo mítico, pouco depois de uma família real mal coroada deixar o reino central. Nessa época muitos bobos da corte perderam o emprego. Não fazia sentido pagar bobos da corte numa corte repleta de bobos amadores mais baratos.

Um dos membros da família real foragido, digo exilado, foi ser o bobo da corte, digo secretário de estado, em outras paragens. Escolheu para seu exílio o grandioso País Meridional Mítico, conhecido pelas torres altas, as praias de areia larga e a virtude inigualável de seus cidadãos raízes.

A capital do País Meridional Mítico situava-se em uma linda ilha, ligada ao continente por extensa ponte de maneira. O país era governado por Dom Manuel Centésimo Septuagésimo Primeiro, ou simplesmente Manequinho Mais Um. Dizem que por ser o centésimo septuagésimo primeiro rei Manuel, ele achava difícil escrever e falar a sua numeração. Para não ser chamado de Manequinho Um Sete Um, título que poderia denegrir sua imagem ilibada, ele, com toda sua humildade, adotou o título de Manequinho Mais Um. Mais um como os outros tantos vindos antes dele.

Uma outra versão para seu título, conta que o rei ficou irritado pelo afluxo de tantas pessoas chegando em sua ilha. Talvez por suas belas praias e o clima agradável, estrangeiros chegavam todos os dias para conhece-la, gostavam do lugar e ali ficavam morando. Um dia o rei estava sentado dentro da carruagem real, estacionada próxima a ponte e a cada novo súdito que entrava pelo portão da cidade, ele bufava:

— Mais um!

Difícil entender o que se passa na cabeça de um rei do País Meridional Mítico em tempos antigos. O fato é que Dom Manequinho Mais Um cismou que só deixaria ingressar em sua ilha quem fosse digno e estivesse à altura de conviver com a seleta população local.

Manequinho Mais Um mandou redigir um decreto determinando os requisitos exigidos para a entrada e permanência na ilha: a pessoa deveria ter o biotipo adequado, parecido ao do rei; possuir dinheiro no bolso, quanto mais melhor; ter endereço fixo e informar sua ocupação. O rei também incluiu no pacote mais algumas exigências quanto a família, religião e intimidades de alcova.

Para ajudá-lo nessa tarefa, foi chamado o exilado, que não servia para bobo da corte, mas adequava-se perfeitamente ao cargo de secretário de rei. O secretário fez alguns

ajustes ao texto. Ele também convenceu o rei que ainda não era a hora para selecionar as pessoas por suas características físicas ou raciais, segundo o secretário, tudo ocorreria ao seu tempo, e quando o rei obtivesse um apoio um pouco maior, aí sim poderia emplacar tal exigência, que com certeza seria bem recebida pelos cidadãos de bem. Nesse primeiro momento, bastava possuir uma grande quantidade de dinheiro, isso já eliminaria a maior parte dos indesejados por outros motivos relevantes, mas ainda polêmicos.

Alguém, que não foi o rei, nem o exilado, sugeriu aplicarem um teste com algum cidadão que representasse as características padrões esperadas em um morador do reino. O teste foi aplicado em um voluntário próximo e o resultado foi o seguinte: embora a aparência ainda não seja um dos requisitos a ser avaliado, apenas como informação adicional, o entrevistado não se parece em nada com o rei (observação: no futuro, sugere-se incluir como parâmetro para aferição de aparência, além do biotipo do rei, também os dos componentes da guarda real, do jardineiro do palácio e de dois ou três secretários de estado); quanto a portar dinheiro, no momento da entrevista o entrevistado estava sem um tostão no bolso (observação: ele respondeu, de forma arrogante, que não precisava desse tipo de papel para ter o que quisesse na Ilha); quanto ao local de residência, o entrevistado se limitou a dizer: — Moro aqui! (observação: ele não possuía qualquer tipo de comprovante de residência); quando perguntado sobre sua profissão ou emprego, seus olhos brilharam e ele respondeu estar esperando ser chamado para um alto cargo. Segundo ele, em breve tempo, ocuparia a vaga de Manequinho Um Sete Dois.

— Quem aquele bastardo, filho de Dona Maria Mais Um de Outro, pensa que é? Se depender de mim ele nunca será o próximo Mais Um! — bradou o irritado e implacável rei.

Dizem que o rei Manequinho Mais Um, seguiu no poder por mais algum tempo. Durante seu reinado ele ainda instituiu outras exigências para barrar a entrada dos indesejáveis em sua ilha. Uma delas foi criada num momento de ócio criativo. Deitado na cama, cutucando uma batata de bicho de pé com espinho de laranjeira, naquela época os grandes soberanos também cultivavam bicho de pé. A verdade é que ele viu no dedo mindinho de seu pé esquerdo três longos pelos saindo do dorso da falange distal. Daquele dia em diante estava decretado mais um novo critério para a entrada, ou não, de forasteiros na cidade. Só seriam admitidos novos moradores que tivessem o dedo mindinho do pé esquerdo torto, com três pelos saindo da pele branca do dorso da falange distal. Pequenos detalhes de pele que fazem toda a diferença na aferição das virtudes humanas.

Como tudo passa, mesmo quando da pior maneira, igual àquela dor de barriga que vira diarreia e vai embora, Manequinho Mais Um também passou. Um dia, depois de ter causado muitas cólicas, o rei tornou-se indesejado e foi excretado, digo deposto, num violento piriri, digo golpe de estado.

 
 
 

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