Conto - O último dia de Álvaro Abreu, por Rogério Zanetti
- Alex Fraga

- há 3 horas
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com Rogério Alexandre Zanetti, jornalista e publicitário, produtor de (Campo Grande MS), com "O último dia de Álvaro Abreu"
O último dia de Álvaro Abreu
Álvaro Abreu sempre se considerou um sujeito azarado. “Não acho nada, sou sem sorte”, sempre diz perguntam sua opinião sobre algo. Mesmo assim, antes de pensar em fechar o comércio, ao final do dia, resolveu passar pela lotérica e cravar os seis número na Megasena. Depois, iria para casa para o merecido descanso. “Sou tão azarado que vou acabar acertando”, suspirou. E assim o fez. Depois disso, pôs-se a atravessar a rua para acessar sua moto, do outro lado da rua. Álvaro sequer viu que o carro que o atropelou era um furgão que transporta carnes de açougue em açougue. Morreu ali mesmo, traumatismo craniano e múltiplas fraturas, apontou seu atestado de óbito.
Dez horas antes, Álvaro Abreu acordou as seis da manhã, como em todos os dias. Foi ao banho, e em seguida fez e tomou seu café. Estranhou. “Curioso, não escorreguei e não derrubei nada, até agora”. Como sempre, vestiu-se rapidamente, calçou os sapatos e novamente estranhou, não trocou os pés do calçado. Na garagem, o velho Del Rey pegou de primeira vez, o motor roncou, ele suspirou surpreso, engatou a primeira marcha e pôs-se no caminho do trabalho.
Chegou ainda faltando cinco minutos. Ao entrar no prédio, a estranheza foi geral. Álvaro, enfim, não chegara atrasado. E, durante toda a manhã, seu trabalho de contador fluiu bem, sem reclamações de chefes com erros bobos ou algo que tenha digitado errado o atrasara.
Na hora do almoço, no pé sujo do outro lado da rua, não derrubou comida ou o suco de polpa na camisa azul bem claro. Fumando um cigarro, não pode deixar de notar que era mesmo um dia atípico, sem sustos no trânsito ou azares tão normais em tua vida. Deu uma longa tragada e teve um vislumbre ao olhar um cartaz que anunciava uma espécie de bingo solidário pregado na parede. Eram seis números, que anotou para ao final do expediente jogar na Mega Sena: 02, 09, 23, 27, 36 e 52. Guardou a anotação em guardanapo no bolso e depois de um pedido, sem reclamação de pendura essa para mim, caminhou de volta para o trabalho.
A tarde seguiu tranquila, com pouco trabalho – havia adiantado bem o dia pela manhã, e planos para o final de semana: um bate e volta a Piraputanga, um bar de música sertaneja raiz ou mesmo ficar em casa, cozinhar (“tomara que desta vez não me queime”) e convidar uma moça para provar de seu tempero.
Final de expediente, incrédulo, Álvaro passa pelo mesmo bar que costuma almoçar e apanha três chipas para o lance da noite antes de dormir. Quase final da tarde e hoje parece meu dia de sorte. Pouco depois, seu corpo está entendido no chão, bilhete da loteria na mão. O policial da guarda de trânsito que atendeu o sinistro lhe verifica os bolsos, confere documentos e referências para notificar parentes guarda o bilhete de Álvaro em seu bolso. No dia seguinte, ele resolve conferir o bilhete. Dos seis números jogados, nenhum acerto. O falecido Álvaro Abreu era mesmo um homem azarado.





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